Poesia: Fernando Naporano




O silêncio do ar
parece rachar
o abandono
dos meus sentimentos

A cabeça conclusivamente vazia
ilha de fel feliz
resignada
sem soluções
sem as cercas dos dias

O olhar ao nível da terra
plenitude roxa
a arder de esquecimento
Nada ao lado de nada
é a pedra
a rigidez da sua lava
que afasta
quem contempla o rosto

•••

Luz eneblinada
quase faz com que o ar
se recolha dentro de si
Claridade insuspeita
egressa do cinza
rima hermética
inerte
num facho de sol

Minúsculo calor opaco
partículas de frágil resistência
onde a alma de pedra
boia
fita a neutralidade
de todas as coisas

e se apoia












•••

Propago-me lento
cada vez mais lento
além lesma
no silêncio da grama

A sabedoria do vazio
instala sua cama
na minha altura

Medito sobre as dissipações
sei da nudez sem rastros
das nuvens paradas
que ajudam o tempo
não passar entre os dedos


Fernando Naporano foi vocalista, compositor e letrista da banda Maria Angélica Não Mora Mais Aqui, com a qual gravou três LPs entre 1982 e 1994. Atuou por 25 anos como crítico de cinema, música e cultura em veículos como O Estado de São Paulo, Isto É, Bizz, Interview, Around, Folha de S. Paulo, Trip e Correio Braziliense, além de colaborar com publicações inglesas e americanas. Possui sete livros inéditos e outros três em preparação. Os poemas publicados aqui fazem parte do livro A coerência das águas. Naporano vive em Curitiba (PR).

Ilustração: Osvalter Urbinatti