Um Escritor na Biblioteca I Angélica Freitas

Depois de cinco anos sem publicar, Angélica Freitas voltará à poesia em 2019. A autora, que participou da edição de setembro do projeto Um Escritor na Biblioteca, falou sobre o novo projeto, que ainda está em fase de organização e seleção. São textos produzidos depois da publicação de seu trabalho anterior, Um útero é do tamanho de um punho, vencedor do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte em 2012. “Escrevi nesse meio tempo várias séries de poemas ou de livrinhos, então acredito que esse novo livro vá conter vários outros livros dentre dele”, disse durante o bate-papo, que teve a mediação do jornalista Omar Godoy.

Da Redação                           
                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Fotos: Kraw Penas


Conhecida por praticar uma literatura comprometida com causas do feminismo, Angélica, no entanto, não vê como uma obrigação o posicionamento político do artista. Para ela, “cada um sabe o que consegue fazer. Acho que ativismo político é muito importante e algumas pessoas fazem isso melhor do que outras”.

Apesar de ter uma ligação bastante antiga com a literatura, a poeta só assumiu sua faceta de escritora full time após largar o emprego de repórter do jornal O Estado de S. Paulo e voltar para a casa da mãe, em Pelotas, no interior do Rio Grande do Sul. A partir daí, passou a se dedicar totalmente à escrita e hoje, além de escrever, também roda o Brasil e outros países ministrando oficinas. “Descobri que gosto muito de dar oficina de poesia, de compartilhar leituras e de poder ser uma leitora também para as pessoas que estão começando a escrever.” 

Com uma presença marcante na internet, Angélica acredita que os blogs surgidos no início dos anos 2000 possibilitaram o aparecimento de vozes poéticas até então represadas. “Isso acho que mudou bastante a cena da literatura.” Durante o bate-papo, a escritora gaúcha ainda falou sobre suas influências, as primeiras leituras e a descoberta da poesia como uma manifestação artística possível.

Manual
Cresci em uma casa em que havia livros, sim, mas eles eram quase todos do meu avô, que era português e veio para o Brasil com 13 anos e aprendeu a ler sozinho. Ele era um cara que gostava muito de ler, então acabei crescendo entre esses livros dele — e havia coisas muito interessantes na biblioteca do meu avô. Lembro de um livro que se chamava Manual do secretário moderno. Foi uma descoberta muito interessante para mim e engraçada também porque era um livro que basicamente ensinava como redigir cartas. Desde como escrever uma carta para vender uma casa até carta para pedir uma moça em namoro. Mas ele também tinha uma coleção encadernada das seleções do Reader’s Digest, que eram quase todas do período da Segunda Guerra. E eu também achava aquilo fascinante, sobretudo a seção de piadas, que se chamava “Rir é o melhor remédio”.  

Na escola
Lia bastante a coleção “Para gostar de ler”. Na verdade lia qualquer cosia que tivesse lá, porque meu interesse era preencher o cartão da biblioteca. Deve ser alguma coisa de ariano, não sei, porque eu sou ariana. Eu ficava lendo tudo aquilo, então meus pais se deram conta: “Nossa, ela gosta de ler”. E acho que foi uma coisa muito boa para eles. Eu era daquelas crianças que os pais não podiam descuidar um segundo porque aprontava alguma coisa. Estava sempre quebrando coisas, riscando as paredes. Aí quando comecei a ler, me aquietei. Minha mãe sempre que ia ao centro — eu morava em Pelotas — e me trazia um livro.

Prima
Nos anos 1960 havia uma coleção bastante popular, que se chamava “O mundo da criança”. Era uma enciclopédia e, como a minha prima já estava grande, ela me deu esse livro. Comecei a ler o primeiro volume, que era justamente de poesia. E aí foi aquela emoção: “Oh, meu Deus, o que é isso?” Não tinha lido poesia antes. E nessa enciclopédia americana, que foi traduzida para o português, tinham muitos autores de língua inglesa, entre eles o Robert Louis Stevenson e o Edward Lear, este último de poesia nonsense. E lembro que tinha bastante coisa engraçada. Meu primeiro contato com a poesia foi via essa poesia engraçada para crianças, com bastante brincadeiras de palavras. E daí para escrever foi um pulo.

