A teoria do aiceberg

Roberto Muggiati

Meu protetor de tela é um iceberg,
passo o dia diante dele. Nenhuma
paixão especial por icebergs.
Os tons azul-cobalto da foto
lembram o céu de Curitiba ao anoitecer.
Essa imagem do iceberg veio pela internet:
uma namorada queria que eu não esquecesse
a cor do céu que nos protegia.
A namorada passou, a imagem continuou
na tela em homenagem à Teoria do Iceberg,
do velho Hemingway: “Se escrever
apenas a verdade, um escritor pode omitir
muitas coisas. O leitor sentirá essas coisas
que foram ocultadas com tanta força
como se o escritor as houvesse explicitado.
A dignidade de um iceberg existe
porque apenas um oitavo dele está acima
da água”. O autor da imagem do iceberg também tinha sua teoria. Ele fizera uma montagem de várias fotos para ilustrar o conceito de que “nem tudo o que se vê é necessariamente real”.

O céu de Curitiba me leva a outro episódio, um céu noturno, e outra namorada, de um tempo bem mais distante. Éramos crianças, parentes remotos, estranhos um ao outro, e nos descobrimos. Numa festa de família, na janela de um vigésimo andar, loucos para viver e falar,
conversamos, ávidos para conhecer um ao outro. (O que conversam os amantes? Eles nunca sabem, eles nunca lembram.) E então, no descampado do aeroporto, vimos as luzes de um avião que piscavam, cortando o horizonte, um avião de destino insondável, anunciando em suas lanternas vermelhas o grande mistério do futuro. Em silêncio, comungamos a mesma emoção. A esperança de partir para o mundo, quem sabe juntos? Foi nossa epifania — perdoem o clichê. Um biólogo definiria toda aquela atração entre nós como uma mera erupção de feromônios e testosterona. Não importa, a atração era real, como nunca havíamos sentido antes.
Meia-noite com ela e as estrelas — e de repente a noite acabou. A nossa história seria uma crônica de amantes malsinados, atravessando décadas. Uma história desencontrada, entrecortada, que me arrastaria por tristes oceanos de lágrimas... Desculpem esse crime de lesa-TI. Sim, a Teoria do Iceberg merece uma sigla, pertence à ciência, é um teorema, a equação que fornece le mot juste. A emoção está sempre ali, mas é a maior inimiga do bom texto. Passamos um ano meio longe um do outro. Fui morar em Paris, quando voltei ela estava casada. Mal casada, já quase descasada. Numa escapada furtiva na Livraria Ghignone, combinamos nos encontrar em Guaratuba. Cheguei lá, ela não. Sumiu, desapareceu do meu mapa. Para sempre? Aprendi que nada é para sempre. Em 1968 — o mundo em chamas — eu casado, em São Paulo, dou de cara com ela, numa manhã de inverno solar e vento cortante na Rua Augusta.

— Pô, cara, incrível? Você por aqui?

— Trabalho na Veja. E você, por onde andou? O que faz?

Não vai acreditar! Sou aviadora!Tirei brevê, transporto aviões dos Estados Unidos.

Outra noite, em Nova York, ouvindo o Gato Barbieri, lembrei muito de você...

Ela conhecia minha paixão pelo jazz. Certa vez, eu fiz serenata para ela com o sax tenor. Minha mulher, ciumenta, interrompeu o diálogo. Nem pudemos trocar telefones. E fiquei outros vinte anos sem saber de — não posso dizer seu nome... Afinal o que há em um simples nome? De certa forma, ela cometeu uma doce vingança. Eu não soube lutar por aquela absurda epifania adolescente, que era tudo para nós. Aprendeu a pilotar, apossou-se do nosso avião e se perdeu com suas luzes vermelhas na cerração da velha noite curitibana. Eu a via voando na imensidão dos espaços infinitos. Pensando em mim — quem sabe?

