Fora da lei
20/11/2018 - 15:50

Com 20 álbuns lançados, participações na tevê e uma pouco conhecida produção acadêmica, Rogério Skylab segue à margem do mercado e afirma: “Sou um cancionista”

Kamille Viola

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Fotos: Bárbara Lopes

São 10 horas de uma terça-feira quando Rogério Skylab recebe a equipe da Helena. Ele está lançando O rei do cu, seu 20º álbum, e abre as portas de sua casa no Rio para uma conversa de três horas. Com a fala mansa, não parece o artista que canta sobre escatologia e outros temas do universo trash. Casado “há uns 28 anos” com a artista plástica e dentista Solange Venturi (responsável pelas capas de seus discos), ele vive em uma vila da década de 1930 tombada no bairro de Botafogo. Aposentado do Banco do Brasil, divide seus dias entre a música, a internet e as horas diárias que passa em bibliotecas (atualmente frequenta a da PUC, das 16 até por volta das 22 horas).

Com 62 anos completados em setembro, Rogério Tomolei Teixeira ficou conhecido nacionalmente graças às várias, e antológicas, entrevistas concedidas ao Programa do Jô. Hoje tem pouco espaço na grande mídia — uma das exceções é o talk show de Danilo Gentili, que também o convidou para participar de seu filme, Como se tornar o pior aluno da escola (2017) —, mas encontrou nas redes sociais uma maneira de comunicar suas ideias. No Facebook, são 20 mil seguidores em um perfil, 21 mil em outro e uma fanpage com quase 75 mil curtidas. No Twitter, são quase 24 mil seguidores. No espaço virtual, age da mesma forma que nas entrevistas: como uma metralhadora giratória (a não ser quando a pergunta trata de sobre sua vida pessoal, então se torna menos verborrágico).

Os fãs de perfil conservador, como Gentili, são provavelmente fruto de sua fase trash, em que o cantor e compositor fez músicas como “Motosserra” (do disco Skylab 2, em que um homem traído descreve como serrou as partes do corpo da amada) e “Você é feia” (de Skylab 5, com versos como “Você é feia / É feia pra caralho / É pobre / Mora na rua / É perigosa” e “Está com Aids / É paranoica / Porra-louca / É feia pra caralho”), que hoje evita incluir em seu repertório. Ele defende, no entanto, que, na época em que as letras foram escritas, era necessário “chutar a porta” para quebrar a caretice da MPB e do rock da geração anterior.

Em sua extensa discografia, Skylab passou por diferentes estilos musicais, como rock, experimentalismo, samba, MPB. Coleciona trabalhos com nomes do quilate de Jorge Mautner, Jards Macalé, Arrigo Barnabé, Livio Tragtenberg, Romulo Fróes, Luiz Tatit, Fausto Fawcett. Tem um livro de poesia publicado, Debaixo das rodas de um automóvel (Rocco, 2006), e chegou a apresentar um programa de entrevistas no Canal Brasil — Matador de passarinho (título de uma de suas músicas mais conhecidas), exibido entre 2012 e 2014.

Formado em Filosofia pela UFRJ, escreve sistematicamente em seu blog e no Academia (rede social de compartilhamento de textos acadêmicos). E promete, para breve, publicar um estudo sobre Fausto Fawcett por uma editora portuguesa e um ensaio sobre Os Mutantes pela Azougue Editorial. Na entrevista a seguir, ele fala sobre algumas dessas atividades e temas como humor, crítica, indústria musical, tecnologia e política.

Pontos de virada 

“Assinalo três pontos que foram fundamentais na minha carreira. Primeiro, foi a recepção do Jornal do Brasil ao meu primeiro disco. Fora da grei foi eleito um dos melhores lançamentos daquele ano [1992]. Mas n’O Globo a indiferença é absoluta do início até hoje. Existe uma linha do jornal que sempre me negou. Outro ponto importante foi o Centro Cultural São Paulo. Lancei todos os meus discos lá. Tenho um público em São Paulo muito grande. Diferentemente de hoje, que a curadoria é de uma outra pessoa que não gosta do meu trabalho. E o terceiro ponto é o Jô Soares [Skylab foi entrevistado várias vezes no talk show, que teve o último programa exibido em 2016].

