Poemas | Isabel Furini

Aquela ópera

sonhei com uma gárgula no alto de um prédio
a gárgula (na penumbra) espreitava o céu
e vi algumas luzes transformar-se em gárgulas
e voar rumo às estrelas enquanto os bêbados cantavam:
Libiamo, libiamo ne’lieti calici che la belleza infiora*.
acordei e olhei pela janela e vi dois bêbados e uma prostituta
sentados na calçada — os bêbados estavam cantando La Traviata
e a prostituta usava um branco véu de noiva
e alegremente dançava dançava dançava
ao escutar a ópera de Verdi cantada pelos bêbados
percebi dentro de mim o alento de um dragão
(um infinito ulular de estrelas de sons e melodias)
e lembrei-me de antigas noites de sonhos e de solidão
a prostituta terminou sua dança e tirou o véu
e ficou quieta e silenciosa (seus olhos fitavam o firmamento)
e eu percebi que ela observava entre as nuvens o rosto de Deus
(o verdadeiro)
*Libiamo, libiamo ne’lieti calici che la belleza infiora/ Brindemos, brindemos
nos alegres cálices, que a beleza floresce.


Destino de Condor

e se vestiu de orvalho
depois de pássaro
e tive medo que se afastara cantando primaveras
semeando flores sobre as pedras
ou tentando reverdecer o deserto
na montanha de Machu Picchu um condor o seguia
e um xamã
ao predizer o seu destino
falou do caminho das estrelas
e uma vez
ele escutou o vento do Atacama
e uma árvore
(a única entre as pedras)
murmurou em seu ouvido
:
seu destino é ser pássaro
e voar
(além do vento)
voar rumo as estrelas.

Interrogante

O tempo é a imagem móvel da eternidade. Platão.
impossível ignorar os espelhos de Picasso
peixes escorregadios que refletem o próprio eu
impossível ignorar cadeiras e espelhos
guitarras e arlequins
nos quadros do artista dormem
a geometria e o mistério do cubo
(as formas e sua alquimia)
as horas brincam e pular de frente e de perfil
entre os chapéus das mulheres
Picasso cria um ardil
fragmenta o mundo com sua mente arguta
e pinta rostos com várias perspectivas
enquanto as horas brincam e pulam
:
um, dois, três...e o quarto homem?
onde estará o Timeu de Platão?

Isabel Furini é escritora e educadora. Autora do livro de poemas Os corvos de Van Gogh (2012), orienta a oficina “Como Escrever um Livro”, no Solar do Rosário, em Curitiba. É colunista da revista IndicaMais de Araraquara (SP).

Ilustração: Marluce Reque.