Romance | Jair Ferreira dos Santos

O inferno das frases de efeito

Nunca é tarde para termos uma infância feliz. 

Maximo Simpson, poeta argentino



Para qualquer observador, a catapora, um abridor de latas seriam mais românticos do que June e eu. Não tínhamos grandes recursos teatrais, embora mentir, omitir, dissimular fossem jogos aos quais, no passado, ela se entregava com eficiência quando necessário ou mesmo por um desvio sem nome, e eu também mentia, omitia e dissimulava ao remeter minha opinião sobre o que via aos cenários certamente mais amenos do futuro. Existiam porém linguagens de carinho que escapavam aos modelos habituais (joias, canções, sussurros, o sonho da casa própria), e assim até mesmo June e eu tínhamos ao deus dará o nosso jeito de satisfazer a demagogia do amor. Que nos é tão íntima quanto o nosso pâncreas.

Eram quatro da tarde — Dante e eu discutíamos como ele podia quebrar sua neutralidade de opinião quanto à PPP do crematório no blog e no Face, passando a ser contra — quando ela me pegou de carro na Agrotec. Me pediu para não falar nada, deitar no banco do carona, inclinado ao máximo para trás, e fechar os olhos. Eu disse que este era um exercício de autodomínio que as freiras do Educandário faziam comigo na infância, e ela respondeu:

“Exatamente, meu, espero que não tenha esquecido a lição.”

“Que história é essa?”

“Nós precisamos fazer aquilo que estamos fingindo que não vamos fazer. É bobagem, mas precisamos disso”, insistiu, já com o carro em movimento.

A lista do que evitávamos fazer não era pequena e pela calça jeans, a camisa amarela marcada pelos seios sem sutiã, eu não podia deduzir grandes coisas. June rodou pela cidade seguindo um roteiro que eu não tinha como decifrar às cegas. Enquanto isso, comentava a independência e o aspecto saudável revelados por sua mãe após a morte do marido, que durante décadas de casamento infeliz só lhe deixara uma saída — a hipocondria. Eu ouvia em silêncio, concentrado no incômodo que se tornava aflitivo quando se reprimia algo tão natural quanto estar de olhos abertos. Ela mudou de assunto para continuar falando com a promiscuidade das comadres, agora sobre a rebelião na família de Paloma, née Ortúndia, por causa do novo nome que assumira. Parentes a evitavam ou não se dirigiam mais a ela, e houve quem, na igreja, a denunciasse ao pastor, que descolou no ‘apóstolo’ Paulo passagem onde figurava obscuramente o rebatismo, permitindo-lhe salvar a fiel para não a perder a cliente.

Quando o carro parou num acostamento em declive, eu, me levantando, vi que estávamos próximos ao muro lateral do cemitério, branco feito nata; à nossa frente, do outro lado da ferrovia desativada fazia anos, erguia-se esplêndida e rosada a paineira sob a qual nos encontramos pela primeira vez.

“Estive aqui há um mês”, falei.

“Eu também. O casario está chegando perto do cemitério, se derrubarem a paineira vai ser horrível.”

“Escrevi um poema sobre ela. Não me lembro mais dos versos.”

“Que pena. Nunca li.”

“Era sobre uma índia que a tribo local enterrou numa urna entre as raízes da árvore. No outono ela floresce, é como se a mulher renascesse. Simples assim. E fora de moda.”
Saímos do carro.

No cheiro seco que sobe da terra há rastros diversos — defensivos, adubos, lavouras. Perto de onde estamos, sobram pastos vazios, com arbustos e matagais nos baixios desgastados pela estação. Sob um sol pálido, o planalto se estende para o poente com vales e colinas devastados, mais que recobertos, pela resolução cinza que o ar dá ao trigo verde. As promessas que fizemos a uma paisagem. Um pouco da nossa firmeza vem daí.

June me pediu para tirar do porta malas a caixa de isopor com cervejas no gelo, enquanto ela carregava a sacola onde havia pães e queijos para acompanhar o peito de peru fatiado. Arrumamos tudo sobre toalhas duplas de papel, depois nos sentamos em almofadas de plástico, ela na posição do lótus, em meio a um círculo de flores de um rosa vivo que evitamos pisar. Abrimos os trabalhos com um beijo longo, ansioso.

“Você me beija como se eu fosse desaparecer”, ela disse.

“É mais ou menos isto, considerando aonde você foi parar na versão anterior”, não pude deixar de lembrar.

Torcemos os lábios num semi-sorriso ante essa acusação, surpresos porque, agora, ela não era nem amarga nem cruel.

“A gente amadureceu, podemos conversar sobre qualquer coisa.”

June me estendeu uma lata de Antártica gelada, depois o copo para dividi-la comigo. Os sanduíches de peito de peru foram regados com um molho de ervas artesanal feito de ricota, limão, sálvia e outras folhas igualmente virtuosas. Eventualmente, a uns 200 metros mais abaixo, víamos passar por uma estrada vicinal um ônibus, um caminhão com restolhos de cana. De repente, pelotões de pardais sobrevoaram a paineira na direção contrária à do sol.

