Perfil do leitor | Dado Villa-Lobos

Clássicos obrigatórios

Com um livro de memórias recém-lançado, o guitarrista fala de sua formação literária baseada em grandes autores da literatura brasileira e mundial

Omar Godoy

Dado Villa-Lobos acaba de engrossar a fileira dos músicos brasileiros que se enveredaram pelo mercado editorial. A exemplo de figuras como Lobão, Marina Lima, Kledir Ramil (da dupla com Kleiton), Erasmo Carlos e Humberto Gessinger, entre outros, o guitarrista também está com um livro na praça: Memórias de um legionário (editora Mauad X), escrito por ele com a colaboração do historiadores Felipe Demier e Romulo Mattos. “É um novo modelo de negócios, pois a vida do músico não está fácil”, brinca, tentando explicar essa tendência dos últimos anos.

O projeto foi uma ideia de Demier, fã da Legião Urbana e companheiro de pelada de Dado. Mas só se consolidou algum tempo depois, com a entrada de Mattos, que sugeriu uma produção a seis mãos — os historiadores cuidariam da pesquisa e organização do material, enquanto o músico se concentraria apenas em contar suas histórias. Empolgado com a leitura de Life (livro de memórias de Keith Richards, dos Rolling Stones) e confortável na condição de narrador, o “legionário” enfim topou a empreitada.

Foto: Pablo Koury

Dado Villa-Lobos acaba de lançar seu primeiro livro, Memórias de um legionário, escrito em parceria com dois historiadores.

“O processo foi intenso e demorado, mas divertido. Achei bacana para mim e para os fãs. Quem sabe agora não posso partir para a ficção, talvez escrever alguns contos?”, diz. Influências, segundo ele, não faltam. Filho de uma artista plástica e de um diplomata que tocava piano clássico, Dado Villa-lobos foi estimulado a ler desde pequeno. “O ambiente em casa sempre foi cheio de livros. Das enciclopédias a Monteiro Lobato, passando por Jorge Amado, Molière, Sartre, Poe, García Márquez. Também lembro dos quadrinhos da Mafalda, Asterix, Tintim, Tio Patinhas.”

Edgar Allan Poe foi o primeiro autor que realmente o impressionou, a partir de uma coletânea de contos com tradução francesa de Charles Baudelaire (Dado viveu em Paris durante parte da infância). “Eram histórias de terror muito reais e possíveis”, lembra o guitarrista. Outro nome fundamental dessa primeira fase de leituras é Jean Baptiste-Poquelin, o Moliére. “Obras como O doente imaginário, O avarento e Escola de mulheres me fizeram procurar outras peças de teatro, como O rinoceronte, do Ionesco, e As moscas, do Sartre.”

De volta ao Brasil, o músico passou a se interessar pelo que chama de “clássicos obrigatórios”. Incentivado pela escola, leu com gosto Lima Barreto, Jorge Amado, Machado de Assis e outros autores canônicos nacionais. “Lembro de ter adorado Triste fim de Policarpo Quaresma, do Lima Barreto, que minha turma toda leu e depois discutiu em sala de aula. Nessas oportunidades, alguém invariavelmente dava uma dica interessante, como o Cem anos de solidão, do García Márquez. Assim, eu fui lendo tudo o que chegava pela escola, pelos amigos, pais, irmãos”, conta.

Esses caminhos o levaram a Dostoiévski, um de seus escritores preferidos. “Quando li O idiota, percebi que a linguagem das telenovelas estava toda ali. Fiquei impressionado e parti para Noites brancas, O jogador, Os irmãos Karamazov. Nessa mesma época, tive a fase ‘romance policial’, que adoro até hoje. Sou fã de Dashiell Hammett. Raymond Chandler, Chester Hime e, claro, Agatha Christie”, revela.

Rubem Fonseca também acaba entrando na conversa, já que Dado compôs a trilha do filme Bufo & Spallanzani (2001), baseado na obra do autor mineiro nonagenário. “Já conhecia O selvagem da ópera e Agosto. Mas foi só depois do Bufo que comecei a ler os contos, todos sensacionais. Tive a sorte de estrear na música para cinema tendo uma história do Rubem como fonte de inspiração”, afirma.

Saindo do terreno dos clássicos, o guitarrista cita autores contemporâneos como Will Self, Ian McEwan, Michel Houellebecq e Amélie Nothomb. Entre os brasileiros, acompanha a produção de Luiz Alfredo Garcia Roza, Marcelo Rubens Paiva e Fausto Fawcett, seu parceiro musical e amigo particular. “O Fausto é uma fonte inesgotável da filosofia do comportamento humano radical. Sempre discutimos a obra dele. Seu livro Favelost é ficção/premonição pura”, define.

Sobre Renato Russo, Dado se limita a contar que os dois às vezes conversavam sobre literatura e trocavam indicações. “Ele me deu de presente uma edição em francês de A montanha mágica, do Thomas Mann”, diz. Como se sabe, o título do livro batizou uma faixa da Legião Urbana presente no álbum V, lançado em 1991.

Em tempo: a entrevista foi realizada dias antes de o Supremo Tribunal Federal decidir pela liberação de biografias não autorizadas previamente. Questionado sobre o assunto, o músico se mostrou totalmente favorável à liberdade para a pesquisa e publicação desse tipo de obra. “Devo muito a autores como Ruy Castro, Paulo César de Araújo e Nelson Motta, que registram parte importante da nossa história em seus livros. Para mim, não faz sentido esse cerceamento. Que liberem, por favor!”