Perfil do Leitor: Fábio Elias

O leitor-compositor


Fã de biografias e poesia, o guitarrista e compositor Fábio Elias faz de suas leituras o mote para as composições de sua banda, a Relespública

Felipe Kryminice


Aos 15 anos, Fábio Elias teve o privilégio de descobrir o que iria fazer profissionalmente na vida: ser músico. Mas, para ele, mais urgente do que a vocação, era achar um nome que traduzisse o som sujo e básico que sua incipiente banda fazia. E ele, o nome, surgiu pela via menos esperada. Ao invés de referências que lembrasse a cultura mod de bandas como The Who e Ira!, influências capitais para Fábio Elias, o nome Relespública veio de Albert Einstein, o físico alemão.

“Com 15 anos li o livro Como vejo o mundo, do Einstein, e fiquei fascinado. Ele dizia que a guerra era a maior ignomínia que conhecia. Achei aquilo forte pra caramba, vindo de um gênio como o Einstein. Então, se a guerra é a coisa mais desprezível, é reles; e se quem vai para a guerra é alguém do povo, é público. Aí juntei as duas coisas e saiu a Relespública”, diz o músico curitibano.

E realmente está lá, na página 22 do livro: “A pior das instituições gregárias se intitula exército. Eu o odeio. Se um homem puder sentir qualquer prazer em desfilar aos sons de música, eu o desprezo. Não merece um cérebro humano, já que a medula espinhal o satisfaz... A guerra é a coisa mais desprezível que existe. Prefiro deixar-me assassinar a participar dessa ignomínia.” O livro inspirou ainda Fábio a compor uma música com o mesmo título do livro, o que se tornou algo recorrente na carreira do compositor. “Sempre que leio um livro, acabo traduzindo aquilo em música”, explica Fábio, que depois de uma empreitada pelo sertanejo, em 2012 volta a gravar e excursionar com os parceiros de Relespública: o baterista Emanuel Moon e o baixista Ricardo Bastos. Com quatro discos de estúdio — E o rock n’roll Brasil? (1998), O circo está armado (2000), As histórias são iguais (2003) e Efeito moral (2008) —, a Reles, como é conhecida, se prepara para lançar um novo DVD, chamado Antes do fim do mundo, em que a banda toca ao vivo músicas novas e antigos hits.

A Relespública tem mais de 20 anos de estrada e nesse período passou por algumas mudanças em sua formação. Mas o núcleo central, formado pelos três integrantes atuais se mantém. Influenciados pelo rock sessentista britânico — de bandas como The Who, The Jam e Rolling Stones — e pela geração do Brock dos anos 1980 — Ultraje a Rigor, Titãs e Ira! —, a Relespública se tornou uma grande referência da música curitibana a partir da segunda metade dos anos 1990, quando gravou algumas das músicas que fizeram parte da trilha sentimental de muitos adolescentes e jovens, com músicas como “Nunca mais”, “Garoa e solidão”, “Marcianos”, “Sol em Estocolmo” e “Essa canção”.

Leitor-compositor

Leitor assíduo de jornais e revistas, Fábio escreveu a música “Homem Bomba”, do disco Efeito moral, a partir de uma matéria de jornal sobre catástrofes provocadas pelo homem e pela natureza. Como os cut-ups de William Burroughs e as colagens de Valêncio Xavier, o músico curitibano separou palavras-chave do texto e montou a letra. “Li o texto e fiz uma colagem, fui juntando os fragmentos e fiz a letra. Medo e delírio em Las Vegas, livro do Hunter Thompson, também me influenciou a escrever essa música, que em principio se chamaria mesmo 'Medo e delírio'”.

Fábio Elias estudou em um colégio tradicional de Curitiba, onde começou a se interessar por ficção e poesia. Mas, conta o guitarrista, o gosto pelas palavras veio ainda criança, quando se apaixonou pelos gibis. Assim como acontece com a música, o cantor se diz um “leitor sem preconceitos”. “Leio de tudo, não tenho preconceito com nada. Por um tempo, fui seletivo demais, chegava a ser um pouco estreito. Quando comecei a tocar, fiquei muito naquela de rock e acabei deixando passar muitas coisas legais. Então comecei a variar mais, compondo outras coisas: sambas, modinhas e música sertaneja. E isso abriu várias janelinhas para mim. Com a literatura é a mesma coisa”, diz o cantor, que é leitor fiel de poetas como Paulo Leminski, Dylan Thomas e Charles Bukowski. “Quando o Buk morreu, lembro que tomamos um porre para homenagear o Velho Safado. Mas gosto muito também dos poetas curitibanos, como Thadeu Wojciechowski, Edson de Vulcanis e o falecido Marcos Prado, parceiros de música. Aliás, adoro esse clima boêmio de Curitiba”, comenta o músico, que também arrisca uns haicais, que posta na internet.

Fábio também é um grande fã de biografias. Comentarista de música em uma rádio de Curitiba, o guitarrista costuma levar para o programa as histórias de grandes ídolos da música pop. Entre um cometário e outro, toca canções do artista em questão. Com o mercado editorial brasileiro farto em relatos biográficos de músicos, o compositor tem se esbaldado em livros sobre Lobão, Ozzy Osbourne e o indestrutível Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones que sobreviveu a décadas de excesso de álcool e drogas. “Vida, a biografia do Keith Richards, indico a todo mundo que tenha interesse pela história do rock. O cara conta coisas incríveis, de como cresceu em meio às bombas da Segunda Guerra Mundial e, anos depois, conquistou o mundo com a música.” Para encarar as duas horas de programa, Fábio, além de ler as biografias, pesquisa outras fontes para traçar a história do artista. Além da carreira e dos discos, fala sobre algumas curiosidades dos músicos e responde perguntas enviadas pelos ouvintes.

Com uma vida noturna agitada, Fábio Elias só lê de madrugada, quando os shows e outros compromissos arrefecem. Lê nesse horário porque é quando não tem nenhuma distração que lhe tire o foco da leitura. “Na madrugada não posso tocar porque incomoda os vizinhos. Então desligo tudo, TV, som, computador, e leio.” O compositor também não gosta de ler mais de um livro ao mesmo tempo. Gosta de curtir o livro, digeri-lo, começar e terminar a leitura sem interrupções. “É como na música: quando começo a fazer um disco, entro de cabeça naquilo. Não misturo as coisas. Não sou aquele leitor que devora romances, livros de poesia e biografias, tudo ao mesmo tempo agora.”