Ela sabe o que quer
18/09/2017 - 07:00

Da crítica de cinema à guinada política na carreira: um retrato de Anna Muylaert, a diretora mais famosa do Brasil

João Varella

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   Fotos: Rafael Roncato

 

Anna Muylaert são duas. Uma é roteirista. Metódica, escreve respeitando estruturas que não deixam o filme perder o ritmo. Na sala de sua casa, no Alto da Lapa, zona oeste de São Paulo, há uma parede retrátil com um mosaico de post-its coloridos arranjados em colunas. Serve para elencar cenas-chave dentro de um andamento, uma forma de não deixar a peteca da narrativa cair. “Um filme é um jogo de tarô”, diz.

Na casa também moram o filho Joaquim Muylaert (17 anos), o cão beagle Flecha (12) e a outra Anna, a produtora e diretora. Impulsiva, pede ao elenco que ignore a frase exata do roteiro — a fala deve fluir naturalmente. “Levei uma bronca quando parei uma cena por causa do ruído de um helicóptero que passava”, conta Lourenço Mutarelli, escritor, artista gráfico e ator, que interpretou o personagem Carlos em Que horas ela volta?. Foi o terceiro trabalho dele com Anna, e o maior papel que já teve — antes fez pontas em É proibido fumar e Chamada a cobrar. “É São Paulo, claro que tem helicóptero, trânsito, sujeira”, argumentou a cineasta. O trabalho rendeu a Mutarelli uma indicação ao 15º Prêmio do Cinema Brasileiro, como melhor ator coadjuvante. Que horas ela volta? acabou vencendo sete troféus Grande Otelo, entre eles o de melhor longa-metragem de ficção.

No total, a obra faturou mais de 20 prêmios, entre eles os dos festivais de Berlim e Sundance para Regina Casé, a protagonista da trama e amiga de Anna Muylaert desde os anos 1980. Uma aposta arriscada, pois escalar uma figura tão popular poderia fazer com que o espectador enxergasse apenas a então apresentadora do programa Esquenta, da Rede Globo. Mas a barreira foi superada. “Tive a oportunidade de construir um personagem do qual eu já tinha uma bagagem enorme guardada na cabeça e no coração”, afirma a atriz. “Nosso encontro em Que horas ela volta? foi um desses raríssimos, em que as duas partes crescem muito, muito mesmo, com a parceria”, completa.

É o maior sucesso de Anna Muylaert até aqui e um dos maiores de uma roteiristA, produtorA e diretorA no Brasil. Sim, ênfase no gênero. Por mais que elAs venham ganhando mais espaço, apenas duas mulheres na história do cinema mundial dirigiram filmes com orçamento maior que US$ 100 milhões — Kathryn Bigelow (vencedora do Oscar por Guerra ao terror) e, recentemente, Melissa Silverstein, em Mulher Maravilha. Enquanto isso, no Brasil, os filmes de Anna custam cerca de US$ 1 milhão.

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Em 2015, a diretora se tornou a primeira mulher em 30 anos a ter uma produção escolhida pelo Ministério da Cultura para tentar uma vaga no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A última cineasta havia sido Suzana Amaral, por A hora da estrela, de 1986. “Até os anos 1990, o set de filmagem era muito masculinizado, tudo na base do berro, uma energia que não é a minha. Essa situação felizmente vem mudando”, afirma Muylaert.

Que horas ela volta? conta a história de Val (Regina Casé), uma mulher que sai do interior de Pernambuco, onde deixa a filha Jéssica (Camila Márdila), para trabalhar em São Paulo como babá. Ela cuida de Fabinho (Michel Joelsas), um menino de alta classe da mesma idade de Jéssica. O reencontro e o conflito do filme acontecem quando a garota resolve morar com a mãe, na casa dos patrões, para tentar o vestibular da FAU, a elitizada Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Anna também estudou na USP — formou-se em 1984 na ECA, a Escola de Comunicações e Artes. “Naquela época eu achava roteiro uma coisa cafona. Tive na faculdade uma formação crítica, não técnica”, conta.