Ocupação 1

A internet para mim é muito importante. O Torquato Neto, que para mim foi um dos grandes da cultura brasileira, dizia: “Quando a gente está mal politicamente, todos os espaços estão invadidos, a gente está encurralado, o que a gente tem que fazer é ocupar espaços. Mesmo que seja de campos inimigos”. Torquato, por exemplo: a coluna dele era extremamente libertária, num jornal extremamente conservador. E já havia essa espécie de patrulhamento. Já vi gente falando: “Ah, mas o Facebook é administrado por...”, “Ah, o Facebook...”. Tem que entrar no Facebook. Tem que entrar no Twitter. Tem que ocupar espaço. A ideia é essa. Então na internet escrevo muita coisa. Falo o que penso. E também é uma espécie de laboratório literário para mim.

Ocupação 2

Hoje tem uma pessoa que adora o meu trabalho e é extremamente conservadora [Danilo Gentili], talvez a mais conservadora da televisão brasileira. Ele chega a ser de direita mesmo. Mas, porra, ele gosta de mim! Quando eu quiser, ele abre as portas. É lógico que sou de uma outra linha política. Você acha que vou ter escrúpulos morais para dizer “Não, nesse programa eu não vou?”. Lembro do Criolo numa época dizendo: “Fulano de Tal da Globo, fiz questão de não ir”. Eu jamais faria uma coisa dessas. Trabalho com música, quero difundir o meu trabalho, divulgar o meu trabalho. É claro que vou entrar lá e não vou deixar o cara falar. Não é hora de escrúpulos morais, é hora de ocupação de espaço.

Outros tempos

Tem repertório dos anos 1990 que evito cantar porque os tempos são outros. Mesmo achando “Motosserra” uma música poeticamente muito bonita, apesar de eu falar coisas terríveis, hoje me sentiria um pouco constrangido de cantar. E as feministas provavelmente ficariam muito putas.

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Mudança gradativa

Me sinto muito ligado ao real, me afeta muito. Isso me dá a possibilidade de falar sobre o sentido da palavra politização. Acho que um dos grandes problemas do Brasil é a despolitização, porque politização não tem nada a ver com a educação. Existem pessoas extremamente cultas, que passaram pelas melhores escolas do Rio de Janeiro, que ocupam cargos importantes, como juízes, e que são completamente despolitizadas. O sentido da politização que quero dizer é você estar ligado ao real, aos problemas da sua comunidade. Você pode estar estudando Hegel, Platão, Sócrates, vivendo em uma biblioteca estudando alta filosofia abstrata, ser extremamente culto e ser despolitizado. Por outro lado, você pode ir para uma sociedade do Brasil profundo, de miséria absoluta, com pessoas que não sabem nem escrever o nome e que podem ser extremamente politizadas. Acho que, no meu trabalho, eu seja politizado porque o real me afeta, e teve um determinado momento em que o real me disse assim: “Não continua nessa linha do trash, não, que tu vai se dar mal”. Foi o que me levou a uma mudança gradativa na minha música. Não que, volta e meia, eu não cante alguma mais marcante. Mas, se puder evitar, evito.

Geração 80

Volta e meia me bato contra esse rock dos anos 1980, e nem é porque eu tenha alguma crítica em relação a esses garotinhos branquinhos da classe média, nada disso. É porque, na verdade, eles foram convidados à festa. Eles foram. Se eu tivesse sido convidado, se o [grupo] Zumbi do Mato tivesse sido convidado, iríamos comer e beber do bom e do melhor, ficar ricos, comprar apartamentos, esse negócio todo. Mas eles não eram os donos da festa, esse que é o problema. Esses garotos foram marionetes de pessoas que eram os anfitriões da festa. A minha questão é com o André Midani [um dos maiores executivos da indústria fonográfica brasileira entre as décadas de 1960 e 1990]. É com esse senhor, que foi acusado pelo Glauber Rocha de ser agente da CIA. Não interessa chegar e bater na Legião Urbana, Cazuza, Barão. O anfitrião da festa que é o problema, o “x” da questão. A produção dos discos, o tipo de som que se ouve nos discos, eles não tinham nenhum poder sobre isso. Se você ouvir Legião, Cazuza, eles são muito ruins. Mas não é uma coisa pessoal contra esses meninos, é contra o anfitrião.

