Poemas | Affonso Romano

Aquelas situações de novela
aquelas frases das canções banais
acontecem.
             Acontecem
com os que pensam
que aquelas situações de novela
aquelas frases das canções banais
não acontecem.
                 Acontecem
no lado suburbano
de meu peito.
   E posto que sejam kitsch
   como tangos e boleros
   soluçam e nos humilham
nos expondo ao ridículo
sem nossa autorização.



Deixei a Acrópole, em Atenas,
como a encontrei.
Pisei suas pedras
olhei as sobrantes figuras derruídas
e agora parto para meu distante país.
Não o fizeram assim os persas,
os turcos,
e aquele inglês avaro
que levou seus mármores.

No topo da montanha, a Acrópole resiste.

No café da manhã, a olhava.
No entardecer, a olhava.
À noite, iluminada, a olhava.

Certa madrugada levantei-me
para (há quatro mil anos)
comtemplá-la.

Eu
— exposto a pilhagens e desmontes,
admirei sua permanência.

Um dia estarei morto.
Ela sobreviverá aos bárbaros
e aos que, como eu,
depositaram
aqui
o seu pasmo.


DIA 31

Os que se foram neste ano
soltavam fogos, brindavam, puseram roupas novas
fizeram planos e festas
mas não conseguiram chegar onde estamos.
Nós e esta estúpida e gloriosa obsessão
como se a felicidade estivesse à nossa frente.

Não há o que dizer
embora a celebração.
Andar um ao lado do outro,
em silêncio
ou deixar-se ir sozinho
sob o peso da absurda solidão.




Os mortos não têm que escovar os dentes de manhã
não se espreguiçam quando acordam, aliás, nem acordam.
também não se preocupam com o que vão fazer à tarde.

Os mortos não têm que salvar o país
ir ao motel, pagar tributos,
Os mortos não sofrem de mal de amor
não se matam uns aos outros
não lêem os jornais, não discutem nas esquinas
nem no elevador conversam
sobre os jogos de domingo.

Invejáveis, os mortos.
Não se preocupam com os vivos
nem com com seus semelhantes, os mortos.

A busca da felicidade
foi totalmente ultrapassada
Os mortos atingiram, (porque mortos)
o que os vivos almejam:
a neutralidade absoluta.

Não estão presos ao tempo.
e riem da eternidade.


Affonso Romano de Sant'Anna nasceu em 1937, em Juiz do Fora (MG), e é considerado um dos mais importantes poetas do país. Autor de mais de 40 livros, entre os quais, Que país é este? (1980) e Textamentos (1999). Os poemas publicados nesta edição do Cândido são inéditos e fazem parte de um livro, ainda sem título, que será publicado em 2015. Vive no Rio de Janeiro (RJ).