A liberdade na arte

Organizadora da poesia de Júlia da Costa, a professora Zahidé Lupinacci Muzart escreve sobre a vida e a obra da escritora parananense, uma das mais interessantes e ousadas poetas do século XIX, que morreu há cem anos

Zahidé Lupinacci Muzart


Leitora e personagem, assim é retratada, no Brasil, a mulher no século XIX. Entretanto, também existiram muitas escritoras, e, se algumas o foram de um livro só, houve outras que se dedicaram ao ofício das letras como ideal de vida. Dentre essas, salienta-se a poetisa Júlia Maria da Costa (1844-1911) que publicou dois livros entre 1867 e 1868 e colaborou com muitos periódicos do Paraná e de Santa Catarina.

A publicação de Poesia completa de Júlia Maria da Costa pela Imprensa Oficial do Paraná, em 2002, teve uma ótima repercussão. Além de suscitar artigos de jovens pesquisadores em congressos, Júlia da Costa foi uma das autoras escolhidas por Adriana Lunardi para participar de um capítulo do romance Vésperas. Este livro é uma homenagem a grandes escritoras, agora personagens e todas retratadas em extrema solidão. E, em 2008, foi publicado o romance Júlia, de Roberto Gomes, que reconta a história da poeta na ilha de São Francisco, onde viveu toda a sua vida.

Júlia Maria da Costa nasceu em Paranaguá, no Paraná, em 1 de julho de 1844. Era filha de Alexandre José da Costa, também de Paranaguá, e de Maria Machado da Costa, natural de São Francisco do Sul, Santa Catarina. Depois do falecimento do marido, Maria da Costa e a filha Júlia — na época com apenas dez anos —, passaram a residir em São Francisco do Sul. Por ter morado toda a vida nessa bela ilha e tendo ali falecido em dois de julho de 1911, Júlia da Costa também é incluída entre os escritores catarinenses.

Júlia foi uma figura controvertida. Há artigos e estudos que a retratam de diversas maneiras, às vezes contraditórias. Os melhores estudos sobre a poetisa são de Rosy Pinheiro Lima, que estabelece a biografia de Júlia da Costa a partir de várias cartas — ao todo quarenta e quatro —, e o livro do historiador Carlos da Costa Pereira, onde, além de desfazer equívocos sobre a vida conjugal da poetisa, casada com o Comendador Costa Pereira, reúne um bom número de poemas publicados em periódicos.

Lendo as cartas da poeta à família e, sobretudo, as de amor, vemos delinear-se uma personalidade muito interessante: forte, decidida, às vezes audaciosa. Mas, antes de mais nada, uma mulher que se antecipou à sua época e que, por isso, sofreu muito.

Nascida em um tempo cheio de preconceitos e tabus, e vivendo em uma cidade muito pequena, seu espírito ansioso de liberdade evade-se no sonho, na poesia e nas cartas.

Casada por conveniência e imposição familiar com um homem rico, mas trinta anos mais velho, Júlia da Costa leva para o casamento a desilusão de um afeto não concretizado pelo poeta Benjamin Carvoliva. Todo este namoro foi pontilhado de poemas e de cartas quase diárias. E em todas, Júlia da Costa anima o poeta que, como bom romântico, padecia de melancolias e tristezas sem fim pelo desprezo do mundo...

Em uma das cartas, ela lhe afirma que “um poeta é nada para o homem sem prestígio, para a jovem sem cultura, para esse povo rude que encara tudo pelo lado do interesse, e que só tem em si uma ideia: Ouro! Enriquecer para deslumbrar o mundo com suas riquezas. Para estes, o poeta é nada, mas, para aquele que encara a vida pelo lado espiritual, para aqueles, o poeta é tudo.”

Vemos, a cada linha, a generosidade e a paixão da escritora. Mas o poeta, cheio de hesitações e dúvidas, foge de um compromisso mais sério (exigido pela mãe da poetisa), indo-se de São Francisco. O rapaz estaria destinado para o sacerdócio e esse seria o grande impedimento para o casamento, mas a diferença de idade entre os dois — Júlia era cinco anos mais velha que ele —, parece-me a mais forte razão para o seu recuo.

Depois de quatro anos de casamento infeliz, e com a volta de Carvoliva à cidade, reinicia-se a apaixonada correspondência diária entre os dois, as cartas sendo colocadas em esconderijos diversos, tais como o oco de uma velha árvore. É Júlia da Costa quem, com rara audácia, pois, esposa de um comendador, chefe do Partido Conservador de uma cidadezinha como São Francisco do Sul, sugere ao poeta a fuga e a vida em comum. E, mais uma vez, é o poeta quem foge, com medo da opinião pública.

“Se Deus demorar a realização do nosso sonho, então pisarei em todos os preconceitos da sociedade e serei tua, embora no centro das florestas, longe do mundo, longe de tudo que possa lançar-me em rosto o excesso da minha paixão”, escreve Júlia em uma das cartas.

À proposta generosa da poetisa, não houve resposta. Novamente, Carvoliva optara pela fuga. A partir daí, os poemas de Júlia da Costa se tornam cada vez mais desesperançados, cada vez mais melancólicos.

