Sevilha

 Amilcar Bettega


Era certo que alguma coisa ali se passava, alguma coisa de grande e decisiva, mas da qual ainda lhe escapava a verdadeira dimensão. Talvez nem mesmo conseguisse elaborar em seu pensamento o que se passava, ou que acabava de se passar, talvez apenas intuísse, mas era uma intuição clara e precisa.

Uma dessas coisas que acontecem assim, de repente, quando tudo se precipita e depois se estagna: você chegou ao fim, você sabe que é o fim, que desceu tudo o que tinha para descer e você não vê aonde mais pode ir, então tudo o que tem a fazer é esperar, e você espera, sem saber exatamente o quê, mas você espera. Porque sabe que é o fim.

Aí pode ser algo banal. Que num outro contexto não teria importância nenhuma. Por exemplo, essa mudança no tempo: foi de repente, depois de tantos dias de chuva e céu encoberto, sem fazer frio porque não era ainda época de frio, mas sempre a chuva e o céu carregado de nuvens. E era aquilo de pisar nas poças, portar guarda-chuva, cobrir-se com impermeáveis, entrar nos cafés para esperar a chuva arrefecer, sair outra vez sob o céu escuro e as nuvens baixas, que deixavam o clima abafado — porque ainda não era época de frio e chovia, mas continuava abafado sob o céu carregado de nuvens.

O banal foi isso: mudou o tempo, e de um momento para o outro o sol era intenso e generoso na Andaluzia. De repente era Sevilha de manhã cedo, sob as franjas do sono, Sevilha que veio sem muito aviso depois de uma noite de viagem, depois de tantos dias de chuva e céu carregado. Sevilha como um jorro de luz. De repente, o dia amanheceu em Sevilha.

Até então ele não tinha se perguntado o porquê de Sevilha. Nem depois, não pensou muito: estava em Sevilha, era sábado de manhã e o sol era farto. Havia uma paz nova, difícil de precisar, não exatamente um alívio, pois já não havia muito o que aliviar, sentia-se completamente vazio, só isso, vazio numa cidade que o recebia para alguns dias de anônimo turismo e nada mais. Depois seria a continuação, porque chega o momento em que é preciso continuar: você sente que chegou ao fim, você sabe que é o fim, que ainda pode prorrogá-lo um pouco numa espécie de repouso após o fim, recuperar as forças, fazer qualquer resumo, mas sempre vem o momento em que é preciso continuar.
Então podia ser ainda aquele período de prorrogação, de alongamento da situação, de balanço das coisas, e nesses casos o melhor a fazer é procurar um hotel não muito caro, soltar o peso da mochila e deixar-se andar pelas ruas, vazio e sem objetivo pelas ruas ensolaradas de uma cidade que lhe surgiu assim na ponta da noite e livre de toda a poesia, livre da literatura e das imagens feitas, apenas cidade amanhecida, fresca e ensolarada, depois da chuva. Então é tentar apreender qualquer coisa na memória para, ao menos, guardar um pedaço dela, e anos mais tarde puxar por essa memória, as referências, e ver que não há nada além das obviedades que não valem o esforço de resgatá-las: Sevilha é branca, só.

Então vamos, e ele se deixa andar, vazio e ensolarado, esbarrando em azulejos, rostos morenos, ruas de pedra, pátios da Andaluzia.

O hotel tinha um pátio, era um velho edifício andaluz com um pátio no centro, para onde davam os quartos. E o sol é ocre em Sevilha, as gentes são novas, as mulheres bonitas, então… Então o quê? Comprar um cartão-postal, comer uma tortilla, sentar num degrau de pedra e observar.

De repente teve sede, bebeu uma cerveja e viu que aquilo era bom. O dia foi escoando lentamente, quase sem vontade, e ele continuou bebendo, vazio e com sede, e ao cair da tarde bebeu mais, e ainda bebeu no jantar e depois do jantar, na rua, em meio a um mar de jovens vestidos de preto que lotavam as ruas de Sevilha no sábado à noite e bebiam furiosamente.

Não lembrava como nem a que horas voltou para o hotel, sabia apenas que tinha acordado o porteiro que armava sua cama encostada ao portão de entrada, de forma a controlar a chegada dos retardatários. Lembrava que tinha dito “buenos sueños” ao porteiro, que não respondeu.

*

O domingo e aqueles acordes de guitarra ecoando no pátio já são uma outra coisa. Ficam no outro lado. E isso sim estará para sempre em sua memória: a música saindo das cordas da guitarra, os acordes vivos como o sol que invadia o pátio através do vitral opaco do teto, misturando-se a luz que ali ganhava um aspecto quase corpóreo. De repente sentiu Sevilha palpável nas notas que enchiam o pátio, e apesar da concretude daquela sensação sentiu-se como num sonho, um sonho que jamais esqueceria. Jamais esquecerá que, ainda sonolento, abriu a porta do quarto que dava direto sobre o pátio e viu o dono do hotel — o homem de uns sessenta anos com quem na véspera trocara quatro ou cinco palavras sobre o preço da habitação — dedilhando sua guitarra sob a luz intensa do pátio. Ele olhou para o homem que lhe devolveu um leve sorriso, acompanhando com sons viris da garganta os acordes de seu solo flamenco.

Ele voltou para o quarto, agora sabia que chegava mesmo ao fim. Ao fim do fim, e que a partir dali era já outra coisa. Entendeu porque Sevilha na ponta da noite, entendeu o andejar vazio nas ruas brancas de Sevilha, e sobretudo sentiu, condensado nos acordes da guitarra flamenca que enchiam cada milímetro cúbico do pátio ensolarado, sentiu que algo novo se mexia dentro dele. Foi quase feliz nesse momento, apesar da dor de cabeça, a sede e todo o peso da ressaca. Agora estava pronto. Tinha sono ainda e seria bom dormir um pouco mais, dormir mesmo bastante, deixar-se ficar na cama sem horário. Mas sabia que depois acordaria, juntaria as roupas e iria embora de Sevilha. Talvez sem nem mesmo olhar para o velho andaluz que ficaria ali, em seu pátio ensolarado numa manhã de domingo, para sempre dedilhando as cordas de uma guitarra flamenca.

Amilcar Bettega é escritor e tradutor, autor dos livros Os lados do círculo (Companhia das Letras, 2004) e Deixe o quarto como está (Companhia das Letras, 2002), ambos de contos. Vive atualmente em Portugal.

Ilustração: Rogério Coelho