Além dos prêmios conquistados, Que horas… marca uma guinada política na carreira da diretora. A música de seus primeiros filmes (Durval Discos e É proibido fumar) agora dá lugar a discussões sociais. Uma mudança definitiva — enquanto durar. A cineasta diz que não vê mais sentido em projetos sem cunho político.

Da concepção inicial até o lançamento do longa, em 2015, foram quase 20 anos. Ou 51, se contarmos desde o nascimento da paulistana Ana Luiza Machado da Silva Muylaert, em 1964 (ela colocaria um “ene” a mais no “Ana” por acreditar que quatro letras dá mais estabilidade ao primeiro nome). Cresceu numa casa com piscina no Alto de Pinheiros. Filha mais velha de uma família jesuíta, tem outras duas irmãs. Seu pai é Roberto Muylaert, jornalista e ex-presidente da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura. Descreve-se como a ovelha negra da família. Aos 7 anos teve uma babá, Dagmar, com quem diz ter contato até hoje e foi uma das inspirações para criar Val. Passou a morar sozinha quando tinha 19 anos.

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A partir daí, iniciou-se um período em que Anna relata “não ter feito nada”. Um eufemismo para quem fez um pouco de tudo nos anos 1980. Foi repórter-abelha de TV (profissional que filma e entrevista ao mesmo tempo), dirigiu curtas (Rock paulista, As rosas não calam, Hot dog, entre outros) e colaborou com a revista IstoÉ e o jornal O Estado de S. Paulo, escrevendo críticas cinematográficas. Batia em quem sentia que precisava apanhar, de qualquer parte da cadeia de produção. Desde o diretor (“O ritmo lento e arrastado é explicado em parte por esta ausência de relação/ ação no roteiro”, sobre Verão vermelho, de James Ivory) à distribuidora (“Mais uma vez uma distribuidora nacional usa do artifício de esconder um filme poético atrás de um título oportunista”, sobre Memórias de um espião, cujo título original é Another country). Também elogiava. A respeito de Leila Diniz, de Luiz Carlos Lacerda, grafou: “Tanto a fotografia quanto o figurino e a direção de arte trabalham em uníssono na orquestração da melodia de Leila, e por causa desta sintonia afinada eles passam despercebidos”.

Frequentou pela primeira vez o set de filmagem de longa-metragem já como profissional contratada. Trabalhou na superprodução (para os padrões da época) Além da paixão, de Bruno Barreto. Anna foi operadora de video assist, uma televisãozinha em preto e branco que permite ao diretor acompanhar o que está sendo rodado. “Eram poucos filmes que tinham esse equipamento na época”, recorda, sempre em um tom assertivo e de bate-pronto.

Também passeou por outros caminhos da arte. Publicou em 1988 o livro Vai!, editado pelo lendário Massao Ohno (que também se aventurou pelo cinema, diga-se), com projeto gráfico de Guto Lacaz. A obra, hoje rara, traz poemas e imagens. Anna tem dois exemplares, que “não dá para ninguém”.

Entre essas escapadas para outras áreas, Anna conheceu o homem com quem se casaria. Amiga de Marisa Orth, que na época atuava no performático grupo musical Luni, ela entrou no enquadramento de André Abujamra, membro da também performática banda Mulheres Negras. “Eu vi a Anna pela primeira vez no estúdio e achei ela uma gatona”, lembra Abujamra. O fato é que, de uma maneira ou outra, começou um namoro, que deu em um casamento e um filho, José. Hoje com 22 anos, o rapaz mora em Los Angeles, onde estuda música.

Ao se relacionar com André, a cineasta se deparou com uma estrutura familiar diferente, de artistas. “[Conhecer a família Abujamra] foi muito libertador para mim, foi marcante e importante”, afirmou para o sogro Antonio Abujamra (1932-2015) em seu programa Provocações, após lançar É proibido fumar.

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   Anna Muylaert e o filho mais novo, Joaquim, de 17 anos.

