Romance | Edyr Augusto

PSSICA


Ilustração Leo Gibran

Manoel Tourinhos passou a viver pensando na vingança contra o homem que dilacerou o corpo de sua Ana Maura. De vez em quando, pegava a rabeta e dava longos passeios. Não podia aparecer por conta de sua cor, muito branca, e de seu sotaque. Zé do Boi, nas horas vagas, seguia procurando Pitico. De início, em Soure, não soube de nada. Foi a Salvaterra, Ponte de Pedras, São Sebastião da Boa Vista, chegou até Afuá. A pista surgiu de repente. Um cabo foi assassinado em Muaná. Tinha desgraçado a filha de um comerciante. Este chamou um matador, Dioclécio, que fez o serviço. Toda a polícia do Marajó estava atrás dele. Dioclécio, vulgo Pitico. Portuga e Zé do Boi foram para Muaná. Correram os bares. Nada. Quem podia saber não dizia. O cabo morto era um escroto. Arrogante. Os comerciantes pagavam proteção Pegava percentagem das casas de prostituição. Bebia e comia de graça. Sei lá, mermão. Pra nós, foi ótimo. Aquilo era um filho da puta. A polícia tá atrás. O capitão Silva botou todo o destacamento na rua. Tomara que não pegue. Fez um favor pra todos. O seu Diniz não pode ser culpado de nada. Até uma confissão, ele era apenas o pai da garota. Tomara que não peguem ele. Pra onde ele fugiria? Pro esconderijo. Soure. O Marajó é um mundo. É agora ou nunca. Na cidade não está. Em uma fazenda? Qual? Se estão escondendo, não vão dizer. Vai ver os donos nem sabem. Então vamos atrás de pista nos menores lugares. Nas vilas. Nessas onde todo mundo tem fome e um cara com dinheiro vai farrear. Foram margeando. Bebendo pinga, conversando. Ele é estrangeiro, é? Alemão, Zé do Boi dizia. Não fala português. E o que é que um porra dessas vem fazer aqui no fim do mundo? Sei lá, me pagando, tá bom. Chegaram à Vila Paixão. Tem uma cara estranha. O cara não é daqui. É isso. A galera vem sempre beber e ficar com as cabocas? De vez em quando baixa um aqui. É mais aí pras cidades grandes. Chega uma garota. Pergunta aí pro alemão se ele não quer foder. Faço pra ele por cinquenta reais. Égua! Assim tu estás querendo te aproveitar. Pera lá. Porra, o cara paga em dólar, né? Não, faz por vinte que tá bom. Nem fodendo. Trinta, então. Quantos anos ela tem? Doze. Muito criança. Já fode pra caralho, meu! É minha filha. Quem fodeu primeiro fui eu. Tu és o pai? Que é que tem? Eu criei, alimentei, fui o primeiro a provar desse xiri aí. Não é, Marluce? A criança concorda e ri. Tu qué fodê? Pergunta. Portuga diz que não. Ele não quer. Ele entende a nossa língua? Algumas palavras. Foder, beber, cagar. Foram embora, procurando outra birosca. Água Boa, o nome. A dona é uma mulher gorda, farta, sempre despenteada, descalça, que tem uma venda. Dona, não tem mulher pra arranjar pra gente? Tem, dotô, é só chamar. Umas meninas novinhas, nenhuma é cabaço. Cabaço é mais caro, mas a gente arranja. Tu podes pagar? Não, não quero cabaço. Mas também não quero muito novinha. Mas é das novinhas que todos gostam. Ainda tem xana apertada, dotô. Mas eu não disse? Passa cada um por aqui! Qual é o problema? Mulher nasceu pra foder, né? No mês passado prenderam o Cu de Abacate. Quem? O nome é Tião, mas o apelido é esse. Comia a filha todos os dias, e a mulher sabia! Ora, qual é o problema? A pequena foi se queixar pro bispo. Ora, que padreco tem mais é que rezar missa e não encher o saco. Até parece que vai resolver o problema. E as mulheres, vocês querem? Tem duas que não têm condição. Como assim? Um cara que esteve aqui malinou muito com elas. Porra, o cara além de foder machucou, bateu, tem uma que nem cagar consegue direito, porque o cara abriu o cu dela todinho. Diz que estava atrasado. Égua do atrasado. Lembra dele? Eu sei quem é. Por que vocês querem saber? Agora entendi. Por isso esse papo de nove horas todo. São da polícia? Não, dona. A senhora pode ver que não. O parvo disse que estava entocado numa fazenda e só tinha uma tia pra ele comer. Mulher velha, feia, escrota pra caralho. Aí veio e tirou a forra. Pagou bem. Olha, tinha dinheiro, viu? Deu pra ver. Pagou pra gente não chamar a Ambulancha, não sabe? Parece que tinha medo de saberem quem é. Estava armado. Deu tiro pro ar, tocou o terror. Deu o nome? Não. Mas disse que a fazenda é Murunim. Em Soure? Sim. E como a dona sabe que é procurado? Dito foi a Salvaterra comprar uns remédios pras pequenas e viu a polícia procurando. Ele não lembra o nome, mas o filho da puta matou um soldado em Muaná. De encomenda, não sabe? Ainda vai querer as putinhas?


