Romance | Felipe Franco Munhoz

Mentiras

— Marina, mar de minha sina, morfina desta carne. Minha morte, minha ruína. Ma-ri-na: os lábios explodindo, a língua cambaleando pela boca.

— É, acho que você deveria ligar para sua amiga psicanalista. Ainda mais se já está antevendo o que pode acontecer.

— Ontem, quando fui embora daqui, fui direto encontrá-la.

— A psicanalista? Para uma sessão de Campari?

 — Encontrar Marina, Philip. Correndo. Uma visitinha rápida. Começo de semestre, preparação das aulas. Fui embora de lá e ainda consegui ficar mais tempo na Thaís; ela está comportada, passiva, não tem falado sobre aqueles assuntos. Philip, sinto que estou produzindo com fôlego renovado. Ah, e Marina também escreve.

— Olha só.

— Não seja irônico.

— Nunca. Se você me permitir, quantos anos ela tem?

— Minha idade.
 
— [suspirando] Bom.

— Por isso a língua não salta pelo céu da boca e tropeça de leve, no terceiro, contra os dentes; cambaleia. Posso ler um trecho, afinal? Pequenos prazeres da vida em família.

— Vá em frente.

— É separado em tópicos. Por exemplo: Um. A briga pela atenção da genitora.

— [risos] Vá em frente. É possível contrariar um homem assim?

— Feriados em família resultam, tiro e queda, na briga pelo amor materno. Dizemos Mãe você não está me olhando, aqui Marina inseriu uma barra, Mãe a culpa é minha? Assim tentamos fazê-la sentir-se muito culpada com a situação. É essencial brigar com seus irmãos, barra, irmã, ou tentar fazer com que eles também se sintam culpados, traço, o que não é um trabalho de Hércules. É cabível chorar, barra, gritar, barra, espernear entre as já mencionadas frases de efeito. [risos] Seis. Irritar o patriarca. O senhor nosso pai é um homem muito previsível. Sendo, portanto, muito prazeroso e fácil de irritá-lo. Basta puxar sua barba ou um comentário ofensivo a Herzl e pronto. Frente aos amigos dele, a diversão é ainda maior.

– Mulheres judias.

– Não é demais? São os prazeres familiares! Oito. Envergonhar o irmão mais velho. O irmão mais velho é um homem de muita classe, barra, cheio de pose. Estranhezas em público envergonham sua cultivada índole. Família Bergman é soberana, nota dez, no quesito Criar situações embaraçosas.

– [risos] E quais são os seus pequenos prazeres?

– A porta quase sempre fechada; o texto crescendo, crescendo. Minha vida em família é aqui. Não tenho irmãos para disputar qualquer atenção, nem faço gosto em provocar o patriarca. Enfim, gostei do texto. Eu corrigiria alguns detalhes, naturalmente, algumas cacofonias, aquelas barras, as repetições, muito, muito, muito, os lugares-comuns que extrapolam e os adjetivos sem força. Mas, no geral, achei sincero.

– Assim como você.

– Mais sincero impossível. Afinal, estou apaixonado.

*

— Como foi o seu dia?

— Cansativo, Thaís. Saí do trabalho e fui direto visitar um amigo para conversamos sobre literatura.

— Você gosta disso, não é?

— Sim. E ainda tenho um jantar de.— Hoje? São cinco para as onze!

— Em cinco minutos.

*

— Ainda apaixonado?

— Claro. Desta vez é para valer.

— Fale sobre ela.

— Tem olhos verdes; cabelos castanhos até os ombros; a pele macia espalhada pelo corpo todo. É, também, carinhosa: a mulher mais carinhosa que já conheci. Tão meiga no íntimo como na aparência. Que habilidade! Que calma! Que sensatez! Para mim, tão sedutora quanto Thaís. Mas nesse ponto acaba a semelhança. Atitude, segurança e decisão, porém, em Marina, tudo isso ordenado em favor de algo mais do que uma aventura sibarita. Leciona hebraico, inglês e dança tradicional. No entanto, para uma pessoa que emana, nas suas atribuições, uma aura de recato, de presença plácida, serena e inexpugnável, ela é surpreendentemente inocente e franca sobre o lado pessoal de sua vida e em relação aos seus amigos; suas plantas; seus irmãos. Inclusive os textos em tópicos. Ela é tão reservada como uma robusta menina de dez anos. Em resumo, essa fina associação de uma sóbria segurança social, entusiasmos familiares e suscetibilidades juvenis é simplesmente irresistível. O que quero dizer é que nenhuma resistência é necessária. Uma espécie de tentação à qual posso finalmente sucumbir.

