Poemas | Paulo Venturelli

Bilhetes Para Wallace



O perfume mágico da tua carne. Terreno oscilante. Prego ali minha potência muda do olhar — um geômetra do silêncio. O deslocamento do mundo rumo aos teus olhos negros. Neles me aninho com microfestas. Espero o gêiser da tua gentileza arrebatar mais meu encanto. Me recomponho no visgo do teu suor. És perspectiva colocada no centro do quarto. A galáxia somos nós. A feição de rapaz mulato me rouba a segurança insular. Te vejo oceano, ondas que sabes distender nos braços que te envolvem.




a liberdade é quanto fazemos
Marcelo Sandmann

Ávido. Substantivo. Corpo adorado. Mínimo retrato. Fenda no coração. Punção. Pegada. Júbilo. Noivado com a luminescência. Desbravamento. Esperma. Corcoveias. Pânico de luz. Neon da rutilância. Corpo e calor. Troncos, prepúcios, glandes. Esfuziante apelo. Posse. Magistratura da carne. Quase sangue. Eflúvios. Garras danadas. Costas lanhadas. Paus em ebulição. Bocas que se mordem. Amplexo complexo. Gula oblíqua. Sem medo. Delírio. Tremores úmidos. Cama em ritmo. Lençóis enrugados. Unhas. Dedos devastadores. Pleromas alvíssaros. Cachos encarnados. Cabeça do pau. Jangadas no mar. Espasmos. Cus encurralados. O convidativo cheiro das mucosas. Leão murmurando. Lascívia. Langor. Nervos distendidos.


Meu propósito: retalhar tuas carnes. Te cortar em postas. No sangue pelo lençol desenhar hieróglifos. Sinais de tribos velhas. Te temperar com pó lúbrico. Arranco tua medula, teus nervos. Consolação estéril. Dispor de ti. Maneirismo ameríndio. Sou barroco até o calcário do meu vinagre. A equívoca intriga — dançar ao redor dos restos. Estás submetido a mim num vazio em chamas. Minha veneração precisa de escracho. Permitir que andes por aí na fuligem de outros desejos? Mapeio teus destroços. Quando dissolveres a distância, junto cada fragmento — enredo da volta. Assistirei aos nossos paus — gladiadores rompendo o umbigo. No tosão, pequenos animais silábicos. Para tanto fomos feitos com a fórmula de sermos iguais na infinda diferença.


Paulo Venturelli nasceu em Brusque (SC), mas viveu grande parte da vida em Curitiba (PR). Foi professor no Colégio Medianeira e na Universidade Federal do Paraná (UFPR), de onde se aposenta no mês de junho. É autor do o romance gay Madrugada de farpas, previsto para sair em em 2015 pela Arte & Letra. Os poemas que o Cândido publica nesta edição são inéditos e pertencem ao livro Bilhetes para Wallace.