Um amigo me ensinou um dia: não se esforce muito para lembrar as coisas boas, elas podem se desgastar e se perder. Mas, naquele meu triste fim de casamento, eu não pensava em outra coisa — na minha doce e cômica Valentina. Como doía a sua ausência nas noites suicidas do inverno paulistano. O coração é um músculo flexível. O casamento acabou, outro casamento começou, dois filhos. O matrimônio que nunca sonhei
ter. Eterno enquanto durou. Uma noite, num shopping de Curitiba, livre, lançando um livro, ela entra de novo na minha vida, na fila de autógrafos.

Ainda lembra de mim?

Desta vez trocamos telefones. Não pilotava mais, estava também livre, em todos os sentidos. Marcamos um
encontro no Rio. Fui esperá-la no Galeão. Subimos a Serra, onde eu tinha um chalé, em Itaipava. Jantamos no velho Farfarello, era dia 29, pedimos Gnocchi della Fortuna, al cricco e al pesto, com direito a uma nota de un dollaro debaixo de cada prato. Loucos para viver e falar, bebemos duas garrafas de vinho. Não lembro como dirigi o carro até o chalé. Antes de desmaiarmos na cama, ela ainda perguntou:

Agora vamos ser felizes?

Acordou-me no meio da madrugada. Queria descer a Serra, apressar nossa mudança definitiva para Itaipava.
Bêbado e cansado, não resisti. Foi nossa perdição. No meio da descida, despenquei pelo despenhadeiro. Dormi na direção e acordei no fundo do socavão, preso às ferragens. Sobrevivi, com pequenos arranhões. Ela, não. Foi projetada para fora do carro e quebrou a coluna vertebral em vários pontos. Na queda, tive a impressão de ouvi-la gritar: “Estou voando!” .

O acidente aconteceu logo depois do viaduto sobre o rio Rolador. Lembrei do poema do Mário de Andrade, “A Serra do Rola-Moça”, que descreve um casal em fuga. “Como eles riam! E os risos também casavam com as risadas dos cascalhos.” Subitamente, “dão noiva e cavalo um salto, precipitados no abismo”. Poesia numa hora dessas?

Por minha culpa, ela iria passar o resto da vida presa a uma cadeira de rodas. Não fomos finalmente felizes. Eu conseguia suportar a dor até o escurecer, depois a coisa ficava terrível por volta da meia-noite, e às três da manhã era o grande mergulho na noite escura da alma. Pensei em suicídio: lasanha com chumbinho, como aquela atriz da TV. Ou caipivodca de lichia com carrapaticida (uma variante mais sofisticada do antigo Guaraná com formicida). Ou um salto espetacular de um vigésimo andar: no bilhete de suicida, inverteria a frase de Eliot: “This is the way the world ends — not with a whimper, but a bang...”. Mas todas as coisas devem passar e o mundo continua. Você recupera a maior parte de sua vida, como bens salvados de um incêndio. Eu iria continuar por mais tempo, muito tempo talvez — até a hora de cinzelarem na minha lápide o epitáfio, a definição de vida que tomei emprestada de Cole Porter: “It was great fun, but it was just one of those things”.

Ainda fui vê-la uma última vez. Era como falar com uma estátua. Seu olhar parado não dizia nada. Saí para o
dia ofuscante, os olhos cegados por uma cortina de lágrimas e sal. O sol, sem alternativa, brilhava sobre o nadanovo. E a história acaba aqui. O mundo mata indistintamente os belos, os bons e os bravos. Ela morreu, você vai morrer e eu vou morrer. É tudo o que posso prometer.


Roberto Muggiati nasceu em Curitiba e é jornalista desde 1954. Trabalhou na BBC de Londres nos anos 1960 e foi editor das revistas Manchete e Fatos & Fotos. Publicou diversos livros, entre eles Rock: o grito e o mito e o romance A contorcionista mongol. Vive no Rio de Janeiro (RJ).

Ilustração: Felipe Rodrigues