Eles sabiam antes
23/01/2018 - 11:40

A história da dupla Écio Salles e Julio Ludemir, os criadores da Flup — a Festa Literária das Periferias, que neste ano chega à sétima edição se desdobrando em projetos inovadores

Pedro Só
 

Um é vascaíno doente, porém feliz — um tipo raro, como brincam os amigos que frequentam os bares no entorno da livraria Folha-Seca, no centro do Rio de Janeiro. Criado em Olaria, bem na borda do morro do Alemão, zona norte carioca, ele apanhou um bocado do pai, um PM paraibano, e sofreu bullying por ter cabeça grande nas escolas públicas onde estudou. Mas se tornou mestre em literatura pela UFF e doutor em comunicação pela UFRJ.

O outro, de ascendência judaica, sem diploma de terceiro grau, nascido no Rio de Janeiro, mas com infância e adolescência vividas em Olinda (presentes até hoje no leve sotaque), teve o primeiro contato com favelas na condição de consumidor de drogas e é rubro-negro roxo.

Mas na hora de trabalhar não tem Fla-Flu nem abismos socioculturais: a dupla Écio Salles e Julio Ludemir há seis anos tabela harmoniosamente para fazer acontecer um evento cultural de dificílima costura e imenso potencial transformador: a Flup, Festa Literária das Periferias, que em 2018 chegará à sétima edição e não para de se desdobrar em projetos inovadores.

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   Julio Ludemir e Écio Salles: parceria harmoniosa, apesar das origens diferentes. Foto: Leandro Ribeiro

O mais recente deles, em parceria com a TV Globo, é o Laboratório de Narrativas Negras para Audiovisual, que deve formar e lançar novos talentos em uma profissão onde a representatividade afro-brasileira ainda é irrisória. “Remunerar o trabalho de quem escreve e tornar viável a carreira de pessoas como o Jessé Andarilho [autor revelado pela Flup que tem dois livros lançados por grandes editoras: Fiel (Ed. Objetiva) e Efetivo variável (Alfaguara)] sempre foi nossa preocupação. E só existe uma indústria no Brasil que permite a alguém pagar as contas com o que escreve, a do audiovisual. Em conversas com a emissora, surgiu essa ideia maravilhosa. Nem o Lázaro Ramos havia falado especificamente em formar roteiristas negros antes. Ele olhou o projeto e, bicho, criou logo a expressão ‘tinta preta’”, lembra Ludemir, empolgado.

“Selecionamos 35 jovens, que puderam aprender com Jorge Furtado, Glória Perez, Paulo Lins, Lázaro Ramos, Adriana Falcão... Eu mesmo aprendi horrores”, conta Salles, autor de Poesia revoltada (um estudo sobre a cultura hip-hop no Brasil) e curador da coleção Tramas Urbanas, da editora Aeroplano, que revelou autores como Marcus Faustini e Sérgio Vaz.

“Posso dizer com absoluta certeza que os novos gênios da literatura brasileira irão surgir na periferia. Assim como a grande música nacional veio e vem de lá. Mas nem todo mundo que vier de lá precisa ser o Neymar das letras”, fraseia Ludemir, nove obras publicadas (entre ficção e livros-reportagem baseados em sua vivência em favelas do Rio de Janeiro). “Ainda que neste século não tenhamos visto surgir nenhuma obra do porte de Cidade de Deus, do Paulo Lins [lançada em 1997], a produção literária nas favelas ganhou muito mais expressão. A partir da Flup, por exemplo, já editamos 17 livros”, pondera.

Em novembro de 2012, aos 85 anos, Ariano Suassuna (1927-2014) subiu o Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, centro do Rio, para inaugurar a primeira edição, ainda com o nome Festa Literária Internacional das UPPs, alusão às unidades de polícia pacificadora implantadas em diversas comunidades da cidade desde 2008. “Machado de Assis dizia que no Brasil existem dois países: o país oficial, dos privilegiados, e o real, que é o do povo. (...) Em meu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, eu disse que o Brasil tinha dois símbolos, o país urbano e a favela. Como sertanejo que sou, fico muito feliz de encontrar aqui meus irmãos urbanos”, abençoou o genial dramaturgo e escritor paraibano.