Primeiros versos
Comecei a ler esses poemas da enciclopédia e a escrever os meus próprios versinhos. Para mim foi como desenhar, não via muita diferença, não achava que era uma coisa especial o que eu estava fazendo, mas ao mesmo tempo, era muito legal, porque escrevia os poeminhas e dava, sei lá, para uma tia, ou para minha mãe, e elas morriam de rir. É uma coisa muito legal fazer alguém rir. Então acho que isso me incentivou também, as pessoas achavam engraçado. E também tive a sorte de ter professoras de português que descobriram que eu gostava de escrever e me pediam textos. Lembro que isso foi uma grande emoção para mim. Acho que tinha uns dez anos, por aí, e a professora pediu para que eu escrevesse um poema sobre o Dia das Mães. Aí escrevi na aula mesmo, entreguei para ela, e no dia seguinte, quando cheguei no colégio, uma colega de aula disse: “Tu viu que o teu poema está lá embaixo no quadro de avisos, no corredor?”. Foi uma grande emoção ver meu poema escrito, estava em uma cartolina rosa enorme. Aí comecei a falar para as minhas colegas que meu livro ia sair no final do ano, que até chegar à sexta série eu lançaria. O poema foi parar no Diário Popular, que era o jornal de Pelotas, então fui publicada pela primeira vez aos 10 anos, há três décadas e meia.

Ana C.
Sempre fui a poeta da sala. A maluquete, poeta e tímida. Mas aí, no segundo grau, fui estudar eletrônica. Todos os meus amigos estavam indo para essa escola técnica, então acabei indo junto. Mesmo sem nenhum pendor para exatas, me lancei nessa carreira técnica. Não deu certo, mas quando eu estava lá aconteceu uma coisa muito interessante. Um colega de aula, que acompanhava a minha “carreira” de poeta, chegou e disse assim: “Olha, tem uma poeta aqui que eu acho que tu tem que ler, tu vai gosta dela.” Ele me entregou A teus pés, da Ana Cristina César. Eu tinha 15 anos. Nunca tinha lido nada parecido e imediatamente comecei a imitar a Ana Cristina Cesar.

 

Heróis
Lido um pouco mal com essa coisa de ídolo. Acho que não tenho muitos ídolos. Gostava da Sigourney Weaver explodindo aliens. Queria ser a Ellen Ripley [do filme Alien]. Nessa época ouvia umas coisas como The Cure, The Smiths e o que eu conseguisse botar as mãos lá em Pelotas. Não tinha internet, YouTube, essas coisas. Então era o que aparecia. E gostava muito de matar aula para ir na loja de discos. Isso era um grande prazer para mim. Matava aula e ficava lá. Dava para pegar o LP, botar os fones e ficar ouvindo. Fiz muito isso. Acho que ouvi música com bastante atenção e então nessa época eu gostava muito de rock. Lembro quando ouvi Suzanne Vega pela primeira vez, fiquei bastante impactada, sobretudo porque gostei da poesia dela. Para mim, em termos de letras, ela é que nem o Lou Reed. Ah, e a Rita Lee, obviamente. Rita Lee sempre foi muito importante para mim.

Letras
Estava com 18 anos quando comecei a fazer o curso de Letras em Pelotas. E achei muito chato o curso. Talvez eu devesse ter perseverado um pouquinho mais, porque primeiro ano, de repente, é mais chato mesmo. Mas um dia estava numa aula de Teoria da Literatura e o professor, que era uma pessoa muito iluminada, falou assim: “Se vocês querem escrever, o lugar de vocês não é aqui”. Pensei que aquilo não era para mim mesmo. No meio de uma aula de Latim, um dia saí para comprar uma Coca-Cola e não voltei mais. Foi assim que larguei o curso.

Escócia
Quando tinha 17 anos, fui passar dois meses na Escócia a convite de um professor meu de inglês. E adorei o país. Juntei dinheiro durante um ano e pouco para ir morar na Escócia. Mas durei seis meses lá, porque era muito difícil ser ilegal. Isso foi no início dos anos 1990. Eu lavava louça em restaurante, cuidava de criança, foi uma experiência muito legal na verdade. Até procurei universidades para estudar, mas era muito difícil, especialmente se tu não tinha um visto.

