Romance | João Urban

Benedito Domingo

Fotos: João Urban
— Essa serrinha é perigosa, ainda bem que não tem neblina, a cabeça da Anta fica logo ali — Benedito se referia à uma bica onde a água jorra pela boca de uma cabeça de anta de metal. 

-- Fizeram uma lanchonete muito boa, antes era só uma vendinha, mas aqui não é parada...! Minha vida tem muita coisa que não dá para contar, se eu te falasse você não ia acreditar...já fiz de tudo na minha vida. Trabalhei pesado na lavoura, desde menino...” 

E prosseguiu: “Quando eu tinha treze anos, meu pai foi embora. Sumiu. Abriu um buraco no mundo e sumiu dentro dele. De repente eu era o chefe da família, com treze anos tive que largar a escola e trabalhar na lavoura direto. Eu era um guri bem forte, trabalhava como um adulto, tudo que eu ganhava entregava para minha mãe. Meu pai sumiu e eu nunca fiquei sabendo por quê, até hoje não sei. Quando eu era mais novo, apenas um moleque, levava o almoço pra ele na roça. Depois ele vendeu o sítio e comprou uma casa bem pequena, mas boa, de peroba, começou a trabalhar numa loja de ferragens, era amigo do Geraldo, o dono da loja”. ´

— Olha aí, a bica... daqui umas horas a venda abre. Abre às seis... 

“Quando meu pai foi embora, eu já trabalhava na lavoura, nunca quis trabalhar na casa de ferragens, não gostava do Geraldo, cismava com ele pelo jeito que tratava minha mãe. Era eu que ajudava criar meus irmãos, levava o dinheirinho que ganhava para ela. Minha mãe fazia de tudo, lavava roupa pra fora, trabalhava de faxineira e ainda cuidava da casa. Enfeitava, punha cortina nas janelas, fazia vasinhos de flores com lata de azeite. Vida de pobre não é fácil, ainda mais pra mulher sozinha... 

-- Essa estradinha era difícil, no tempo da direção mecânica, agora esses carros parece um automóvel, tem carro de passeio que tem o volante mais pesado que esse ônibus. Hoje em dia tudo mudou, os ônibus da cidade têm até o câmbio ‘hidramático’, antes era só nos carros americanos, tinha o oldsmobile, era com câmbio automático, comia uma gasolina lascada... Uma serra dessas...um cabra meio fraco na boleia chegava lá encima arrebentado, era até perigoso, hoje em dia, olha só...” 

E me mostrava com que facilidade movimentava o volante...Contei a ele de minhas aventuras transportando gado com um chevrolet-gigante 1948 do meu cunhado. Mostrei minha carteira de habilitação modelo “D”. Ele sorriu: — Então você sabe...! 

Às vezes eu ocupava os silêncios de Benedito Domingo contando alguma história que pensava combinar, ter algo a ver com aquela que ele estava me revelando aos poucos. Intuitivamente eu queria estimular o homem a avançar na sua narrativa. 

Contei, quando ele disse que trabalhava duro na lavoura, as noites, três ou quatro, que passei arando terra com o tur, trator de procedência polaca, como era também o meu pai. O tur tinha um volante pesado, sem ajuda motora, como convinha a uma república democrática popular (brincadeira, companheiros!). 


“Fiquei escondido no meio das toras de peroba e de um caminhão velho, que apodrecia no pátio da estação.” 

Contei que meu cunhado havia se associado a um japonês, numa plantação de tomates e criação de “garinhas regorn”. O japonês tinha três filhas, eu nunca conseguia diferenciar uma da outra, tinha uma que me interessava mais, eu não sabia exatamente qual, acho que elas se divertiam um bocado com isso, ou não. Na colheita eu tentei acompanhar o ritmo delas empilhando as caixas de tomate, mas meus braços, de alpinista, não corresponderam à resistência das japonesinhas. Ao tentar colocar a décima caixa no ponto mais alto da pilha, para a alegria das três, bíceps e tríceps falharam. Teve uma que riu mais que as outras, enquanto recolhia os tomates espalhados no chão do paiol, com aquela risadinha japonesa. Decidi que era aquela que me interessava. Não adiantou, dali a alguns dias eu não sabia mais qual era...

Benedito ria, mas ria sério, pensando na gravidade das revelações que estava para me fazer... 

— Não quero fazer comparação, mas cabo de enxada é mais pesado que o volante de qualquer trator polaco! — Ele disse rindo. 

Concordei. Disse-lhe que não queria fazer comparações. Benedito retomou sua narrativa. 

João Urban nasceu em Curitiba, em 1943. É um dos grandes fotógrafos brasileiros da atualidade. Autor dos livros Bóias-frias, Tageluhner in suden brazilien (1984), Tropeiros (1992) e Tui i Tam — Memórias da imigração polonesa (2004). Benedito Domingo, romance de onde o trecho acima foi extraído, marca a estreia de Urban na ficção. O livro será lançado este mês pela editora Confraria do Vento, no Recife, onde o escritor vive atualmente.