Com trajetórias bastante diversas, Ludemir, 57 anos, e Salles, 48, se conheceram quando trabalharam juntos na secretaria de Cultura de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, na gestão de Lindbergh Farias. Foi em 2010, depois do expediente, em uma conversa de botequim, que, acompanhando os chopes de Salles com um mate diet, Ludemir (dependente químico, não bebe há 26 anos) saiu-se com a proposta: “Vamos fazer uma Flip da favela?”. Recém-chegado da Festa Literária de Paraty (RJ), mais badalado evento do gênero no país, ele buscou conceituar o que poderia ser apenas uma sacada brilhante e provocativa como algo mais completo, indo além da mera exposição e celebração da produção da periferia.

“Era importante que o evento tivesse força para formação não só de novos leitores, mas de novos escritores”, lembra Salles. “A Flup é uma agenda, não é um festival. O festival é apenas a culminância de trabalhos como as oficinas, que começam até oito meses antes”, completa Ludemir. Com o apoio inicial da professora e pesquisadora Heloísa Buarque de Hollanda e do antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares, o projeto da dupla superou doses de ceticismo alheio e, mesmo com patrocínios importantes chegando apenas na reta final, decolou já na estreia, em 2012.

Além de Ariano Suassuna, vieram Ferreira Gullar (1930-2016), João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), Ana Maria Machado e o mexicano Juan Pablo Villalobos. O homenageado foi Lima Barreto (1881-1922), que, cinco anos depois, em 2017, seria o escritor festejado pela Flip, em Paraty, numa edição marcada pela presença de autores negros como Conceição Evaristo, velha conhecida dos frequentadores da Flup.

“A Flup só existe porque já existia essa literatura e essas potencialidades na formação de leitores. A gente apenas estava sabendo disso antes da maioria das pessoas”, conta Ludemir, que mora há quatro anos no morro da Babilônia, um dos mais aprazíveis da zona sul do Rio, e já viveu também na Rocinha e no Complexo do Alemão.

Isso não impede Salles, morador do Pechincha, em Jacarepaguá, zona oeste da cidade, de brincar: “A maioria do pessoal que mexe com literatura de periferia mora em Copacabana, Catete, Botafogo... Eu tenho autoridade moral, respeita o pai!”.

Durante a juventude, às voltas com o vício em cocaína — “a primeira vez foi no morro Santa Marta [favela em Botafogo], em 1979” —, e “uma porra-louquice que atrapalhou muito na profissão de jornalista”, Ludemir morou, às vezes de favor, em “praticamente todas as áreas da cidade”.

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   Cenas da Flup 2017, realizada na comunidade do Vidigal. Fotos: Divulgação/Flup
 

Desembarcou de volta de Pernambuco no começo dos anos 1980, com a mãe de seu primeiro filho, em um casamento de curta duração. Assim como colegas de geração como Lenine e Bráulio Tavares, veio tentar a vida de artista no Rio — em seu caso, ensaiava uma literatura beat à moda de John Fante (1909-1983). “Coabitei com essa turma que incluía o Lenine em Santa Teresa. Eram tempos duros. Depois de acolher bem Alceu e Fagner, o Rio estava de saco cheio de ‘paraíbas’”, comenta, lembrando uma ocasião tensa em que comeu o sanduíche que seria a única refeição do cantor pernambucano naquele dia.

A fase “Pergunte ao pó” durou até o nascimento de sua filha, há 26 anos, e incluiu a convivência com outros personagens notórios. “A trama daquele livro Meu nome nao é Johnny [de Guilherme Fiúza] de alguma forma começou na minha casa. O João Guilherme [Estrella] frequentava, ele começou a vender a droga nessa época.”