No final dos anos 1990, André e Anna se separaram. Nenhum dos dois aponta uma razão específica para o término, mas o músico esboça a tese de que o casal era muito jovem no início do namoro — ela foi sua primeira namorada. Ao lado de André, a diretora superou a fase “nada”. Escreveu roteiros para programas como Mundo da Lua, Castelo Rá-tim-bum e iniciou o primeiro esboço do roteiro que daria origem a Que horas…. Mas ainda não se sentia pronta para encarar o filme, e o projeto foi parar na gaveta. Joaquim, o segundo filho, nasceu em 1999, praticamente em uma produção solo, já que o pai não participava da criação do filho. Anna naturalmente chama o genitor, Márcio Antunes, de “cara”.

A partir da virada da década, começou a trabalhar em longas-metragens, sem deixar de fazer contribuições esporádicas para a televisão. Para um diretor, que prefere não ter seu nome citado, a cineasta trouxe da televisão “um didatismo infernal para seus filmes”. Já o professor de cinema Franthiesco Ballerini vê na clareza de comunicação de Anna uma virtude: “A importância dela é dupla. Ela não só é uma excelente diretora mulher em um país machista como o nosso, mas acima de tudo é uma ótima narradora”.

O primeiro longa veio em 2002: Durval Discos, nome de uma loja de música cujo dono se recusa a vender CDs e só trabalha com bolachões em vinil (hoje ele estaria na moda). O filme já continha algumas ousadias, como as cenas com um certo animal (sem spoilers), que exigiram algum jogo de cintura da produção. “Puta que pariu, faz anos que conheço a Anna e desde sempre ela sabe o que quer”, conta a produtora de Durval, a bem-humorada e algo desbocada Sara Silveira. “Fizemos um andaime, um buraco enorme na casa para passar o bicho. Quando a cena é relevante, todos lutam juntos. Às vezes tem bate-boca, mas é sempre no bom sentido”, diz Sara, que também produziu Mãe só há uma e É proibido fumar.

Durval Discos foi exibido no festival Cine Ceará, e na plateia estava a protagonista do projeto seguinte da diretora, Glória Pires. “Orlando [Morais, marido da atriz] e eu ficamos impressionados com o filme. Aí fomos jantar e, por coincidência, a Anna estava no mesmo restaurante”, conta. Alguns anos depois, ela receberia o roteiro de É proibido fumar. Lançado em 2009, o longa conta a história de dois músicos vizinhos, Baby (Glória) e Max (o ex-titã Paulo Miklos).

“Passei mal na noite em que cheguei em São Paulo, achei que ia morrer”, recorda Glória, que apelou à diretora. “Ela conseguiu um médico maravilhoso e deu tudo certo”, completa. O imprevisto trouxe um pouco de tensão à produção do filme, pois a protagonista acabou não participando dos primeiros dias de preparação do elenco. “Produção difícil é pré-requisito de bons filmes”, afirma a cineasta.

Como é de praxe nas gravações com Anna, a atriz pôde participar do roteiro e da produção do filme. Uma contribuição de Gloria foi a franja (falsa) que a personagem usa. “Uma franja é um compromisso de seis meses, e eu tinha compromissos posteriores que me impediam de cortar o cabelo. Mas a figurinista fez um trabalho maravilhoso”, conta.

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Reviravolta política

É proibido... foi seu último filme antes da reviravolta política. Em 2012, Anna lançou Chamada a cobrar, sobre um golpe de falso sequestro sofrido por uma mulher rica e bitolada. Mas pouca gente o assistiu, foi seu projeto com menor bilheteria. “Como o filme foi exibido primeiro na TV, por mais que tenha sido de madrugada, tirou prestígio”, justifica.

O destino foi mais generoso com Que horas elas volta?, que inverteu a ordem natural do mercado cinematográfico — estreou em um circuito pequeno e foi ampliando o número de salas. “Nosso objetivo era colocar o filme além do circuito de arte, atingindo também as salas de filmes populares”, relata Barbara Sturm, que trabalhou na distribuição do longa.