Segundo Rosy Pinheiro Lima, essa última desilusão mudou Júlia da Costa. A poeta passou a escrever febrilmente e a frequentar mais e mais serões e festas. Também muda a cor dos cabelos, agora negros, em uma época em que somente meretrizes e artistas o faziam, começa a pintar o rosto e a usar muitas joias, a receber muitas pessoas em seu casarão e a se tornar uma lenda na pequena cidade que muito se orgulhava de sua poetisa... A partir daí, a nova mulher Júlia da Costa vai levar uma vida febricitante: festas, campanhas políticas, publicações inúmeras em jornais e revistas, etc. Porém, com o falecimento do Comendador, sua vida muda totalmente e a solidão se torna cada vez maior, pois seu marido a habituara a receber muitas figuras de proa da sociedade catarinense e da política. Viúva, a poetisa vai ficando cada vez mais expurgada da vida de festas. Fechando-se em casa, acredita-se perseguida pelos seus concidadãos, vendo o riso e o escárnio em cada um que a olhava. Nessa velhice solitária, Júlia da Costa enlouquece e se fecha no casarão, por oito anos, dele só saindo para o cemitério.

Dentro de casa, servida por duas fiéis empregadas, Júlia planejou escrever um romance. Para isso, fez grandes painéis com papel de seda de diversas cores. Esses painéis representariam cenas, personagens, paisagens de romance, tapeçarias intermináveis como as das damas de antanho. Se o romance foi realmente escrito, não o sabemos. Talvez, somente na imaginação da escritora e nas cores dos curiosos painéis que ornaram as paredes do salão de sua casa. Estranhamente, não os realizou com cores sombrias, mas alegres — as cores da fantasia de uma mulher enlouquecida pela solidão e aridez do meio em que viveu. Segundo Rosy Pinheiro Lima, quando ela morreu, “do salão retiraram-se as velhas esteiras e a cadeira de embalo. Armou-se o caixão no centro e era fantástico o aspecto daquela sala sombria, com os velhos retratos nas paredes, vizinhando com o colorido violento dos painéis que as recobriam por completo, a multidão de flores de papel de seda, numa empoeirada desordem que ninguém ousou destruir.”

A vida de Júlia Maria da Costa tem feição cinematográfica. Não obedece aos padrões vigentes para a mulher brasileira do século XIX. Inteligente e independente, sucumbe somente ao amor-paixão pelo poeta Benjamin Carvoliva. Essa paixão e o abandono se tornam a marca da poesia de Júlia da Costa. Em seus poemas, verdadeiros lamentos, busca a razão e o consolo para uma vida tão cheia de solidão. Não tinha outro horizonte além do branco da folha de papel à sua frente ou o branco do teclado do piano, duas atividades de artista, entre as quais se moveu essa alva figura, sempre vestida de branco. Escreve e toca. Toca e escreve, recusando as outras atividades de cunho doméstico, destinadas às suas irmãs, essas mulheres de uma época de opressão e secretos desejos.

Enlouquece, ao final de sua vida, permanecendo enclausurada, numa paranoia de perseguição, até a benfazeja morte.

Os temas da poesia de Júlia da Costa são sempre os da ausência e da perda, da dor de viver, da angústia ou do desejo da morte, da falta de esperança e da solidão como se lê no poema “Página solta”: “Queres saber quem eu sou? Meu nome queres saber?/ Eu sou a sombra dourada, de um tempo que já lá foi,/ Sou o fantasma de um sonho/ Que em tua mente pousou; Sou uma folha sem nome/ Que o vento forte mirrou...”

Todos esses temas do Romantismo encontraram em Júlia da Costa uma boa intérprete, mas pode-se vê-los também como manifestação da angústia de um espírito superior acorrentado à mesquinhez de um meio provinciano. Os críticos acham Júlia da Costa mística. No entanto, o sentimento maior que nos transmite sua poesia é o de desejos carnais não realizados, o de uma sensualidade insatisfeita. Tudo isso deve ser lido nas entrelinhas, de acordo com sua época e sua condição. Mas mesmo no que há de promessa em sua poesia, na procura do cantante, do singelo, do cotidiano, foi ela uma das mais interessantes poetisas do século XIX. Poesia que se lê até hoje com prazer.

Zahidé Lupinacci Muzart é professora titular aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua no curso de Pós-Graduaçâo em Literatura da UFSC e é pesquisadora do CNPq.

Obras de Júlia da Costa

Livros publicados em vida:
Flores dispersas. Primeira série. Desterro: [s.n.], 1867;
Flores dispersas. Segunda série.

Reedições:
Poesias completas. Curitiba: edição do Centro de Letras do Paraná, 1913.
Um século de poesia. Poetisas do Paraná. Curitiba: Centro Paranaense Feminino de Cultura, 1959. A edição traz os dois primeiros livros publicados mais Flores dispersas, 3ª Série e Bouquet de violetas, os dois últimos com todos os dispersos recolhidos por Rosy Pinheiro Lima.

Periódicos:
Além de publicar no periódico Itiberê (Paranaguá, PR.), passou a fazê-lo em jornais de Santa Catarina: O Mercantil, O Conservador, Gazeta de Joinville; A União; O Despertador; A Regeneração; Opinião Catharinense; Correio da Tarde; O Artista; O Estado; Joinvilense; Beijaflor .