Ilustração Leo Gibran

Chegaram a Soure de tardinha. Hotel Pérola de Soure. Dois quartos. Um patrício? Não, não sou português. Sou das colônias. Já é alguma coisa, ô pá. Bebes um vinho? Não é como daqueles da terrinha, mas quebra um galho. O que vêm fazer aqui, tu e teu amigo? Estou morando em Muaná há alguns anos e deu vontade de conhecer outras cidades. Passei em Ponta de Pedras, Salvaterra e, agora, Soure. Tiramos umas férias. Sim, patrício, as férias são importantes. Dá pra viver bem aqui em Soure? Amigo, eu também vivo há alguns anos por aqui. Me estabeleci, abri este hotel e vou levando. Meus filhos estão na capital, por aqui somente eu e minha senhora, uma cabocla da terra! Eu também fui casado com marajoara. E o que aconteceu? Infelizmente minha esposa faleceu muito nova. Ah, que triste. Eu sinto muito! Quem sabe, aqui em Soure, tu não encontras uma nova companhia? Quem sabe? Muitas fazendas por aqui? Ah, sim. O Marajó é um lugar único. Fazendas grandes, bons amigos. Ouvi falar de uma chamada Murunim. Murunim? Ah, claro, é dos Santos Vales, família antiga, de bem. Marajoaras autênticos. Aqui vivem apenas os mais velhos. Os mais novos já foram pra Belém. Onde fica? É longe. Imagina que a frente dá para o rio Amazonas e as costas, para o oceano. Um paraíso. Consegues imaginar algo assim?

Sim. Desceram bem antes. Correnteza braba. Mantimentos acabando. Combustível no fim. Vamos direto com os proprietários? Melhor. Por aqui, a lei é diferente. Estranho que aparece sem ser convidado, o que pode ser? 

Sexta-feira. Manhã cedo. O vaqueiro chamou o capataz. Belo cavalo. Um homem branco. Português. O outro é dos nossos. Podemos falar com o proprietário, o senhor Santos Vales? Mas a modo que lhe pergunto, doutor, qual seria o assunto? Desculpe, mas preferimos falar apenas para ele. A modo que isso não vai ser possível, sem me dizer do que se trata. Estamos procurando uma pessoa. São polícia? Não. E quem seria? Diremos apenas ao senhor Santos Vales. É porque, se for um magro, com cabelo grande tipo playboy, já morreu. Como assim? Veio polícia e tudo. Já levaram o assassino. Vocês tão armados? Deixa tudo comigo. É só pra defesa pessoal e caça. Deixa tudo comigo. Vamos. Saiu trotando. Cinquenta metros antes da casa grande, mandou parar. Vou avisar. Espera aqui. Voltou. O senhor vai receber vocês ali no alpendre. Está com visitas. 

Pois não. Quem são os senhores? Meu nome é Manoel Tourinhos, sou angolano e vivo há muitos anos em Curralinho. Este é José Silva, mas todos o chamam de Zé do Boi. Muito prazer. Desculpem recebê-los aqui, mas é que nesta época do ano vêm muitos turistas e passam o final de semana, passeiam, enfim, vocês sabem. Do que se trata? Há alguns meses, três homens invadiram meu comércio para roubar. Eu os repeli, mas eles levaram minha esposa como refém e a mataram. Além disso, eles a esquartejaram. Estou seguindo a pista de um desses homens, e a última notícia que ouvi foi de que estaria escondido aqui, na fazenda Murunim. Por favor, sempre me disseram que os proprietários não saberiam disso. Silêncio. Sinto muito o que lhe aconteceu, prezado angolano. Isso deve ter sido terrível. Não sei se posso lhe ajudar, mas é que, infelizmente, uns três dias atrás um homem foi morto próximo daqui. Ele estava morando com Das Dores, viúva de um vaqueiro antigo, muito querido. Eu não sabia. Encontraram morto, na praia. Tive de chamar polícia, todas essas providências desagradáveis. Muito chato pra mim um acontecimento desses. E o corpo? Enterraram por aqui, não sei onde. Walter, meu capataz, pode mostrar. Sabem qual era o nome dele? Walter pode levá-los até Das Dores. Ela deve saber. Era parente dela. Mas, por favor, com discrição. Tenho hóspedes. É desagradável. 

A mulher estava encolhida num canto do casebre de taipa. Quase não falava. Foi preciso Walter pedir. Ele era meu sobrinho. Apareceu aqui pedindo pra ficar um tempo. Ficava por aí o dia todo sem fazer nada. Veio uma parenta chamar ele. Quando voltou tava estranho. Calado. Não saía de casa. De noite, foi dar uma volta. Mirtes, mulher do Jacaré, sabe, veio me dizer. Teu sobrinho tá morto. Ai, Dioclécio, por que, meu Deus? Sinto muito. 

