Poemas | Marcelo Backes

Poemas e baques baseados em metáforas de hafez


Uma viagem em que percorri o Irã de Norte a Sul, depois de volta ao Norte, passando por Persépolis e Pasárgada, me fez voltar aos gazéis de Hafez (1320- 1389), para mim o mais sublime entre os grandes poetas persas. Li várias traduções, alemãs, inglesas e francesas, sabendo desde o princípio que era impossível traduzir seus versos. A experiência foi tão intensa, no entanto, que nasceram alguns poemas fundamentados nas belas metáforas de Hafez, tão grandiosas na pujança oriental que por certo fazem qualquer ocidental – e isso deve ter acontecido inclusive com Goethe, que séculos depois chamaria o persa de seu irmão gêmeo – não corar, mas empalidecer de pudor.

fugiu teu coração
e eu, não obstante,
perdido como uma flecha
pairei no ar
por um instante
depois caí
e me perdi
no pó do chão

o peixe, o pássaro
eu mantive acordado
à noite inteira
com minha queixa
e tu, gazela,
distante, bela,
não levantaste nem mesmo
a cabeça de teu travesseiro

dos teus cachos em desalinho
jamais vou me livrar sozinho
pois só quem na tua armadilha cai
é livre de verdade e não se vai

nem por toda a eternidade
saberá o que é o amor
quem não tocou
com seu nariz rubicundo
o pó do piso
de um bar imundo

Marcelo Backes é escritor, tradutor, professor da Casa do Saber e autor dos romances O último minuto (2013) e A casa cai (2014), entre outras obras. Vive no Rio de Janeiro (RJ).

Ilustração: Marília Costa