Perfil do Leitor | Monica Iozzi

Dona de um olhar geral

O interesse pelo teatro e, mais tarde, o emprego como vendedora em uma livraria aproximaram a repórter do CQC do mundo da literatura

Omar Godoy


Intimada a listar seu Top Five literário, Monica Iozzi não pensa duas vezes: “Para mim, é Shakespeare e o resto da galera”. Formada em Artes Cênicas, a repórter do programa CQC conta que se envolveu com a obra do poeta e dramaturgo inglês ainda na adolescência, quando fazia teatro amador em Ribeirão Preto, onde nasceu. “Meu primeiro contato com a literatura realmente adulta foi nessa época. Comecei a emprestar livros de peças na biblioteca pública e, quando descobri Shakespeare, fui atrás de tudo dele que havia disponível. É incrível como ele tem a capacidade de falar de qualquer assunto com uma linguagem cheia de beleza e sutileza.”

Quanto ao “resto da galera”, Monica cita Charles Dickens (“Oliver Twist foi a primeira peça que fiz, aos 10 anos”), Vinicius de Moraes (“Gosto de ver a delicadeza num homem”), Cecília Meireles (“Ainda não alcancei tudo o que ela quer dizer, mas continuo insistindo”) e Jane Austen (“A vida dela também me encanta, além da obra”). Austen, inclusive, encabeça outra lista de prediletos da atriz, só com escritoras. Fã de nomes como Gertrude Stein, Florbela Espanca e Virginia Woolf, ela se interessa, especialmente, pelos relatos do cotidiano das mulheres de outras gerações.

Monica, no entanto, não acredita na existência de uma “literatura feminina”. “O que acontece é que, culturalmente, o protagonista das grandes obras é quase sempre um homem. Mas isso não significa que um livro com uma mulher como personagem principal, ou mesmo escrito por uma autora, seja voltada apenas para o público feminino”, afirma.

Coincidência ou não, seu primeiro texto para teatro, ainda em produção, é centrado em figuras femininas. Trata-se de uma peça sobre duas irmãs que se reencontram em sua cidade natal após a morte do pai. Em meio à arrumação da antiga casa da família, elas ficam presas no porão e acabam resgatando memórias nem sempre agradáveis. “O tema da família permite que você explore elementos como raiva, doçura, mágoa, humor, etc.”, explica a atriz, que também assina uma coluna mensal sobre política na revista Status.

Vendendo livro

Se a aproximação com o teatro foi decisiva para sua trajetória como leitora, o emprego numa livraria, anos mais tarde, contribuiu para consolidar essa “relação”. Recém-formada, sem emprego e radicada numa nova cidade (São Paulo), Monica conta que só conseguiu sair de uma depressão quando virou vendedora de uma grande rede. Além de conhecer pessoas diferentes e se sentir útil, ela ganhou o que chama de “olhar geral”. “Tive acesso não só à literatura, mas também a campos como cinema, música, arquitetura, artes plásticas, moda e até quadrinhos”, lembra a atriz, que podia emprestar livros da loja, desde que retornassem intactos.

Já integrada à equipe do CQC, e com uma rotina permanente de viagens, ela praticamente só tem tempo de ler no avião. “As revistas de bordo têm boas matérias. Mas o problema é que elas são mensais, então chega no fim do mês e eu já sei todos os textos de cor. Por isso, sempre levo um livro”, diz a repórter, que se surpreende com o apetite literário de seus chefes, os argentinos da empresa Cuatro Cabezas, que produz o programa. “A gente sempre ouve falar que a Argentina tem muitas livrarias, que todo mundo lê. Agora que convivo com alguns argentinos, vejo que eles realmente têm uma relação diferente com os livros”, conta Monica, que no momento lê Três vidas, da já citada Gertrude Stein.

E apesar de trabalhar atualmente com comédia, a atriz não costuma passar na seção de humor das livrarias. Para ela, as grandes obras não têm gênero definido — pelo contrário, passeiam por vários estilos. “Veja o caso do Nelson Rodrigues. Ele é dramático, bizarro, crítico, ácido... E acaba sendo engraçado. Acho o Nelson muito mais engraçado que o Luis Fernando Verissimo, por exemplo.”