Lobão

Houve um determinado momento na vida desse rapaz em que aconteceu uma lavagem cerebral ali, claramente, porque ele não era assim. Lancei o Skylab 5 pela Outra Coisa [revista lançada por Lobão que trazia um CD em cada edição] e fiz show com ele. Mudou da água para o vinho. Agora, o que acontece é o seguinte: o Lobão é um cara talentosíssimo como músico. Mas acho que o último álbum dele, O rigor e a misericórdia [2016], é ruim. A política invadiu e ficou um trabalho que não tem nada a ver com A vida é doce [1999], por exemplo, que é um disco genial. Até o próprio Canções dentro da noite escura [2005] é genial. É muito bom. O Acústico [2007] que ele fez na MTV foi muito bom, maravilhoso. O último disco, não. Mas você tem que ver a história dele. Como músico, é um compositor de respeito. Então não é por uma questão do discurso. Mas o cara é competente. Vi um show dele no Circo Voador, do caralho. Um trio, som poderoso. Ao mesmo tempo, tem uma turma de São Paulo ligada ao PT que é fraquinha. É questão de som, de música. O Lobão é muito melhor.

Perfil do público

Tenho um sítio na Serra da Mantiqueira, numa cidadezinha chamada Gonçalves. De vez em quando, saio para umas cidadezinhas, para fazer compras, e outro dia fui em uma chamada Paraisópolis, que fica no sul de Minas. Andando na rua, me cercam uns garotos de 14 anos. Se você pensar na configuração daqueles garotos, não são intelectualizados. Diria que são adolescentes que gostam de rock e tal. Diria até que são meio bobos. Aí tirei foto com eles. E fiquei pensando: qual é a relação que eu tenho com esses garotos? Nenhuma. A questão da renovação de idade do público, não sei se ela passou por uma outra cabeça, outro tipo de pessoa, mais intelectualizada. A renovação às vezes pode continuar na mesma linha do rock bobão. Agora, o que tem sido muito importante são os meus posts. Porque neles eu venho explorando um lado que talvez a pessoa não tenha acesso nas músicas. E também é muito difícil falar de política na música de forma explícita, como eu coloco nos posts. Sempre que as pessoas me perguntam isso, eu digo: para mim, o público é um mistério. Sempre foi, desde o início. Desde que comecei, havia pessoas de 60 anos e garotos de 15 que gostavam.

Humor

Fujo do humor como o diabo da cruz, acho o humor muito perigoso. Há uma linha tênue separando o politicamente incorreto do antiético. Conheci uma menina [Silvia Pilz] que tinha um blog n'O Globo e fez um post sacaneando as pessoas com Síndrome de Down . Fui o primeiro a reagir, a dizer: essas pessoas não têm a consciência dessa linha tênue. Às vezes, o Danilo [Gentili] embarca nisso, porque são pessoas que não conseguem fazer essa separação. E tem uma turma muito moderninha, mas que está correndo o risco de fazer besteiras monumentais, que é a do [canal do YouTube] Choque de Cultura. São mais intelectualizados que o Danilo Gentili, mas estão correndo o risco.

Matador de passarinho

Recentemente, escrevi um post que deixou muita gente chocada. Dizia assim: “Olhando em retrospectiva, digo que o programa foi um equívoco”. Por quê? Eu escolhia os convidados, as entrevistas eram ótimas, não tenho nada quanto a isso. O problema era o formato. Porque tinha colagens de mim falando coisas, não sei se você chegou a ver o programa, de humor. E era uma coisa que eu nunca gostava. O diretor [Leandro Ramos] e o editor [Terêncio Porto], que são ligados a esse Choque de Cultura, faziam questão de explorar, de investir no lado do humor. Quando terminava, eu sempre saía frustrado. E falava: “Porra, porra, puta que pariu...”. O programa que fez mais sucesso foi aquele em que entrevistei o Júpiter Maçã [morto em 2015]. Porque aquela entrevista é triste. Você pode até rir, mas não tem graça, não tem humor. E aquela entrevista não teve colagem nenhuma, era direto. É a mais procurada. Foi uma entrevista trágica, porque ele estava muito mal. Ele chegou completamente dopado. E, ao mesmo tempo, completamente dopado, ele fez uma grande entrevista. Acho o Júpiter Maçã um grande compositor, é um outro cara injustiçado e que a crítica não deu o valor que deveria dar.

