Perfil do leitor | Vilma Slomp

Por trás da imagem

Autora de retratos dos principais escritores curitibanos, a fotógrafa revela seu gosto por livros de arte, poesia e filosofia


Omar Godoy
Divulgação


Vilma Slomp se orgulha de ter fotografado praticamente todos os escritores consagrados de Curitiba — nascidos ou radicados na cidade. Conhecida por seus retratos de personalidades paranaenses, ela coleciona registros de Paulo Leminski, Alice Ruiz, Wilson Bueno, Jamil Snege, Cristovão Tezza, Helena Kolody, Valêncio Xavier e até do paulista Décio Pignatari, que viveu durante um tempo por aqui. “Todos são ou foram meus amigos em algum momento”, afirma a fotógrafa de 63 anos, que já passou por todas as áreas da profissão e hoje se dedica mais a trabalhos autorais. 

Segundo ela, a lista possui três lacunas. Uma delas é impreenchível, pois o autor de Comendo bolacha Maria no dia de São Nunca, Manoel Carlos Karam, morreu em 2007. Miguel Sanches Neto, que agora vive em Ponta Grossa, será retratado quando voltar de uma temporada em Portugal. Sobra um desafio: convencer Dalton Trevisan, cuja reclusão só permite, no máximo, um clique de surpresa no meio da rua. “Já tive a oportunidade de flagrá-lo na frente de casa, mas achei que seria uma falta de respeito. Tentei entrar em contato com ele duas vezes, por meio de amigos em comum, mas ainda não deu certo”, diz, com uma ponta de esperança.

Leitora de todos os autores citados acima, a fotógrafa tem uma predileção pelas obras de Paulo Leminski e Alice Ruiz. Os dois poetas ainda eram casados quando Vilma os conheceu, no final dos anos 1970, durante uma palestra ministrada por Leminski. “Voltei para casa encantada, contando para o Orlando [Azevedo, seu marido, também fotógrafo] que aquele cara ‘vomitava sabedoria’”, lembra. Naquela época, auge do desbunde no Brasil, Orlando ainda era baterista da banda A Chave, um clássico do rock local. 

“A contracultura mexeu com todo mundo. Até meu pai ouvia os discos dos Beatles. Eu lia muita coisa sobre feminismo e adorava o Pasquim”, conta. Fiel ao espírito do período, Vilma construiu sua formação sozinha, buscando informações em publicações importadas. Desde então, suas principais leituras são os livros de arte, que ocupam uma sala inteira de seu estúdio / galeria, no bairro curitibano das Mercês. “Me interesso, principalmente, pelo processo criativo dos artistas, pelos bastidores das grandes obras.” 

A poesia também tem lugar cativo na sua mesa de cabeceira. Além dos preferidos e já citados Paulo Leminski e Alice Ruiz, ela tem lido Arnaldo Antunes e Waly Salomão. Outra leitura recente foi a biografia de Clarice Lispector escrita pelo norte-americano Benjamin Moser. “É um trabalho fantástico, profundo, que vai na raiz da história dela. Ainda mais se a gente levar em conta que o autor é extremamente jovem. Estou esperando o próximo livro dele, sobre a Susan Sontag”, diz. 

Quanto à ficção, Vilma admite que não tem consumido muito, apesar de ter sido uma boa leitora de contos e romances ao longo da vida. “Meus pais não fizeram faculdade, mas tinham uma cabeça muito aberta, viajaram o mundo inteiro. Além disso, tenho quatro irmãos mais velhos que também me influenciaram bastante. Lá em casa sempre teve muito livro e revista. Clássicos da literatura, enciclopédias, gibis, O Cruzeiro, Manchete”, conta a fotógrafa, que ainda guarda o primeiro volume marcante de sua trajetória. “Chama-se O jacarezinho egoísta. Ganhei aos 8 anos, quando tirei o segundo lugar num concurso de redação da escola, em Campo Mourão [no interior do Estado]”. 

A exemplo dos irmãos, ela completou os estudos em Curitiba, no colégio Sion, onde se exigia a leitura de um livro por semana. “Tínhamos excelentes professores, que nos incentivaram a ler Machado de Assis, José de Alencar, Eça de Queirós, Edgar Allan Poe, Charles Dickens, etc. Mais tarde, conheci Jorge Luis Borges, Júlio Cortázar, Gabriel García Márquez. O último romance que li, e adorei, foi Ana em Veneza [de João Silvério Trevisan]”, conta. 

A filosofia também figura entre seus interesses. Tanto que, no ano passado, Vilma se inscreveu num curso livre dedicado especialmente às tragédias gregas. De qualquer forma, a leitura para ela é mais do que um hobby ou uma forma de adquirir conhecimento. “Serve como um calmante para mim. Às vezes, estou cansada do trabalho no estúdio e tiro meia hora para ler alguma coisa, ali mesmo. Aliás, ler para mim é que nem dormir: posso fazer em qualquer lugar”, diverte-se. 

Com cinco livros de fotografia publicados, entre eles Dor (1998) e Curitiba central (2013), Vilma Slomp faz uma revelação: escreve poesia “escondida embaixo da cama” e gostaria de lançar uma reunião dessa produção. “Sou muito conversadeira, e uma forma de me expressar é escrevendo. Já fiz até uma oficina de haicai com a Alice Ruiz, nos anos 1980. Se você pegar o meu trabalho, vai ver que eu sempre tento colocar poesia nas imagens”, diz a fotógrafa, que em 2016 pretende lançar o projeto de livro e exposição Arte e poder no PR, só com retratos de políticos e artistas paranaenses — incluindo os escritores citados aqui e que sempre confiaram em seu olhar.