— Isso não me é estranho. [risos] Foi uma boa descrição, por sinal. Mas neste caso, sucumbir?

— Poderia pedi-la em namoro.

— Eu disse Sucumbir.

— Poderia casar-me com Marina. Chega?

— Sucumbir.

— Poderia converter-me. Chega?

— Chega.

*

— A borboleta continua noteto, [risos] foi mais rápida: está morando comigo.

— Borboleta negra tem algum significado?

— Não sei. Você se importa com isso?

— Não.

— No interior a gente perde alguns medos.

— Os medos urbanos? Minha mãe detesta mariposas, borboletas; mas nasceu no interior também.

— Deve significar mau presságio.

— Talvez, querida; talvez seja apenas uma homenagem nabokoviana.

— Amor, o que está fazendo? Homenagem? Naboquê?

— Vestindo as roupas. Eu preciso.

— Já?

*

— Fale mais sobre ela.

 — É inocente, segura, franca. Bom gosto musical, boa cultura. Contou- me sobre o Golem e sobre os Pogroms e sobre a Diáspora. Conhece um pouco de Hércules e Ulisses. Rara companhia agradável.

— Percebeu como já mudou o tom?

— O tom?

— Quando você descreveu a primeira noite com Marina, usou frases de poesia menor. Guardou o sábado em meus braços. Olhos verdes que refletiam o céu já completamente estrelado. Completamente apaixonado. Ma-ri-na, mar de minha sina. Ninguém fala assim, nem de modo romanceado.

— Sou poeta menor, perdoai. Estou sim. Acontece.

— Apaixonar-se pelo tema de pesquisa?

— É.

— Quantos livros sobre judaísmo você anda lendo?

— Vários.

— Algum equivale a conhecer a sinagoga no sabbath, a casa judaica? — Marina não é ortodoxa, você sabe. Tanto faz. É como qualquer mulher com quem já me relacionei. Da forma que você diz, [risos] parece que sou um crápula: apenas buscando informações. Informação nenhuma. Achei que fosse ver mais judeus a caráter no Clube Israelita.

— A caráter?

— Na classificação de Marina, urubus.

— [risos] Urubus.

— Emprestei O avesso da vida, para ela.

— E?

— Aposto que alguns judeus ficam revoltados. O personagem Lippman, por exemplo, todo caricatural, faz o mesmo discurso de muitas pessoas que conheço.

— Ela também fala com essa voz estridente que você tentou imitar?

— [risos] Não é o tom de sempre? O mesmo fio, da mesma cor.

— Apenas distorcido.

— Como sempre. Tentei levar adiante a conversa sobre Lippman, mas achei melhor não discutir. Parece que o pai dela é sociólogo. Sionista, se não me engano.

— Melhor não discutir.

— E Lippman sionista. Acredito que ela sionista. Ou humanista.
— Melhor não discutir.

— Ou pesquisar melhor. Estou pensando em conhecer a sinagoga dos Urubus.

— Você não vai conseguir. Precisará arrumar, primeiro, uma namorada ortodoxa.

— E isso eu posso conseguir?

— Não.

— É claro que não, e até por opção; estou feliz com Marina. Tudo bem, ainda há Thaís, mas Thaís ocupa uma posição diferente, entende? Pensei em começar tudo do zero. Recomeçar. Apenas com minha Bergman. Vir aqui durante as tardes, depois ir à casa de Marina. Então repensei e decidi manter Thaís. Não sei por quanto tempo, [risos] quantas páginas, mas talvez ela seja uma espécie de porto administrável.

— [risos] Thaís anda comportada. E, qualquer coisa, qualquer impasse, você apaga na próxima revisão.

— Administrável, não?

*

— Quer tomar um vinho?

— Não posso, querida.

— Angelica Zapata, Malbec, dois mil e quatro.

— Não posso.

— Você está vestindo as roupas? Fiz aquela sobremesa de frutas vermelhas; aquela, você gosta.

— Querida, eu.

— Já?

*

— Como qualquer mulher com quem já se relacionou?

— Sim. Mas. Claro que sua casa é uma casa judaica.

— É?

— Aquela tira inclinada, sabe? Ela tem no batente da porta de entrada, no batente da porta do quarto.

— Sei.

— Aquele candelabro com sete castiçais. Dois ou três na casa, mas nunca vi acesos. Parece que decoração. O chão é de madeira, poderia causar um incêndio, não?

