Perfil do leitor | Aly Muritiba

Profanar não é problema 

Revelação do cinema nacional, o diretor acompanha a produção literária contemporânea e prepara adaptações para livros de Daniel Galera, Lourenço Mutarelli e Raphael Montes


Omar Godoy
Divulgação


A história do cinema no Brasil passa, obrigatoriamente, pelos livros. De Vidas secas (1963) a Cidade de Deus (2002), de Dona Flor e seus dois maridos (1976) a Carandiru (2003), boa parte dos filmes nacionais mais populares de todos os tempos é baseada em obras literárias. Essa tradição inclusive já foi assunto de uma reportagem do Cândido (edição 14, publicada em setembro de 2012) em que realizadores, críticos e pesquisadores discutiram a importância da literatura para o audiovisual brasileiro e destacaram as melhores adaptações já produzidas. 
Revelação recente do cinema nacional, o baiano Aly Muritiba, de 37 anos, está prestes a engrossar a lista dos diretores que recorreram aos livros para se inspirar. Depois de chamar a atenção com filmes como o curta-metragem A fábrica (pré-indicado ao Oscar de 2013) e o longa Para minha amada morta (premiado nos festivais de Montreal e Brasília), ele atualmente trabalha em nada menos do que três adaptações literárias: Barba ensopada de sangue (Daniel Galera), Jesus Kid (Lourenço Mutarelli) e O vilarejo (Raphael Montes) — neste último apenas como roteirista. 

“Essa tradição de adaptar livros é muita antiga e precede a invenção do roteiro como conhecemos hoje. Muitos autores de peças e romances escreveram os primeiros filmes da História. É um fenômeno que advém do fato de que o cinema 'tradicional', aquele narrativo, que conta uma história, nasceu nos rastros da literatura, arte que precede o cinema em milênios”, afirma o cidadão de Mairi, no sertão baiano, mas radicado em Curitiba desde 2005.

Com cerca de 15 mil habitantes, a cidade sequer tinha cinema quando Muritiba saiu de lá, aos 17 anos. A única forma de “viajar no tempo e no espaço”, como ele diz, era lendo os poucos livros a que tinha acesso. “Não havia algo que se assemelhasse a uma biblioteca na minha casa. Sou filho de proletários não muito letrados, então a prioridade era o trabalho”, conta. Sua avó, no entanto, tinha alguns clássicos brasileiros mal conservados e uma enciclopédia Barsa — o suficiente para fazer o garoto decolar. “Eu era encantado com as gravuras de dinossauros nos volumes da enciclopédia, por isso comecei a lê-los.” 

O diretor cita O Guarani (José de Alencar) e Macunaíma (Mário de Andrade) como obras marcantes em sua primeira fase como leitor. Mas o primeiro livro que realmente o emocionou foi Vidas secas, de Graciliano Ramos. “Me fez chorar, me fez querer ter uma cadela para chamar de Baleia, me fez sentir orgulho de ser sertanejo... E me fez ter pena do papagaio da minha avó”, brinca, fazendo referência a uma passagem, digamos, gastronômica, do romance publicado em 1938.

Na adolescência, enquanto tocava em uma banda de rock e devorava todos os lançamentos de Paulo Coelho, descobriu um livro crucial para sua trajetória: O queijo e os vermes — O cotidiano de um moleiro perseguido pela Inquisição. Escrita em 1976 pelo historiador italiano Carlo Ginzburg, a obra mostra a perseguição sofrida por um camponês considerado herege pela Igreja Católica no século XVI. É considerada um dos pilares da escola conhecida como “micro-história”, baseada na análise de elementos do passado a partir de uma escala mais reduzida (como, por exemplo, relatos de personagens anônimos). 

“Esse livro mudou a minha vida, no sentido de me empurrar depois para o estudo de humanas. Tornei-me historiador por causa dele”, revela Muritiba, formado na Universidade de São Paulo (USP) e admirador dos estudos do britânico Eric Hobsbawn (autor da quadrilogia formada por A era das revoluções, A era do capital, A era dos impérios e A era do extremos). “Para mim, esses livros são essenciais para entender a história contemporânea do Ocidente. Até hoje volto a eles”, conta o cineasta, que, além de professor, já foi atendente de farmácia, bilheteiro do metrô de São Paulo, bombeiro e agente penitenciário. 

Atualmente, Muritiba acompanha a chamada “literatura brasileira contemporânea”, especialmente a produzida por autores jovens. Seus prediletos são Joca Reiners Terron (“Ele encontra beleza e poesia no cotidiano) e os já citados Raphael Montes (“A literatura dele tem crueldade e concisão”) e Daniel Galera (“Pela qualidade dos diálogos e profundidade dos personagens). Voltamos, então, ao assunto das adaptações para o cinema. 

“É uma tarefa árida, pois é preciso entender os limites e potências de cada mídia. Ao mesmo tempo, é desafiador tentar encontrar o meu ponto de vista, minha autoria, a partir de algo já posto. Parto do princípio de que o autor do livro é o outro, o do roteiro sou eu. Portanto, profanar não deve ser um problema”, diz o cineasta, que cita Abril despeçado (de Walter Salles, inspirado no romance homônimo de Ismail Kadaré) como sua adaptação nacional preferida. 

Sobre a versão de Barba ensopada de sangue, um dos romances mais comentados dos últimos anos, Aly Muritiba só adianta que o filme já tem orçamento garantido e começa a sair do papel no primeiro semestre de 2017 (o lançamento está previsto apenas para 2018). Enquanto isso, ele segue para o Uruguai, onde fica até final deste ano envolvido com a série O hipnotizador, produção da HBO com episódios assinados por diretores latino-americanos. Coincidência ou não, o projeto também é uma adaptação — mas, desta vez, de uma história em quadrinhos.