No começo dos anos 2000, sóbrio, Ludemir enveredou pelo jornalismo investigativo, aproximando-se das favelas a partir “do que elas têm de pior”. Mas topou com uma história de amor, que virou livro em 2001, No coração do comando, sobre o romance entre Marquinho, do Comando Vermelho, e Valéria, sobrinha de um chefão do Terceiro Comando.

A atração pela Rocinha se deu a partir de amigos que tocavam com uma banda de rock — “ali percebi uma favela diversa, em que os jovens eram inspirados pela MTV” — e evoluiu até que, na virada de 2002 para 2003, Ludemir mudou-se para a favela. Sorria, você está na Rocinha lhe rendeu uma compreensão profunda do equilíbrio de forças na comunidade e algumas saias-justas envolvendo sua segurança pessoal.

Mas o caminho estava selado, com a ficção de Lembrancinha do adeus (de 2004), inspirada pelos conflitos no Alemão, e Psico (lançado em 2012), ambientado na Rocinha e saudado no prefácio de Luiz Eduardo Soares como uma etapa importante em um “processo de reformulação identitária nacional”.

De 2012 para cá, as UPPs foram desandando e, findo o ciclo de grandes eventos esportivos (Copa do Mundo e Jogos Olímpicos), com o estado do Rio de Janeiro falido, as comunidades voltaram a sofrer com tiroteios e violência extrema. Em 2013, a Flup foi realizada em Vigário Geral, comunidade da zona norte do Rio, sob as bênçãos e proteção do AfroReggae, ONG da qual Écio Salles fez parte por dez anos. “Eu conheci o José Júnior quando ainda estava na Uerj, comecei como revisor, quando o grupo era apenas um jornal. A convivência com ele foi fundamental para que eu me aproximasse em definitivo da vida cultural nas favelas. Foi algo tão importante e transformador para mim quanto descobrir Machado de Assis quando eu era um adolescente sem rumo na vida”, conta.

Em 2014, o evento aconteceu na Mangueira, zona norte, sob tensão. “Dez dias antes houve transição de poder violenta no morro, com a morte do Tuchinha [chefe do tráfico], mas tudo correu bem”, lembra Ludemir. Em 2015, no Chapéu-Mangueira, no Leme, zona sul, perto de onde mora, houve cooperação entre as facções e a UPP. “O capitão trabalhou bem e por um mês não teve bala na favela.”

Em 2016, na internacionalmente famosa Cidade de Deus de volta a dias conturbados, a opção pelo local foi cautelosa, e não houve problemas. Em 2017, no Vidigal que também vivia período convulsionado por disputas entre facções, foi fundamental a cooperação de Guti Fraga, do grupo teatral Nós do Morro. “Ele saiu abrindo as portas, nos encaminhou às pessoas certas. Nossa rede de proteção funcionou mais uma vez”, conta Ludemir.

Em 2018, porém, a opção é por realizar a Flup no Cais do do Valongo, centro do Rio. “Pelo peso do lugar como maior porto escravagista do mundo, para discutir a africanidade. Ali, mesmo sendo uma região periférica, a bala não está comendo. Não quero mais brincar do que a gente brincou no Vidigal. Preciso respirar um pouco”, confessa Ludemir.

Apesar disso, as opções da dupla de produtores passam sempre longe do abominável termo “zona de conforto”. “Nada na Flup é simples. Todo ano a gente inventa uma história diferente”, brinca Salles. O que não muda é a abertura do evento, sempre uma pelada. Com ele no meio de campo e Ludemir no gol, já conseguiram até superar a humilhação da seleção brasileira na Copa de 2014: diante de um time de escritores alemães, perderam por 9 a 1.

 

Pedro Só é jornalista, com passagens e colaborações por veículos como O Globo, O Dia, Trip, TV Globo e Jornal do Brasil. Foi editor-chefe das revistas Bizz, Vip e Billboard.

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