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Ao vivo e no estúdio

Quando abandonei a série de discos Skylab [do I ao X], praticamente gravados ao vivo, estava desgostando desses processos, querendo fazer outras coisas de montagem, usando muito computador, manipulação de estúdio, comecei a visualizar isso. Apesar do Skygirl [2009] ter sido um disco muito instrumental, foi a partir da Trilogia dos Carnavais que comecei a fazer discos de estúdio mesmo. O computador passou a ser mais importante, era uma outra sonoridade. Depois fiz uma outra trilogia, com o Livio Tragtenberg, paulista, que fez muita trilha pra cinema. Ele também usava computador maravilhosamente bem, manipulava muito bem. Aí resolvi, na Trilogia do Cu, voltar à música instrumental mesmo, com pouca manipulação, com a banda tocando sempre, em trio. Então está sendo, sonoramente, uma volta à série dos Skylabs, quando eu gravava ao vivo, com instrumento tocando, estava com saudades disso.

A canção

Não tenho preocupação com música. Sou um cancionista. Não sei se você entende o sentido pleno dessa palavra, cancionista. Não dependo de parceiro para fazer canção. Porque fazer canção é muito na linha do Luiz Tatit. É um professor da USP, um estudioso da canção, grande cancionista, inclusive tem parceria comigo. O volume 3 do Skylab & Tragtenberg tem uma música do Luiz Tatit [“Índio Infinito”], com ele cantando. A melodia é dele e a letra, minha. Para mim ele é uma figura muito importante, da linha racional da música brasileira, e ele falava sobre essa questão. Ele dizia: “É como o Noel Rosa falava, samba não se aprende no colégio”. A canção você não aprende no colégio, é uma coisa extremamente pragmática, prática. Você tem que fazer canção para saber, e eu passei a vida toda fazendo. O que é canção? É você misturar a letra com a melodia, que é uma junção mágica, é alquímico isso, entendeu? Por isso que ela não é nem poesia. Se você ler uma letra do Chico Buarque, vai dizer: que merda, é horrível. Não é para ler, é para cantar.

Bibliotecas

Sempre vivi essa vida de rato de biblioteca. Estudo sistematicamente e, a partir de um determinado momento, passei a seguir fichamentos. Porque eles vão ser importantes para eu elaborar o texto mais tarde, então cheguei à conclusão de que, quanto mais estiver trabalhando dentro dos textos, mais vou estar produzindo música. A minha música está ligada a essa vida intelectual que sigo há anos.

A crítica

Escrever para mim tem relação com pesquisa. E isso me dá oportunidade de falar do problema da crítica musical no Brasil formada na grande imprensa. Para mim, é toda analfabeta. Porque eles são muito ruins. Porque eles têm pouco estudo. E é uma coisa curiosa. Isso que é mais terrível. Porque o grande crítico de música, por quem tenho mais respeito, porque é um grande pesquisador, é um cara conservador. É lógico que levou pontapé do Caetano, do Gil. Para esse eu tiro o chapéu: José Ramos Tinhorão. Porque a nossa crítica musical é horrorosa. Eles teriam sido, digamos assim, formadores de opinião. E esse me parece que foi o grande problema. Porque foram todos eles, necessariamente, capachos da grande indústria. O veículo fazia com que eles fossem ligados à grande indústria, às grandes gravadoras. Então nunca eles iriam fazer uma aposta num novo compositor, num novo músico. Jamais. É diferente da crítica teatral, que teve um Yan Michalski [1932-1990]. Acho a crítica importantíssima. Você vê a Nouvelle Vague, por exemplo: todos eles eram críticos de cinema. Truffaut, Godard... Não tem diferença entre crítica e artista, não tem que ter essa diferença. Então, hoje, na música, as pessoas mais interessantes que escrevem são artistas. Romulo Fróes, que é um músico e compositor importante. Eles têm que escrever, porque a crítica não faz o papel dela.

Tim Maia

Morava numa rua de classe média, classe média baixa, no número 18 [Rua Conselheiro Barros, próximo à Rua Haddock Lobo, ponto de encontro de figuras como Tim Maia, Jorge Ben Jor, Roberto Carlos e Erasmo Carlos]. Ao lado da minha casa, o 22, era uma casa de cômodos, que “sujava” a rua, porque eram só trabalhadores, tipo um cortiço. Tem histórias maravilhosas dessa rua. Uma turma da pesada ia para o cantinho desse cortiço para fumar maconha. Lembro que o Tim Maia chegou para a minha mãe e falou assim: “A senhora pode emprestar o violão?”. Porque minha irmã aprendia violão. E a minha mãe: “O quê? Para você sujar o violão da minha filha? Jamais!”. Porque ele era tipo marginal mesmo, de ficar na rua. E ela não deu o violão para ele tocar. Que doideira, né? Puta que pariu!

