No porão da alma curitibana


No livro A eterna solidão do vampiro, o fotógrafo
Nego Miranda retrata a essência do principal
personagem das obras de Dalton Trevisan: a
cidade de Curitiba


Felipe Kryminice

Produzir uma imagem do recluso Dalton Trevisan é uma façanha que instiga muitos fotógrafos do país. Ainda hoje, há quem desembarque na capital paranaense em busca de um registro do Vampiro. Curitibano e leitor da obra de Dalton Trevisan, o fotógrafo Nego Miranda decidiu fazer o caminho inverso de seus colegas no livro A eterna solidão do vampiro (2010). Deixou de lado a figura de Trevisan e retratou, com precisão, no melhor estilo daltoniano, a Curitiba mítica criada pelo contista. Agora, parte dessas imagens poderá se vista em uma exposição que estreia no dia 14 de junho na Biblioteca Pública do Paraná.

Depois de desenvolver projetos sobre a arquitetura de Morretes, a erva-mate e outros temas paranaenses, Miranda sentiu que estava na hora de fazer um trabalho sobre a cidade de Curitiba. “Mas não queria fazer algo postal. Queria retratar a alma do curitibano, o porão da alma do curitibano. E quem conhece melhor a cidade do que o Dalton?”, indaga o fotógrafo.

Surgiu, então, a ideia de compor o que Miranda considera o “mapeamento do Vampiro de Curitiba”. O passo seguinte foi tentar entrar em contato com o contista. Depois de alguma espera e suspense, por meio de amigos em comum, Trevisan enfim autorizou a publicação do trabalho.

Ao selecionar os trechos das obras do escritor que acompanhariam as imagens, o fotógrafo descobriu que precisaria mergulhar ainda mais fundo na cidade do Vampiro. “Minha ideia não foi lançar luz sobre a misteriosa literatura de Dalton, mas sim realçar esse ar sombrio. Quis reforçar essa coisa densa. Por isso, fiz algumas fotos às 4 horas da manhã, por exemplo. Não é aquela Curitiba do Bondinho, é uma Curitiba pesada. A cidade que o Dalton gosta de escrever e que a gente encontra em sua obra”, explica.

Ao registrar locações famosas e personagens célebres das histórias de Dalton, as lentes de Miranda capturaram traços característicos da cidade com um olhar muito semelhante ao do escritor. O resultado não poderia ser outro: em A eterna solidão do vampiro, Nego Miranda descobre uma nova Curitiba a cada clique.
Ansioso para saber a opinião do Vampiro sobre o trabalho, Miranda procurou uma amiga em comum. A resposta veio na forma de um relato breve e conciso. Segundo ela, Trevisan gostou da seleção de frases e do casamento entre textos e imagens. “Escutei sussurros do Vampiro”, disse a amiga, encerrando a história, para orgulho do fotógrafo.

Vampiro de cinema

A linguagem tentadora do Vampiro de Curitiba não seduz apenas fotógrafos como Nego Miranda. Dramaturgos e cineastas também já produziram adaptações da obra de Dalton, comprovando que o seu legado vai muito além das fronteiras da literatura. Outros artistas, embora não tenham realizado trabalhos de reprodução, não escondem sua atração pela marcante produção do autor.

Um dos profissionais que flertam com essa tentação é o cineasta Fernando Severo. Fã de Dalton, ele acredita que há características da linguagem do escritor que simplesmente não podem ser transpostas para o cinema. “Parte da linguagem do Dalton Trevisan é intransponível para as telas, principalmente os contos menos descritivos, em que o diálogo altamente estilizado, genial na forma escrita, pode soar artificial na boca dos atores. Ele consegue evocar a vida interior dos personagens em pouquíssimas palavras, às vezes através de simples reticências. É preciso uma conjunção miraculosa entre um grande diretor e grandes atores para se chegar perto disso no cinema”, afirma.

Segundo o cineasta, embora Dalton Trevisan tenha criado um universo à parte, uma espécie de Curitiba mítica de ressonância universal, há produções consagradas do cinema que apresentam alguma semelhança com sua obra. “As evocações autobiográficas de Fellini talvez tenham alguns traços similares, na riqueza da tipologia humana. Sempre imaginei as perambulações noturnas do Nelsinho e de outros personagens similares numa estética de film noir”.

Mesmo com toda a dificuldade de transpor a obra de Dalton Trevisan para outras linguagens, os livros do autor continuam sendo fonte inesgotável de adaptações para o teatro e até para o cinema. A peça O vampiro e a polaquinha teve extensa temporada em Curitiba. Somente no Teatro Novelas Curitibanas, ficou em cartaz por quatro anos, sob a direção de Ademar Guerra. Foi recorde de público, e após mais de mil apresentações, a peça seguiu para outros palcos da cidade. O produtor teatral João Luiz Fiani adaptou inúmeras peças de Trevisan, a mais recente Macho não ganha flor, integrante da Mostra Fringe do Festival de Teatro de Curitiba em 2011. O ator Marino Jr. apresentou um monólogo baseado em contos selecionados pelo próprio Dalton.

Já o filme Guerra conjugal (1975) é uma adaptação de contos escolhidos dos livros Guerra conjugal, Novelas nada exemplares, Desastres do Amor, O Vampiro de Curitiba, Cemitério de elefantes e O rei da terra. Escrito e dirigido por Joaquim Pedro de Andrade e com Lima Duarte no elenco, a produção venceu diversos prêmios em festivais nacionais e internacionais. Dalton assistiu ao filme e manifestou sua opinião no artigo “O filme visto por Dalton”, publicado no jornal O Globo em 24 de março de 1975: “O belíssimo filme de Joaquim Pedro me deslumbrou os olhos, alegrou o coração e edificou a alma. Melhor que o livro é essa fabulosa obra-prima dirigida com garra, humor e consciência crítica. Uma experiência inesquecível o filme Guerra conjugal. Foi para mim e será para todos os que assistirem”.