— Não.

— Madeira escura. Nenhum tapete, alguns quadros. Tem, em cima da geladeira, uma caixa de madeira.

— Escura também?

— Clara. Baixa, acredito que dez centímetros. Com uma vela dentro e mais algumas coisas que não consegui identificar. Você sabe, não quis pegar a caixa, não quis fazer minha visita parecer uma investigação. Mas na vela estava escrito Bar mitzvah. Em alguma oportunidade melhor eu pergunto.

— Certo.

— Um grande tocador de vinil no quarto.

— Oposto ao aparelho de som cristão.

— Exato. E Marina tem alguns vinis de Israel, acredito. Em alguma oportunidade melhor eu investigo.

— [risos] Tenha calma com o processo, Felipe.

— Fico pensando na Bahia. Será que os judeus baianos, de Salvador, acreditam em Iemanjá?

— Pouco provável.

— Mas aquele candelabro com sete castiçais não poderia servir para excelentes trabalhos?

— Felipe.

— Um trabalho que amaldiçoe May you lose your faith and marry a pious woman.

— Cuidado, [risos] cuidado.

— [risos] Dessa eu estou livre: ela nasceu longe.

— Ainda bem.

— Ela nasceu longe, no Sul, e eu fugi das crenças. Fugi. O ponto é: Marina não poderia desejar que fosse perdida alguma fé já inexistente.

— No entanto, Felipe, talvez, você perder a fé que deposita em nada signifique passar a depositar fé em alguma coisa.

— Não tinha pensado por essa perspectiva.

— É.

— Ela disse que nossos filhos seriam judeus de qualquer maneira. Não haveria problema se casássemos.

A pious woman.

— Será? Será que fui amaldiçoado?

— Marina faria isso? Duvido.

— A maldição, em todo caso, poderia resolver certas questões.

— Poderia?

— Não há uma situação que um homem apaixonado não consiga explorar em proveito próprio.

*

— Já, Felipe? Já?

*

— Philip, será que estou fazendo as coisas direito? Não deveria apagar Thaís de vez? Penso também se não deveria queimar este Mentiras. Queimá-lo e comprar uma casa afastada. Minha velha praia. Então penso quanto tempo uma pessoa pode passar olhando para o mar, mesmo sendo o mar que ela ama desde criança?

— É muito difícil dizer. E se você precisar do que está acontecendo?

— Das dúvidas, você diz? Mas eu não deveria, não sei, pedir Marina em casamento? Passaríamos a vida comendo peixes crus, forshpeis, não importa. Teríamos filhos judeus, felizes.

— O problema é ser dividido em dois. E não estou falando da vida dupla. Isso nunca mudará. Um Felipe não vive para o outro escrever?

— Vive. Mas, mas talvez uma casinha na praia.

— E o Felipe que escreve?

— Terá os sentimentos, o amor, não?

— Eu estou apenas sugerindo, ou talvez seja mais adequado dizer pressupondo, que uma vida pessoal desorganizada é provavelmente melhor para um jovem escritor. Melhor do que encher os pés de areia com uma aliança no dedo. Seu trabalho possui turbulência, que precisa ser alimentada. Naturalmente, não através de peixes frescos kosher. Você não pode sufocar o que é um dom.

— Estou entendendo.

— Vocês estão vivendo noites ótimas? Excelente. Mas entenda, aquele que forma um vínculo está perdido; entenda, não é o Felipe que vive quem pode escrever O fato é que Felipe se matou, quando tudo perder a magia. E acredite: tudo perde a magia.

— Mesmo o amor, ou o mar, ou Marina?

— O mar estupendo. Talvez seja o único.

— Que dê vontade, sempre, de saltar do carro à beira-mar e sentar-se em qualquer banco voltado para ele. O mar estupendo.

— Talvez seja o único. Por estar constantemente mudando sem jamais mudar.

— Já o amor.

— E Marina, Thaís;

— Phoebe, Amy Bellette;

— Todas;

— Todas.

— O escritor não se pode repetir.

— Não adiantaria o peixe kosher igual.

— Não.

— Pois se o peixe fosse igual todos os dias.

— O fato é que o Felipe que vive poderia suportar.

— Mas o Felipe que vive só vive para o outro escrever.

— Você entendeu.

Felipe Franco Munhoz nasceu em São Paulo, em 1990. É graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Paraná. Em 2010, recebeu uma Bolsa Funarte de Criação Literária para escrever o romance Mentiras, inspirado na obra de Philip Roth. Vive em São Paulo (SP).