Jornalismo
Aí eu voltei. Como gostava de escrever, de pensar o mundo e de viajar, decidi fazer Jornalismo. Comecei a estudar na UFRGS, em Porto Alegre. Mas também descobri que ali não era o lugar para escrever literatura. A minha mãe falava: “Tu faz o que quiser da tua vida, mas primeiro tu te forma”. Acabei me formando em Jornalismo mais para atender esse desejo da minha mãe, porque ela se esforçou para que a gente conseguisse estudar. O meu pai morreu quando eu tinha 18 anos, e ele nunca deixou a minha mãe trabalhar. Ele morreu de uma hora para outra. Então ela ficou meio assim... E meio que teve que se virar, ela pintava em porcelana, tinha feito alguns cursos, aí começou a pintar e vender isso numa feirinha de artesanato. E enfim, a duras penas ela conseguiu nos ajudar, nós somos quatro mulheres em casa. Eu terminei o curso. Durante a faculdade, que achei bastante enfadonha, li muito, usei muito a biblioteca. Nessa época já tinha internet e comecei a pesquisar umas coisas. Descobri, não sei como, Walt Whitman. Comecei a ler as coisas em inglês mesmo. Imprimia no centro de computação da faculdade, lembro que eram umas folhas enormes verdes, naquelas impressoras matriciais, que faziam muito barulho. Depois do Whitman, achei novas referências, de uma coisa fui para outra, até cair nos poetas beats. E foi incrível. Fui tendo acesso a uma livraria que a gente não tinha até então em Porto Alegre.

Estadão
Fiz Jornalismo, mas na verdade nunca achava que alguém ia me dar o emprego de jornalista, porque, enfim, não tinha o perfil. Sempre fui meio retraída e não gostava muito de conversar com as pessoas. Aí tive que aprender a conversar com as pessoas, tive que aprender a fazer perguntas. Aprendi a fazer perguntas de maneira que as pessoas respondessem a informação que eu precisava. E, sobretudo, essa coisa de escrever em jornal diário, de ter uma hora que tu vai ter que entregar o texto, não tem essa história de inspiração. Mas quando fui trabalhar no Estadão eu tinha a ilusão que eu ia para o Caderno 2, que ia escrever sobre música, livros — mais sobre música. Aí, já na primeira semana, estava na redação e me disseram que para entrar no Caderno 2 era só se alguém morresse. A equipe era muito pequena. Meu primeiro emprego como jornalista foi naquela seção de cartas dos leitores. Eu era a pessoa que pegava as cartas, abria, porque mandavam muita carta pelo correio, e digitava, arrumava os erros de português e tal. Também tive uma breve passagem pela editoria de política e detestei. Aí fui cair no caderno de Cidades. E ali, por exemplo, eu tinha que ir à delegacia. Quando a filha do Sílvio Santos foi sequestrada, fiz plantão vários dias na frente da casa dele. O que me levou a me perguntar muitas vezes: “Meu Deus, o que eu estou fazendo da minha vida? Como eu vim parar aqui?” E na verdade esse momento de “como eu vim parar aqui, o que estou fazendo da minha vida” acontecia pelo menos uma vez por mês. Foi por isso que larguei o jornalismo. 

Descoberta
Um dia, depois de ter feito uma oficina de poesia com o Carlito Azevedo, tive uma iluminação de que “ok, eu quero escrever, mas não é jornalismo, é poesia”. Veja bem, aquilo tava na minha cara o tempo inteiro, era aquilo que eu estava fazendo desde pequena. Então é isso, bora largar o emprego e me dedicar à literatura. Liguei para minha mãe e disse que estava pensando em passar um tempo em Pelotas. Ela me apoiou. Seis meses depois, pedi demissão, entreguei meu apartamento. Aí voltei para Pelotas para organizar e terminar de escrever o que veio a ser o meu primeiro livro, que se chama Rilke shake.  

Internet
Quando fiquei sabendo o que era um blog, acho que foi em 2001, logo criei uma página para mim, que se chamava Terrible waitress (garçonete terrível), por causa de uma música de uma cantora chamada Ani DiFranco em que ela dizia assim: “I was a terible waitress, so i start to write songs” (“eu era uma péssima garçonete, então comecei a escrever canções”). Não sabia direito para que aquilo servia, quem ia ler de fato — e acho que durante muito tempo eu estava falando sozinha ali. Mas a coisa pegou no Brasil e muitas pessoas tinham blogs. Muita gente começou a publicar poemas nessas páginas. Nessa época comecei a conhecer pessoas que tinham blogs de poesia. A primeira pessoa que conheci foi a Virna Teixeira, que é uma poeta do Ceará, e hoje mora na Inglaterra. Nos blogs sempre tinham links que indicavam outros blogs. E a gente clicava num e ia para outro, aquilo não acabava nunca e era maravilhoso, porque de uma hora para outra era possível descobrir pessoas de vários lugares do Brasil que escreviam, que não tinham publicado livros ainda, a maioria que não era publicada nem em revistas. Isso acho que mudou bastante a cena da literatura.

