Poema | Sylvio Back

o filho de dona Else

ou

parecia filme do Hitchcock

eu me encolhi
mui encolhidinha
(não sou boba, viu?)
olhou um olhou outro
ficou aquela fuzilaria
tremelicando
parecia filme do Hitchcock
(era à tardinha é noite)
nem transpirava mais
os passos deles explosão
de címbalos
ou grunhidos
como se destes pinheiros
caíssem grimpas sobre nós
a pressa é
toda criminosa (logo eu
criminosa!)
parecia filme do Hitchcock
a nudez se resumia ao lusco
-fusco
louras estrelas que já vinham
(advinhas)
naquela ferrugem vi-me
no alto da Golden Gate
(ventos aturdidos pela fuga)
sobre vidas a louvar
uma eternidade
ouvindo engodos
zurros de granizo
um quê de grave tropeço
fatal e inviável
parecia filme do Hitchcock
(o mantra do vislumbre)
nunca ficamos tão a sós
(como agora)
não me reconhecia
eu apenas me havia
ex-abrupto
baixou cheiro de acetato
novinho em folha
parecia filme do Hitchcock
febrão cinéfilo
era o que ainda
conseguia articular
mas riu (gengivas lívias
de 1997)
memo incrivelmente
espesso
a tela arquejou
(como um esquecimento)
parecia filme do Hitchcock
ela foi empertigando
ninguém se deu conta
sorte nossa
(balbuciou salobra)
nem todas as lágrimas
(contorcendo as garras
cianóticas)
nadaram em vão
parecia filme do Hitchcock
o dia da última
vez que vi minha mãe


Sylvio Back é cineasta, roteirista e escritor. Dirigiu os longasmetragens Lance maior, A Guerra dos Pelados e Lost Zweig, entre outros. Também publicou os livros de poemas O caderno erótico de Sylvio Back, Moedas de luz e As mulheres gozam pelo ouvido. Em 2013 lançou uma coletânea com seus poemas eróticos chamada Quermesse. Vive no Rio de Janeiro (RJ).

Ilustração: Marco Jacobsen