Com o êxito do filme, Anna tomou partido. Passou a não medir palavras para apontar o preconceito contra mulheres no meio do cinema. E como se precisasse de uma prova definitiva para embasar sua denúncia, ela se viu no centro de uma polêmica envolvendo colegas de profissão durante um debate sobre o longa, em Recife. Na descrição do diretor de arte Thales Junqueira, houve um "show de machismo escandaloso dos cineastas Lírio Ferreira [Baile perfumado, Sangue azul] e Cláudio Assis [Amarelo manga, Baixio das bestas], que tentaram impedir uma mulher diretora de falar sobre seu próprio cinema". Assis chegou a chamar Regina Casé de "gorda" e um maquiador da produção de "bichona". O episódio repercutiu na imprensa, e ambos pediram desculpas posteriormente.

“Se fosse no início da minha carreira, eu até poderia me abalar. Mas agora já estou calejada”, conta Anna, dois anos depois, sem mudar o tom da fala, entre goles de café. Diversos episódios de machismo semelhantes fizeram ela ter certeza de que esse será o tema de seu próximo longa, ainda em fase de desenvolvimento.

A guinada política se consolidou. Depois de Que horas..., ela lançou Mãe só há uma, que discute questões de gênero, um tema urgente na sociedade contemporânea. O enfrentamento rendeu gestos além das telas. Anna, voluntariamente, retirou a produção da última disputa pela indicação brasileira ao Oscar para privilegiar o igualmente engajado Aquarius, de Kléber Mendonça. A comissão do Ministério da Cultura, no entanto, preferiu O pequeno segredo, de David Schürmann, apelidado por alguns cineastas de esquerda de O pequeno golpe.

Em 2018, a diretora volta aos cinemas com seu primeiro documentário. No computador, um laptop Apple com adesivos de Angry birds e mensagens em inglês no verso da tela (“Wait here until you are useful thank you”), ela guarda um filme promocional do projeto. O arquivo abre com imagens de 17 de abril de 2016, dia da sessão deliberativa extraordinária 091.2.55.O da Câmara dos Deputados — reunião que afastou Dilma Rousseff da presidência do Brasil. Um deputado goiano saúda sua terra ao votar pelo afastamento. “Pátria amada, Pátria amada, seu filho Delegado Waldir não foge à luta. Por ti, Goiânia querida, por ti, Goiás, pelo meu país, por Deus, por minha família, pelas famílias e pelas pessoas de bem, o meu voto é ‘sim’. Fora Dilma! Fora Lula! Fora PT! (palmas)”, registra a taquigrafia da data.

Junto com Lô Politi (diretora de Jonas) e César Charlone (fotógrafo de Cidade de Deus), Anna passou dois meses dentro do Palácio Alvorada antes do “golpe” (ela não usou o termo impeachment em nenhum momento da entrevista). “Dilma foi estuprada e deixou que a gente filmasse”, diz a cineasta, que atribui ao machismo o afastamento da presidente.

A gravação ainda conta com uma cena em que Dilma reclama da equipe de filmagem, afirmando não se sentir confortável. Os produtores explicam que a intenção é ver “a Dilma normal”, fora do personagem, mas a ex-presidente deixa claro que essa não vai ser uma tarefa fácil. “Casualmente, eu sou Presidente da República”, explica, sentada em um sofá, com os aros dos óculos entre os dedos. Inicialmente, o filme se chamaria Alvorada, mas pode ser rebatizado apenas como Dilma.

E vem mais por aí. Além do já citado projeto sobre o machismo, a diretora prepara uma outra produção estrelada por Regina Casé. A história se passa em Jerusalém e deve começar a ser rodada em 2018. Sucesso? “Muita coisa legal acontece comigo, não tenho tempo de me deslumbrar”, diz Anna.

 

João Varella é jornalista e fundador da editora Lote 42. Produziu reportagens para veículos como IstoÉ Dinheiro, Gazeta do Povo e R7. É autor dos livros 42 haicais e 7 ilustrações, A agenda e Curitibocas: diálogos urbanos.

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