Minicontos

Só poeira


Luiz Bras

Os irmãos Karamazov não eram três, eram quatro: o engenheiro, o neurologista, o matemático e o cirurgião plástico. Todos geniais. § O primeiro androide foi projetado e gestado em sua empresa de alta tecnologia. § O primeiro androide era em tudo idêntico a uma mulher de trinta anos, inteligente, atraente e saudável. § Ela não sabia que era um androide. § A perversidade satânica dos irmãos Karamazov era ilimitada. Na coletiva de imprensa, os sacanas disseram: que graça teria a criação de um androide perfeito, se a criatura soubesse que é um androide? § Para assegurar que ninguém cederia à tentação de revelar ao androide sua verdadeira natureza, os irmãos Karamazov implantaram no cérebro positrônico um dispositivo demoníaco: uma bomba. § Na coletiva de imprensa, os canalhas explicaram: o detonador foi programado para reconhecer o padrão neural da autoconsciência. No momento em que o androide descobrir sua verdadeira natureza, a bomba explodirá, pulverizando o planeta. § Nos anos seguintes a empresa produziu e comercializou vinte milhões de androides. Todos idênticos a um ser humano de verdade, de ambos os sexos. Todos com o dispositivo de autodestruição. § O grande incêndio de 2034, que devastou São Paulo, reduziu a cinzas o parque industrial dos irmãos Karamazov e todos os seus registros físicos. A epidemia de 2035, que devastou os bancos de dados do mundo inteiro, apagou todos os registros eletrônicos. § Já não era mais possível distinguir um ser humano de um androide. § Anos depois do final da Terceira Grande Guerra as coisas continuavam bastante confusas para os poucos sobreviventes. § O primeiro profeta dizia que todos os seres humanos tinham morrido na guerra e apenas uns poucos androides haviam sobrevivido. § O segundo profeta dizia que todos os androides tinham morrido na guerra e apenas uns poucos humanos haviam sobrevivido. § O debate certamente atravessaria as décadas, talvez os séculos, se um hipocondríaco desmiolado não tivesse descoberto, com um simples exame de sangue, sua real natureza. § Você nem imagina, meu filho, a nossa decepção quando chegamos à Terra, depois de trinta anos de viagem, e já não havia mais Terra, só poeira.








Bolas de feno ao sabor do vento


Preste atenção a tudo o que não faz sentido ou não tem importância. A tudo o que não encaixa direito. São sinais, eles podem estar tentando se comunicar com você. Preste atenção aos detalhes irrelevantes. Recolha todas as peças, não deixe escapar nada. O despertador que atrasou dois minutos. O tijolo faltando no alto do muro. A nuvem com formato engraçado. A meia que sumiu. Sinais, compreende? Monte o quebra-cabeça. Eles podem estar tentando falar especificamente com você. Preste muita atenção, tome nota de tudo o que parecer tolo ou trivial. Meio século atrás eles descobriram nosso planeta, a civilização humana. Reuniram toda a energia disponível e dispararam em nossa direção uma série de mensagens amigáveis e entusiasmadas. Preocupados com nosso futuro incerto, mandaram pra nós, de presente, soluções científicas e espirituais. Coitados. O esforço foi tão grande que seu planeta foi pulverizado, seu sol também. As mensagens chegaram, mas em frangalhos. As ofertas de amizade e colaboração dispersaram-se na atmosfera. Viraram chuva semiótica. Uma placa meio torta indicando a rua errada? O silêncio súbito numa avenida de trânsito intenso? O desenho esquisito na mancha de óleo? Os clichês nos filmes americanos? Preste muita atenção, tome nota. São sinais, principalmente os clichês nos filmes americanos. São eles tentando se comunicar com a gente. O herói desativando a bomba no último segundo. O vilão frio e calculista com um tapa-olho e um gato. A família sempre atrasada no café da manhã. As bolas de feno ao sabor do vento nas cidadezinhas do Velho Oeste. O raio e o trovão acontecendo ao mesmo tempo. O cartão de crédito ou o arame abrindo qualquer porta. Sinais, compreende? Acenos de uma civilização distante, agora desaparecida.




Luiz Bras é romancista, contista e ensaísta. Autor de Sozinho no deserto extremo, Paraíso líquido entre outros, é colunista do jornal Rascunho, onde todo mês assina a coluna “Ruído Branco”. Os minicontos “Só poeira” e “Bolas de feno ao sabor o vento” são inéditos e integram uma nova coletânea, Pequena coleção de grandes horrores, que sairá pela Terracota Editora, em março de 2013. Vive em São Paulo (SP).