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Ditadura militar

Foi como se não existisse. Porque na minha família não se falava nada. E no Colégio de Aplicação [da UERJ, onde estudou] muito menos! Então passei pela ditadura militar meio assim… Conheci um colega na faculdade, Sergio Schiller, e a mãe dele foi torturada. E eu pensava: caralho, estou entrando num universo do qual fui totalmente alijado. Pô, poderia ter algum professor de História… Mas não falavam nada, nada... Isso é uma coisa que tenho em relação aos meus pais, é meio indesculpável. Meu pai era advogado criminalista. A gente estava falando de politização, de olhar o real. E ali você não queria ver o real.

Funcionário público

O Banco do Brasil foi muito importante para mim. Acredito que para muitos colegas meus foi alienante. Mas, para mim, não. Você tem que fazer com que o banco sirva a você, não você servir ao banco. E ele me serviu. Acho que, se não fosse o banco, não conseguiria fazer o que fiz. Porque sempre fui um artista fora da indústria. E consegui produzir a minha discografia graças ao Banco do Brasil. Tem que ter dinheiro, né? O primeiro disco, então, foi caríssimo, porque era época do vinil. Hoje é facílimo. Eu era medíocre, e fazia questão de trabalhar apenas meio expediente, isso é um rigor para mim. Terminado o horário, ia para a biblioteca. Era uma resistência, para não me transformar num funcionário de banco como os meus colegas eram, de trabalho integral. E aí fodeu, se você trabalhou oito, nove horas por dia, sua vida está fodida. Então minha luta sempre foi essa. Lembro que meus colegas pegavam férias para ir a Miami, na época as pessoas iam lá fazer compra. Mas eu juntava meu dinheirinho para lançar disco.

Simone

Ela é petista também, aí acaba um influenciando o outro, mão dupla. Seria muito desagradável ser diferente. Até pode acontecer de um casal ter visões políticas diferentes, mas deve ser chato para caralho, porque devem acontecer conflitos. Problemático. Mas nós somos ligados nas coisas de artes. Ela me dá informação de arte, me mostrou por exemplo, [Paul] McCarthy, aquele artista americano. Ele é muito interessante. Ela está muito ligada à arte contemporânea.

Família

A minha mãe tinha vergonha. Ela era muito católica e nunca foi a um show meu, por exemplo. Ela ficava muito constrangida. Você imagina, tinha uma música em que eu falava “Jesus, eu chupava sua boceta”. Enfim, ela não gostava. Meus irmãos não têm relação nenhuma com arte, música, nada. Um é juiz, outra era médica, já falecida, outra professora, são quatro irmãos. Engraçado, o meu irmão que é juiz até se interessa por política, trabalhou num sindicato da CUT. Tem pessoas que são ligadas à política, mas não à arte.

Família 2

Como você pode nascer numa família alienada e não ser assim? Você tinha tudo para seguir essa alienação. E os seus irmãos seguiram, de uma certa forma. E você de repente segue um outro caminho. Isso eu falo por mim e vejo em outras famílias também. Isso que eu falo muito da música brasileira, das capitanias hereditárias. Quem acaba tendo muita visibilidade é quem tem o caminho aberto pelos pais. Você, sem ter um meio familiar que te proteja, tem que abrir sozinho o caminho, e isso talvez até te dê mais força. Porque normalmente os filhinhos de peixe não são muito... talentosos, digamos assim [risos]. Acontece muito isso na nossa cultura, e acho que é uma coisa portuguesa, que vem desde a colônia. É a questão da herança. O privado é mais importante que o público. O privado, o afetivo, é mais importante que o racional, público. Pensa, por exemplo, na máfia italiana. E aí a gente pode fazer uma analogia com as máfias aqui no Brasil também. Quando você vai fazer um comentário sobre um amigo seu, você abre as pernas, porque é seu amigo. Diferentemente de outras culturas, como a alemã. O pensamento principal da Hannah Arendt era o espaço público. Que, com a modernidade, foi se deteriorando. Mas, na Europa, o modernismo não impactou tanto como em países periféricos como o Brasil ou os próprios Estados Unidos.

 

Kamille Viola é jornalista, com passagens por veículos como O Dia, O Globo, O Estado de S. Paulo, Billboard Brasil, Bizz e Canal Futura. Atualmente escreve a biografia autorizada de Martinho da Vila.

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