Perfil do Leitor: João Urban

Escrevendo com imagens


Leitor tardio de Machado de Assis e Jorge Luis Borges, o fotógrafo João Urban revela em que escritores busca inspiração para sua fotografia poética

Luiz Rebinski Junior


Ao ler o conto “O fim”, escrito pelo argentino Jorge Luis Borges, João Urban enviou uma mensagem ao também fotógrafo Luiz Carlos Felizardo, com a seguinte frase: “Há uma hora da tarde em que o pampa quer dizer alguma coisa e não diz, ou talvez diga infinitamente e não entendemos, ou entendemos mas é intraduzível, como a música.” O trecho do conto de Borges virou epígrafe do livro A fotografia de Luiz Carlos Felizardo, último trabalho do fotógrafo gaúcho.

A história é representativa da importância que a literatura tem na vida de Urban. Mesmo tendo a imagem como matéria-prima para seu trabalho, Urban mantém uma relação próxima com a palavra escrita. “Estou mais para um contador de histórias do que para artista plástico. Gosto de trocar as palavras por imagens, fazer que elas conversem umas com as outras, formem 'frases', pontuem, produzam pensamentos e ideias nos leitores, muitas vezes até diversas das do fotógrafo.”

A literatura consumida na adolescência e juventude reverberou de forma decisiva no seu trabalho documental. As primeiras leituras de Lenin, Marx e Engels iriam se revelar já em seus primeiros trabalhos, como a série sobre os boias-frias paranaenses e que deu origem ao seu primeiro livro, lançado primeiramente na Alemanha, em 1984. A pegada documental do jovem fotógrafo começava a se sedimentar por meio das leituras esquerdistas.

“Nessa época eu procurava conhecer nosso povo, a gente simples da América Latina. Li muito, tudo que encontrei sobre a Guerra do Contestado, Canudos, Guerra do Paraguai – ou do Brasil, com diz o Sylvio Back –, tudo isso mesclado com pensadores políticos. Lia muita história em quadrinho também, principalmente Tex e Ken Parker”, diz Urban.

O fotógrafo, assim como muitos intelectuais de Curitiba, embrenhou-se no acervo da Biblioteca Pública do Paraná em seus anos de formação. No histórico prédio da BPP, Urban conheceu os chamados livros “para toda vida”. “Quando eu 'gazeava aula' no Colégio Estadual do Paraná, muitas vezes me refugiava na Biblioteca Pública, mentindo às bibliotecárias que o professor havia faltado. Lembro-me de ter lido Urupês e Contos pesados, de Monteiro Lobato. Lia também livros de física. Aliás, aprendi mais sobre o assunto 'matando' aula do que em sala.”

Influência poética

Leitor de longa data de grandes bardos nacionais, como João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e Carlos Drummond, Urban tem dentro de casa um estímulo a mais para gostar de poesia e literatura: O fotógrafo é casado com a poeta pernambucana Jussara Salazar.

Como em um bom romance de Jane Austen, o encontro dos dois intelectuais se deu de forma inusitada, por meio da própria poesia. Urban, em uma viagem a Fernando de Noronha, onde foi fazer uma matéria jornalística, levou na bagagem um exemplar de Natália, livro de uma poeta que escrevia “como se bordasse.” E assim nasceu a admiração pela escritora que, àquela altura, na ilha pernambucana, Urban não imaginava, seria sua futura esposa.

“Fiquei muito impressionado com a poeta que escrevia como se desenhasse. Só muito tempo depois fui saber que antes de se dedicar à poesia, ela havia sido uma importante e premiada artista plástica, com um desenho extremamente delicado e esculturas arrojadas.”

Desde então, Urban tem ouvido com devoção as dicas de leitura repassadas pela esposa. Jussara também ajudou Urban a fotografar alguns de seus escritores preferidos. “Graças a Jussara, fotografei o Ariano Suassuna, a Lygia Fagundes Telles e a Deborah Brennand”, diz o fotógrafo, que em breve deve lançar o primeiro livro feito a “quatro mãos” com a esposa, com poemas e um ensaio fotográfico sobre o mesmo tema.

“Como todos os fotógrafos, gostaria de fazer um belo retrato do Dalton Trevisan, consentido, não paparazzi, mas isso é difícil. Gostaria de fotografar também o Tezza e o Cesar Leal, entre outros. Dos mortos, o Graciliano, claro, e também o Machado, para resgatar a cor de sua pele, que sofreu um branqueamento 'cultural' com o passar dos anos”, revela o fotógrafo, que também já fez retratos importantes de Paulo Leminski e Gabriel García Márquez, este fotografado em Cuba, em 1995.

Outros projetos sonhados envolvendo os escritores e livros do coração, seguem a linha de A eterna solidão do Vampiro, livro em que o amigo Nego Miranda fotografa o caminho sentimental de Dalton Trevisan e seus personagens por Curitiba.

“Embora a Maureen Bisilliat já tenha feito os dois, eu gostaria de fazer o caminho do Severino, do poema do João Cabral, e também alguma coisa do Grande sertão: Veredas, do Guimarães. Adoraria fotografar as vilas que tenham inspirado as paisagens do Gabriel García Márquez em seus livros.”

Lendo hoje

Recentemente Urban começou a preencher lacunas da juventude, retomando leituras que ficaram para trás. Participou de um ciclo de leituras sobre Dante Alighieri e leu, “no começo por obrigação, depois com muito entusiasmo”, Dom Quixote, o livro que fundou o romance moderno. Também “tardiamente”, começou a ler Machado de Assis, que está “achando ótimo e lamentando não ter lido antes.” Isso, segundo ele, o fez recobrar um pouco o gosto pela leitura.

“Acabei de ler, atropeladamente, O fotógrafo, do Cristovão Tezza. Não vejo a hora de encontrar o Tezza em um mercado que fica aberto 24 horas – onde o vejo algumas vezes fazendo compras depois da meia noite – para perguntar a sua opinião: o que iria rolar afinal entre o fotógrafo e a bela Íris, depois que o livro acabou? Ficaria só aquele teatro com o pai dela ou rolaria mais alguma coisa?”

Descendente de poloneses, Urban também foi um leitor voraz da história de seus antepassados. O que o ajudou em seu trabalho documental com os poloneses e ucranianos do Sul do Paraná, que Urban, entre idas e vindas, fotografou por mais de duas décadas. O trabalho foi publicado no livro Tui i Tam – Memória da imigração polonesa, lançado em 2004. “Li bastante, mas aprendi mais com os personagens que fotografei, não só com os descendentes dos polacos, mas também quando fotografei os bóias-frias, a gente do litoral do Paraná, os Tropeiros.”

É claro que os teóricos da fotografia também frequentaram as prateleiras da biblioteca de Urban, mas o fotógrafo parece se sentir mais à vontade entre a ficção e a poesia. Menos Barthes e mais Borges, é isso que a fotografia de Urban escancara. “Assim como deve acontecer com a literatura, existem livros chatos e existem bons livros teóricos sobre fotografia, li alguns deles, não muitos, Barthes, Flusser, Sontag. Alguns me entusiasmaram, outros me deixaram nervoso, nenhum me desanimou, mas também creio que não tenham melhorado ou piorado minha fotografia. Acho que o fotógrafo deve ler muito: poesia, romances, contos, isso é muito importante.”