Rilke shake
Não escrevi o livro com a consciência de que estava fazendo poesia com humor. Acho que para mim isso é uma maneira natural de escrever e de lidar com algumas coisas do mundo. Senso de humor é uma coisa muito importante porque acaba sendo o que me salva. Mas acho que humor e ironia são coisas diferentes. Por exemplo, meu segundo livro, Um útero é do tamanho de um punho, tem muito mais ironia do que humor e leveza. Mas sobretudo é uma coisa minha, uma característica minha de estar constantemente achando coisas engraçadas e divertidas. 

Um útero
O segundo livro acho que é mais difícil que o primeiro. Mas esse fato de eu ter escolhido trabalhar com um projeto tem a ver com eu ter ido morar na Argentina. Fui morar numa cidade chamada Bahía Blanca, que fica no Sul da província de Buenos Aires e tem muitos poetas. Com eles aprendi a noção de poesia como trabalho, uma coisa séria. Os poetas de lá ficavam desenvolvendo seus projetos poéticos, trabalhando muitos anos em um único livro. Tenho uma amiga, Lucia Bianco, que estava trabalhando num livro chamado Caça menor há mais de 10 anos. Pensei que poderia ser bom fazer algo semelhante. Então para meu segundo livro, não queria pegar todas as coisas que já tinha escrito nos últimos anos e fazer como se fosse uma antologia, como no primeiro. Queria escrever sobre algum assunto importante para mim. E a coisa da mulher sempre foi um assunto para mim, por eu ser do interior do Rio Grande do Sul, por eu ser lésbica, por eu ter consciência disso desde muito pequena e por eu nunca ter me encaixado no modelo de mulher que era esperado, sempre me senti muito esquisita e questionava isso. Será que sou menos mulher porque não uso maquiagem, porque não uso saia? Mas o que é ser mulher, afinal?” Aí decidi que eu ia embarcar nesse tema. E acabei fazendo um projeto, de um programa que existia na época, que era o Petrobras Cultural, com bolsas de criação literária de um ano. Meu projeto foi aprovado e fiquei um ano lendo e tentando escrever os poemas do livro.



Política
Não sei se o artista tem que se posicionar. Não gosto de obrigar ninguém a fazer o que não está a fim de fazer. Então se alguém é artista e não está a fim de se posicionar, se alguém é pintor e quer pintar paisagens e não coisas mais políticas, para mim OK. Cada um sabe o que consegue fazer. Acho que ativismo político é muito importante e algumas pessoas fazem isso melhor do que outras. Sou uma pessoa bastante retraída, como eu disse, a coisa de me expor nunca me agradou muito, mas essa coisa de ser mulher é política, então não tinha como escrever sobre ser mulher, sem cair nisso. Ao mesmo tempo, não acho que seja uma coisa ostensivamente política, a gente até poderia pensar no que é um poema político, mas a questão de ser mulher e dos requisitos que a gente tem que cumprir para ser mulher, é uma coisa bastante política.

Oficinas
Descobri que gosto muito de dar oficina de poesia, de compartilhar leituras e de poder ser uma leitora também para as pessoas que estão começando a escrever. Queria poder ter feito oficina de literatura quando era mais nova, por exemplo. Poder oferecer isso para outras pessoas hoje é uma coisa que me deixa muito feliz. E sempre faço isso com a noção de que é uma troca e a gente está compartilhando coisas. Não estou em uma posição de professora, de dizer “isso está certo, isso está errado”, não, é de troca. E aprendo, claro, muita coisa, com as pessoas que fazem as minhas oficinas. E o fato de dar oficina também me faz estudar o tempo inteiro. Enfim, tem sido uma experiência bastante feliz para mim. E sempre gosto de deixar claro que escrever é uma prática e cada um tem o seu caminho. Temos que ir atrás das coisas que a gente quer dizer — e de como a gente vai dizer, pois isso é um trabalho que nunca acaba. Não é porque se escreveu um livro, que ai saber como fazer o próximo livro. Não tem um mapa, uma indicação, na verdade se tu escrever um poema, não tem como usar esse poema como modelo para o próximo texto, é tudo do zero de novo.

Próximo livro
Estou com 45 anos na cara agora e só tenho dois livros publicados porque sou devagar mesmo. Agora, por pura pressão, de amigos, familiares e da editora, vou lançar um livro em março de 2019. Tenho um trabalho bem grande pela frente, que é olhar para aquilo tudo que escrevi desde Rilke shake e que não entrou em Útero e escolher o que vai ser o livro. Escrevi nesse meio tempo várias séries de poemas ou de livrinhos, então acredito que esse livro vá conter vários outros livros dentro dele.