“Me lembro do nosso encontro como se fosse ontem. Eu tinha vindo de férias do Rio para visitar Dante, rever uns amigos e andava muito por aqui. Respirar, espairecer. Tem lugares que aliviam a nossa desordem. Era dezembro, não sei, e eu vi uma mulher sair dos trilhos e caminhar até mim, sentado no banco de madeira que não existe mais junto à árvore. Você me perguntou:

‘É você que é o Max Strasser?’ Não esperou a resposta e emendou: ‘Eu li o seu livro.’

‘Talvez. Sobreviveu?’

‘Até agora sim, vamos ver daqui pra frente. Eu sou a June’.

“E daí, o que aconteceu?”

“Eu apertei a sua mão, olhando para as suas sobrancelhas, dois arcos finos bem desenhados; achei quediziam coisas esquisitas, uns descaminhos, e pensei assim, do nada: ‘Essa mulher vai me foder a vida’”.

“Você nunca me falou nisso. Se arrependeu?”

“Se tivesse me arrependido, não estaríamos aqui.”

“Max”, ela disse com uma suavidade estranha, ou pelo menos assim me soava a felicidade nela, “nós tiramos a sorte grande pela segunda vez. A gente não tem o direito de errar.”

E bebeu a Antártica como mandavam os Upanishads — com um gole demorado.

“Claro, claro”, eu disse. “Quantos anos faz que nos encontramos aqui?”

“Vinte anos, cravadinhos.”

“Você está mais lenta, mais organizada. Acho bom e bonito.”

“O nome disso é filho mais a Responsabilidade Sócio-Ambiental. É como ter a obrigação de acreditar, você precisa se organizar para ser convincente.”

“Pensei que fosse protestar porque eu não disse que você está mais bonita.”

“Eu não sou uma mulher bonita, eu sou uma mulher interessante.”

“E a plástica no nariz?”

“Foi pra corrigir um defeito, não para virar a Angelina Jolie. Aliás, eu não gostaria de ser uma mulher boniiiita. Dá muito trabalho. Meu, pode ser uma roubada, se você não tem uma personalidade assim à altura da sua beleza.”

June esvaziou o copo e enlaçou os dedos sobre as coxas sem parecer cansada.

“A cerveja é a minha cocaína, eu me sinto poderosa.”

“Poderosa. Antigamente diria “foderosa.” Higienizaram a sua linguagem, quase não ouvi você soltar um palavrão.”

“Já sei: eu mudei uma porção de hábitos porque mudei de classe blá blá blá,"

“O que vc disse mesmo sobre a cocaína?”

“Eu disse que a cerveja é a minha cocaína, porque eu me sinto poderosa. Descobri por acaso.”

“Sorte sua”, falei, e entrei num surto de alegria porque enfim estávamos conversando sem reticências, sem premissas ocultas, às claras. Seu projeto “madame” tanto quanto a minha poesia e os prêmios sem jaça que ela recebeu eram meias verdades. Precisávamos de escapes, a cerveja, a prosa vadia que eu escrevia para os jornais ou para o Dante. Entrávamos pela sinceridade porque, anexo à meia verdade, havia um país vizinho e desconhecido por onde começávamos a andar mais comportadamente desde o nosso reencontro.

Tomei um bom gole de cerveja para imitá-la, e mastiguei o sanduíche com voracidade, como se estivesse esfomeado.

“Como está a Vívian?”

“Meio tristinha porque a peruca da Amy Winehouse que ela comprou em Londrina, lembra?, está se desfazendo, era artigo vagabundo. Acha que vão matar a cantora ou que ela pode se suicidar. Tudo porque em Nova York tem uma bolsa de apostas sobre quanto tempo ela vai durar. / Tá valendo, estão faltando heróis para o pessoal da idade dela. / Para a nossa também. Aliás, vamos fazer 50 anos, você em outubro, eu em novembro. O que que é isso, 50 anos? / Não sei, mas se você não tem problemas de sobrevivência fica mais fácil viver, a gente não precisa ter tanta opinião, e olha o mundo um pouco de cima, de um vazio superior. Da minha parte, acabou aquele negócio de ser macaco de mim mesmo, de macaquear o talento, agora é isto, o que sobrou, e eu não sei se quero melhorar muito. / A gente podia comemorar o meu ou o seu aniversário em Montevidéu. Achei um guia turístico da cidade no meio dos seus livros. Eu conheço Chicago e não conheço o Uruguay, que não fica tão longe de Foz. / Estive lá umas duas vezes. Acho que a sua família não vai gostar. Pensamos nisso uma outra hora. / Foi só uma ideia. / Sim, nada contra. Mas, June, faz dias que estou pra te falar: você ou é estranha mesmo ou engana bem, porque eu não vejo o menor traço de menopausa em você. A sua lubrificação é perfeita / Eu sou uma retardada, vai demorar. Só fui menstruar aos 15 anos. / Bueno, obrigado, vamos ter um playground sem problemas por mais tempo. Me dá outra latinha. Estou bebendo feito um caminhoneiro de férias. É porque não consigo falar sobre quase nada do que eu vejo em você. / Foda-se — em sua homenagem — deixa correr. Mas eu tenho uma pergunta bem clara que você ainda não respondeu. Por que você não escreveu mais poesia? Eu não me conformo. / Eu também não. Tem horas que chego perto de alguma sugestão, alguma fiapo de resposta, mas ela me foge igual uma mosca. / Deixa pra lá. E o nosso grito de guerra, qual era? // A gen... Juntos e berrando:

INÚTEL, A GENTE SOMOS INÚTEL.

