Perfil do Leitor | Guilherme Arantes

Nas zonas crepusculares

Revalorizado pela nova geração, o compositor comenta os “bastidores literários” de alguns de seus clássicos e revela sua predileção por autores que transgridem o pensamento racional


Omar Godoy
Divulgação


Depois de carregar por muito tempo a pecha de “pop romântico”, Guilherme Arantes agora vê sua trajetória ser revalorizada por uma nova geração de críticos e ouvintes. Um processo que começou na década passada, com a onda de reedições de discos importantes da música popular brasileira, e culminou no lançamento do elogiado Condição humana (2013), seu primeiro trabalho de inéditas em seis anos. Marcado pela retomada de sua sonoridade “clássica” — desenvolvida na virada da década de 1970 para 1980 —, o álbum independente também mostrou o artista afiado em um terreno nem sempre reconhecido de sua obra: o do texto. 

letras são simples, diretas e, acima de tudo, sinceras. Poucos compositores têm coragem de expor sentimentos dessa forma, sem o menor pingo de cinismo. Mas o que muita gente não sabe é que alguns dos maiores sucessos de Arantes, hoje com 63, sofreram algum tipo de influência da literatura. A começar pelo quase-hino “Amanhã”, gravada no LP Ronda noturna, de 1977. “Esse negócio de ‘Amanhã será um lindo dia / Da mais louca alegria que se possa imaginar’ é puro Maiakovski”, revela o músico. 

Sim, o russo Vladimir Maiakovski (1893 — 1940), considerado um dos maiores poetas do século XX, é uma espécie de padrinho da canção, escrita quando Guilherme Arantes ainda cursava Arquitetura na Universidade de São Paulo (USP). “Eu estava lendo, e adorando, uma coletânea crítica de traduções do Boris Schnaiderman [pioneiro em verter o russo para o português] quando tive a inspiração para a música. O termo que eu uso para falar do Maiakovski é ‘fulguração poética’. Uma forma nobre de poesia, repleta de arroubos exclamativos”, diz. 

Outro case literário de sua discografia é “Xixi nas estrelas”, parceria dele com o poeta curitibano Paulo Leminski. Produzida de encomenda para o especial de tevê Pirlimpimpim 2 (1984), da Rede Globo, a música acabou transcendendo o universo infantil. “Era para ser uma canção sobre São Jorge na Lua, mas fala de algo inimaginável até então: a poluição, real e moral, do espaço sideral. Só Leminski mesmo!”, diverte-se o cantor, que dois anos antes emplacou “Lindo balão azul” na primeira edição do programa, dedicado à obra de Monteiro Lobato. 

“A ideia de uma continuação do especial de 1982 tinha embutida uma armadilha de diluição comercial. Então chamei o Leminski para a gente fazer um exercício de criação poética, que fosse uma obra de arte e desse prazer criativo, com total liberdade para os delírios leminskianos”, lembra. Em um vídeo disponível no YouTube, o poeta aparece em uma reportagem de telejornal, assistindo ao clipe da faixa pela primeira vez e revelando que a colaboração com o cantor se desenvolveu por telefone, durante cerca de 20 dias. “Aquilo ali é a verdadeira vida. Aqui fora é o vídeo”, diz para o repórter, apontando a televisão. 

A vitalidade poética e filosófica de Jorge Mautner, de quem Guilherme Arantes foi músico de apoio no início da carreira, também marcou sua formação como letrista. Especialmente o livro Narciso em tarde cinza (1965), última parte da chamada Trilogia do Kaos — composta ainda por Deus da chuva e da morte (1962) e Kaos (1963). “Mautner sempre foi muito presente, enigmático e extremamente imaginativo”, diz o cantor, que ainda presta contas aos “quatro grandes” (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Milton Nascimento) e ao “maldito” Taiguara. “Meu maior ídolo na juventude foi o Taiguara. Um ídolo completo, em poesia, música e vida.”

A verdade é que o cantor já chegou no mundo artístico com um repertório sólido. Filho de uma bibliotecária que também atuava como tradutora, Arantes cresceu com incentivo total à leitura. “Lia muito Monteiro Lobato. Não só os infantis, mas também a literatura adulta dele. Li tudo do Machado de Assis. Julio Verne sempre foi um dos meus preferidos”, lembra. Mas os primeiros autores que realmente mexeram com o autor de “Deixa chover” foram Franz Kafka e Herman Hesse. “Aí já foram livros que eu mesmo comprei. A metamorfose e O processo, do Kafka, e Sidarta e Demian, do Hesse, foram obras que resolveram um universo particular, obscuro.” ´

Segundo o músico, seus escritores preferidos “mexem com visões transgressoras do mundo racional”. E exemplifica citando nomes como Aldoux Huxley, Jorge Luis Borges, Anthony Burgess, Louis Pauwels e Jacques Belgier. Mesmo depois de ler títulos de não-ficção, como fez recentemente com Deus é um delírio [best- -seller internacional do biólogo e ateu militante Richard Dwakins], ele retorna aos autores de sua “base”. “A retórica da razão do Dawkins é avassaladora, mas não conseguiu extirpar de mim ‘um algo mais’. É aí que entra o tal do universo mágico, onde a arte e a minha linhagem literária predominam. As zonas crepusculares é que me interessam”, afirma. 

Com 40 anos de carreira solo recém- completados, Guilherme Arantes lança até o final deste ano uma caixa de CDs com todos os seus álbuns e um documentário em vídeo sobre sua trajetória. Uma biografia em livro, no entanto, está descartada. Tampouco uma autobiografia. “O foco principal são as músicas, as letras, não a vida pessoal. Isso eu deixo para os biógrafos fazerem a festa”, afirma, referindo-se a possíveis autores “não-autorizados”.