Resolveu seu assunto? Da pior maneira. Queria pegar esse homem. Vou ficar sem minha vingança. Talvez tenha sido melhor assim. Pense bem. Você me parece um homem razoável, educado. Sinto pela sua tragédia, mas Deus sabe o que faz. O barco sai de madrugada levando os turistas para Soure. Quer pegar uma carona? Vamos. Melhor amarrar a rabeta e ir mais seguro. Calados a viagem toda. De Soure em diante, novamente na rabeta, direção de Curralinho, Zé do Boi falou. Portuga, vou te falar uma vez sobre isso. Vou te dizer pra tu saberes por que eu tô contigo de verdade. Eu queria te matar. Queria te matar porque tu me roubaste Ana Maura. Antes de tu apareceres, ela era minha namorada. O pai não gostava porque eu era só um vaqueiro. Mas nós namoramos desde criança. Brincamos juntos. Ela foi estudar. Eu fui pro pasto. Mas nos finais de semana nos encontrávamos pra dançar. Aparecia uma aparelhagem e lá nós íamos dançar. O pai ficava puto, mas não podia fazer nada. E tu chegaste, com esse teu sotaque de portuga, todo branquinho, boas maneiras, e ela se apaixonou. E eu não pude fazer nada. Podia te matar, inventar qualquer coisa, mas não o fiz. Pra tu teres uma ideia do meu amor por ela. Eu amava tanto que deixei ela ir contigo, para não a machucar. No dia do casamento, eu fiquei de longe. Bebi pra caralho, mordi tanto a mão de vontade de te dar porrada que saiu sangue. E depois fiquei, de longe, olhando a luz do quarto se apagar, sabendo que tu estavas... bem... tu não tens ideia como isso me doía. Dói, ainda. Eu te roguei uma praga, Portuga. Uma pssica pra vocês não serem felizes. Pra ela voltar pra mim. Pra matar a vontade de ter a vida que não tive com ela. Os filhos. Então, eu ia depois do trabalho, quase sempre, lá pra venda. Ela sabia que eu olhava pra ela. Um dia, tu não sabes, ela veio me dizer pra deixar de ir lá. Que sabia do meu sofrimento, mas não podia mentir. Que te amava. Que não me amava mais. Que eu compreendesse. Como? Então, eu ia e ficava por ali. Tu nunca percebeste. Então, quando aconteceu o... tu sabes... eu quis te matar. Pra mim tu tinhas deixado eles matarem Ana Maura. Pensei, planejei a tua morte. Ia pra cadeia, sem problema. Que vida eu tinha, sem ela? Aí tu me chamaste pra vingar Ana Maura. Eu topei. Sim, eu queria matar todos os caras. Todos. E ainda falta um, já esqueceste. Não, não esqueci. Portuga ouvia e discretamente procurava o cabo de sua faca. Então eu pensei que, depois de pegar Pitico, eu te matava, em um momento como esse, eu e tu, sozinhos, na rabeta. Portuga, tu acabaste com a minha vida sem mexer em nada. Tu levaste o meu amor. Tu levaste Ana Maura. Ficou um silêncio. Zé, eu também não tenho mais nada. Penso até em sair de Curralinho. Fazer a vida em outro lugar. O que faço agora, se para onde olho Ana Maura está? E esta terra tão grande e linda, mas sem lei, sem nada. Olha, se ainda queres me matar, me mata. Tirou a faca e jogou no fundo do barco. Faz o que quiseres. Silêncio. Portuga, eu não vou te matar. Não é por falta de coragem. É porque não é direito. Se tu não tens nada, eu também não tenho. Bela dupla fazemos. Um atira no outro, então? Tu queres fazer outra coisa, ir embora? Estás melhor que eu que nem isso tenho. Quando chegar a Curralinho, vou... olha, é aniversário de Breves. Vou a Breves, esvaziar a cabeça. Vamos, Portuga? A gente bebe umas e chora as mágoas, enterra tudo por lá. Não sei, Zé. Está me batendo agora um cansaço enorme. Tem um vazio. Queres saber? Vamos pegar aquele filho da puta que está faltando. E vamos a Breves!

Edyr Augusto nasceu em Belém (PA), em 1954. Fez sua estreia no romance com Os éguas (1998). Também é autor de Moscow (2001), Casa de caba (2004) e da coletânea de contos Um sol para cada um (2008), todos publicados pela Boitempo Editorial. Em 2013, Os éguas foi lançado em francês (sob o título Belém) e, neste ano, recebeu o prêmio Caméléon de melhor romance estrangeiro, na Université Jean Moulin Lyon 3. O texto publicado pelo Cândido faz parte do próximo romance do autor, Pssica, que será lançado neste mês. Edyr Augusto vive em Belém (PA).