Pensata | Maria Esther Maciel

Em busca de outras realidades

A coluna Pensata abre espaço para que autores reflitam sobre um tema sugerido pela equipe do Cândido. Nesta edição, Maria Esther Maciel comenta a influência da narrativa realista na literatura brasileira contemporânea. Para a autora, essa tendência não dá conta de explicar o absurdo extremo de nossa realidade.

Há poucos dias, uma foto postada no Instagram, a qual trazia a imagem de um muro pichado com os dizeres “Abaixo a realidade”, incitou-me à reflexão sobre um viés incisivo e poderoso da literatura brasileira contemporânea e que agora tenta se reinventar à luz das demandas do nosso tempo: o realismo.

Não é de hoje que escritores de diferentes gerações têm assumido a tarefa de levar para suas narrativas o mundo explícito, fazendo da literatura um mero registro da vida como ela é ou como se deixa ver a olhos nus. O realismo urbano, sobretudo, incidiu com força em muitas narrativas brasileiras das últimas décadas, com uma linguagem direta e referencial, diluindo os limites entre o literário, o prosaico e o jornalístico. Um certo “namoro” com as narrativas fílmicas cultuadas pelo mercado audiovisual também foi determinante, a meu ver, para essa onda realista, como se tivesse se tornado um imperativo criar romances para serem transformados em filmes de sucesso comercial. Ademais, com a emergência, nos últimos anos, de novos sujeitos sociais, políticos, sexuais e raciais na literatura brasileira, o que propiciou o surgimento de novas vozes literárias até então postas à margem, outros matizes do realismo vieram à tona, ampliando o leque dessa vertente no cenário contemporâneo. Para não mencionar os acontecimentos políticos do Brasil dos últimos tempos, que passaram a ser matéria- -prima privilegiada de várias obras, seja por vias referenciais ou não.

De fato, é impossível ignorar o que se passa ao redor. E, mais do que nunca, a realidade tem nos capturado com seus múltiplos tentáculos e sua monstruosa carga de violência. As turbulências e catástrofes do mundo estão, a cada dia, mais escandalosas; a humanidade se desintegra por força de suas próprias ações e seu descaso pela vida dos outros; os “podres poderes” se alastram como praga; o Brasil, imerso em lama, escorre pelo esgoto, em meio a toda espécie de excrescência política, social e econômica, e o absurdo parece tomar conta da realidade como um todo. Não dá para a literatura e outras expressões culturais ficarem alheias a isso, mesmo porque o estado de coisas contemporâneo demanda uma tomada de posição frente ao aqui/agora da vida.

Mas será que o realismo tal como o conhecemos dá conta desse absurdo extremo da realidade? Será que ele já deu conta alguma vez?

                                                                                                                    Salvador Dalí / Reprodução


Penso que não, ou melhor, só até certo ponto — o ponto em que o mero registro, ainda que crítico e comprometido com uma denúncia das coisas que estão aí, se esgota na sua própria imediaticidade. Ao abrir mão das potencialidades da imaginação e dos sentidos, ao se furtar às possibilidades narrativas de reinvenção da vida, a literatura se rarefaz naquilo que possui de mais vigoroso: a capacidade de revelar e inventar outras realidades (talvez até mais reais) que se escondem nas dobras e nas frestas da realidade transparente.

Percebo que vários nomes da literatura brasileira atual estão atentos a isso, e têm buscado modos alternativos de falar do absurdo das coisas que estão aí. Escritoras e escritores, de diferentes espaços culturais e sociais, de diferentes raças, idades e orientações sexuais, têm escrito suas histórias valendo-se de estratégias diversas, em diálogo com outras culturas, gêneros textuais e saberes não padronizados. Vê-se até mesmo, em obras mais recentes, uma abertura para o fantástico (tão desprezado em nossa literatura) e para o insólito, como forma de tratar criticamente da realidade circundante.

Não citarei aqui autores e obras, pois seria fazer uma mera seleção pessoal (e excludente) de nomes entre os que se espalham pelos diversos cantos do país. Mas estou convicta de que a relação da literatura brasileira com a realidade está num processo de reinvenção. Além do quê, não são poucos os romancistas e contistas que têm aprendido com a poesia a trazer, de forma mais oblíqua e transgressora, os fatos do mundo e da vida para seus escritos. Um ato que não deixa de ser um alento.

Assim, quero apostar no que já está sendo engendrado, no horizonte literário do agora, como resistência a este momento brutal da realidade que ninguém mais suporta. E uma resistência eficaz só é possível quando literatura se torna capaz de provocar desassossego nos seus leitores pelo exercício da sensibilidade, pela recusa do óbvio e pela experimentação de novas possibilidades do dizer.

Se ninguém aguenta mais a realidade, a ponto de lançar palavras de ordem contra ela num muro, resta à literatura capturar o aqui/agora do mundo à margem dos enquadramentos, pôr em foco o que vê de olhos fechados, divisar o imprevisível no óbvio e buscar um certo exercício da delicadeza como antídoto contra a truculência vigente nos nossos dias. Sem que tal gesto signifique, obviamente, um desvio ou um alheamento político da realidade circundante, mas potencialize nosso desejo de transformá-la.


MARIA ESTHER MACIEL é escritora, pesquisadora e professora titular de Literatura Comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Publicou, entre outros livros, Literatura e animalidade (ensaio), O livro dos nomes (ficção), As ironias da ordem (ensaio), A vida ao redor (crônicas) e A memória das coisas (ensaio). É coordenadora editorial da revista Olympio — literatura e arte.