Poema | Ana Martins Marques

O livro

“o livro que alguém deixa cair ao adormecer
continua aberto,
como se ferido por um tiro”
Thomas Transtömer


O livro que alguém deixou cair
ao adormecer
continua aberto
ave abatida no voo
caída
com as asas abertas
ao pé da cama
o livro que alguém deixou
cair
crucificado
ao lado da cama
permanece acordado
ou cai também no sono
e sonha também
embaralhando as linhas
sonha que é pássaro
ou parede
sonha que lhe devolvem
a brancura original
que pode enfim não dizer nada
sonha que fala numa língua sem língua que todos entendem
sonha que conhece a água sem a destruição
sonha que as palavras se arruínam mas ele mesmo não se arruína
sonha que é de novo árvore, de novo floresta
sonha de novo suas ramas, sua seiva, suas flores
sonha que é uma vela aberta
que o outono alcança também
as folhas dos livros
sonha que doura ao sol
sua pele de papel
o livro que alguém deixou
cair
ao lado da cama
partitura para música
nenhuma
mapa para
nenhum lugar
caído no sono
do seu próprio peso
continua aceso
como uma lâmpada esquecida acesa
ao lado da cama

Ilustração: Thiago Salcedo


Ana Martins Marques nasceu em 1977 em Belo Horizonte, onde vive. É formada em Letras e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Autora dos livros de poemas A vida submarina (2009), Da arte das armadilhas (2011), O livro das semelhanças (2015) e Duas janelas (com Marcos Siscar, 2016). Por O livro das semelhanças, ganhou o Prêmio APCA de poesia e o terceiro lugar no Prêmio Oceanos 2016. 

Thiago Salcedo é graduado em Arquitetura pela Universidade Tuiuti do Paraná e um dos cofundadores do grupo Urban Sketcher Curitiba. Divide a profissão de arquiteto com a de aquarelista. Vive em Curitiba (PR).