Reportagem | Kurt Vonnegut

Passado, presente e futuro

Cultuado pelas novas gerações, Kurt Vonnegut (1922-2007) ganha reedição brasileira de seu clássico Matadouro-cinco, publicado há 50 anos

Omar Godoy

Publicado em 1969, Matadouro-cinco, do norteamericano Kurt Vonnegut (1922-2007), trata da experiência do autor como combatente na Segunda Guerra Mundial — mas poderia ser sobre qualquer outro conflito bélico. Não à toa, foi recebido na época do lançamento como uma espécie de crítica indireta à participação dos Estados Unidos no Vietnã, que ainda estava longe de terminar.

Vonnegut repudiava essa interpretação e, sempre bem-humorado, confessava sua verdadeira motivação para escrever o livro: queria ficar rico vendendo os direitos da história para Hollywood (o que realmente aconteceu na década seguinte). Piada ou não, o fato é que seu relato dos bombardeios na cidade alemã de Dresden, em 1945, possui um inegável caráter universal, capaz de sintetizar o horror de todas as guerras. Uma história triste, obviamente, porém contada em tom de sátira e com fortes traços de ficção científica, duas marcas registradas do autor.

Para celebrar os 50 anos da obra, a Intrínseca acaba de lançar uma reedição especial de Matadouro-cinco, com formato de capa dura e tradução de Daniel Pellizzari. É o primeiro de três livros de Vonnegut a serem publicados pela editora — Player piano (1951) e Café da manhã dos campeões (1973) ainda não têm previsão de chegada ao mercado. O alvo principal é a audiência jovem, cada vez mais interessada no legado do autor (cuja obra inclui mais de 30 livros, entre romances e coletâneas de contos e ensaios).

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Uma das provas desse encanto por parte das novas gerações é o grande número de perfis fake atribuídos a Kurt Vonnegut no Twitter. São contas sem qualquer ligação com editoras ou a família do escritor, mas que se dedicam a multiplicar suas inúmeras tiradas genais. “Podemos especular que o mundo está cada vez mais absurdo, e que autores como Vonnegut se encaixam mais do que nunca ao espírito de nosso tempo”, explica o tradutor, escritor e doutor em Teoria Literária (USP) Antônio Xerxenesky, responsável pelo texto de apresentação da nova edição de Matadouro-cinco.

Ele também cita a linguagem simples, clara e fragmentada de seus livros como fator de atração de novos leitores. “Vonnegut se recusava a escrever de modo empolado, buscando uma voz muito própria de um cidadão ordinário. Esse estilo envelhece melhor, talvez, e por isso soa contemporâneo até hoje”, reflete.

Sobre o uso do ponto e vírgula, por exemplo, Vonnegut era enfático: “Eles não querem dizer nada. São travestis hermafroditas. São só uma forma de exibicionismo, de mostrar que você foi à universidade”, dizia, em suas palestras sobre escrita, criação e observação do mundo.

Outra característica marcante do estilo vonnegutiano é a narração de eventos fora da ordem cronológica. Ou melhor: na grande maioria de seus livros, os acontecimentos são simultâneos — presente, passado e futuro existem ao mesmo tempo. Pelo menos é assim que os tralfamadorianos, a raça alienígena que aparece constantemente em sua obra, veem as coisas. Ao longo de Matadouro-cinco, o protagonista Billy Pilgrim “viaja” de forma não linear por lugares e situações vividas em diferentes épocas de sua trajetória: de uma viagem em família durante a infância ao sofrimento como prisioneiro em Dresden (onde se refugiou, durante os bombardeios, no matadouro que dá nome ao livro), passando pela rotina como um optometrista bem- -sucedido após a guerra e o período em que foi capturado e mantido em cativeiro num zoológico intergalático.



Ficção científica
Graças a essa aproximação com a ficção científica, Kurt Vonnegut ainda hoje é lembrado por muitos como um autor do gênero. Uma definição imprecisa, segundo o jornalista e escritor Roberto Muggiati, que traduziu dois livros do norte-americano, escritos em fases bem diferentes de sua carreira — Player piano (o primeiro romance, publicado originalmente em 1952 e lançado no Brasil em 1973 como Revolução no futuro) e Um homem sem pátria (de 2006, composto de ensaios curtos e ilustrações do próprio autor). “O cenário induziu a crítica a catalogar Vonnegut como um autor de ficção científica, mas nada é muito simples nele”, afirma.

Para Antônio Xerxenesky, houve uma tentativa de deslocá-lo desse rótulo após a consagração entre os críticos. “Afinal, a ficção científica é vista com muito preconceito, assim como os outros gêneros ditos ‘menores’, e segmentos da crítica não aceitam que um livro seja esteticamente impactante e pertencente a um gênero popular ao mesmo tempo”, diz. E completa: “Podemos falar, talvez, de ‘ficção especulativa’. Se nos anos 1970 já existisse o rótulo new weird, aplicado hoje em dia a autores como China Miéville, talvez Vonnegut tivesse se encaixado nessa subcategoria”.

O escritor publicou seu último romance, Timequake, em 1997, mas continuou produzindo ensaios e textos curtos até o fim da vida. Questionado sobre os possíveis herdeiros literários de Vonnegut, Xerxenesky não pensa duas vezes: “Tom Robbins, um autor que fez bastante sucesso no Brasil nas décadas de 1980 e 90 e anda fora de catálogo há tempos. Também vejo influências de Vonnegut em Robert Anton Wilson, escritor cult engraçadíssimo, fissurado em sociedades secretas e teorias da conspiração, que merece um revival no Brasil”.

Muggiati pensa diferente. “O pânico que domina o mercado editorial em todos os níveis nestes dias de crise não deixa nenhuma brecha para criatividade ou inovação. As grandes editoras, apequenadas, só querem apostar no que elas julgam certo. A esta altura, os herdeiros literários de Vonnegut estão por aí em outras mídias: HQs, YouTube, blogs ou fazendo cinema”, conclui.