Essa valeu a tarde. Os roquinhos mixurucas que pareciam o Evangelho. Agora é sério, não vai me esganar, mas temos de renovar aos poucos o seu guarda roupa. Você continua se vestindo mal. / Você também se vestia mal, agora deve ter melhorado ou danou-se de vez, não sei. Com dinheiro, faz besteiras maiores. Muda de assunto. / Sim, meu rei. Encontrei o Neno e a Norma na rua anteontem. Querem que a gente vá com eles a um bar quase no fim da Espírito Santo, o Mula Preta. Enche de estudantes. No quarteirão de cima fica o Mula Manca, é frequentado mais pelos velhos, mas tem o mesmo cardápio: mandioca frita com bacon e cervejas importadas. Os velhos tem mais dinheiro. Na decoração, numa das paredes, tem vários tipos de bengalas com os sobrenomes dos donos gravados. / Vamos lá. Você é a minha locomotiva social. Daqui a pouco já escureceu. / A brisa aumentou. Está esfriando. É uma pena você não gostar de criança. Precisava conhecer os filhos do meu irmão mais velho. / O ser humano mais desprezível que eu já vi é uma criança, garoto de três anos e meio, quatro. Era meu vizinho no Rio. A manha em pessoa. Não fala, só berra. Não ri,não sei do que ele brinca, não tem amigos. Manda o pai tomar no cu, chama a mãe de vaca. Só tem duas respostas: não, e NÃÃÃÃÃÃO. É agressivo, desaforado. Parece que não é burro, mas não tem medo, já imaginou uma criança sem medo, a insolência? É um psicopata em botão. / Você já tentou se colocar no lugar do menino? Parece criança adotada. / Na época, se me colocar no lugar dele diminuísse o esporro, eu até encarava. / Ia me esquecendo, amanhã tenho que levar minha mãe no dentista. Refazer implantes. Ela tem uma resistência à dor impressionante. / Você também. Ah, sim, o filhodaputinha usava um bordão: ‘Não tô nem aí’, à vera, aos quatro anos. Dá pra segurar? Vai lá, leva a mãmi, um pouco de submissão aos costumes não faz mal, as gerações são para isso. Estou falando porque não sinto a menor falta nem de ser filho nem de ser pai. / Depois dessa, acho que vou levar você comigo no Canção pra fazer as compras do mês. / Não abusa que eu topo e aí pode ser muito pior. / Você tem razão, não seria uma boa medida sócio-educativa, porque eu mesma não fazia as compras em Foz. / Quem fazia? / Quando não era o Ramon, ele adora comprar especiarias exóticas, aparelhos, novidades pra cozinha, quando não era ele, era o motorista. / June... / O quê? / Aposto como você frequentava a Daslu. / Não existe isso de “frequentar” a Daslu, não é um bar ou uma igreja. Eu fui lá algumas vezes, comprei roupas com minhas amigas de São Paulo, mas daí eu li em algum lugar que a loja não vendia moda, vendia preconceito. Caiu a ficha, parei com aquilo. / Escureceu. / Culpa sua. Vem cá. Estou com frio, me abraça.

Uma lua turca que fosse se erguera em algum lugar porque o escuro ficou menos compacto e eu a beijei demoradamente, depois ela pegou na minha mão e a levou até os seios por baixo da camisa amarela, que eu desabotoei para lamber, afagar seus mamilos endurecidos, e ela desceu o zíper da minha calça, tirou meu pau para fora curvando-se para sugá- lo com movimentos delicados, sem pressa, nos quais eu não sabia o que era técnica, o que era paixão, o roçar dos lábios parecia um deslizar de seda sobre seda enquanto a língua ia e voltava pelos caminhos que chamavam o orgasmo e depois de variações que aumentavam a sensação de limite e me abandonavam em um beco estreito e esfuziante o gozo veio como uma calamidade festiva no seu exagero. Derrubei a cabeça no seu colo, mas não esperei os suspiros pararem, me ajoelhei à sua frente, pedi a ela que tirasse os jeans e a calcinha e que, de pé, apertasse, esfregasse, enfiasse meu rosto na sua vagina, que eu, agarrado às suas coxas, depois lambi com aplicação, com devoção, até fazê-la emitir uma cascata de gemidos sincopados ao gozar.

Jair Ferreira dos Santos é escritor e poeta. Paranaense de Cornélio Procópio, está radicado no Rio de Janeiro desde a década de 1970. Autor do clássico O que é pós-moderno (1985), também publicou A inexistente arte da decepção (contos, 1996), Breve, o pós-humano (ensaios, 2003) e Cybersenzala (contos, 2007). O trecho publicado pelo Cândido faz parte do romance em progresso O inferno das frases de efeito.

Ilustração Bianca Franco