Mercado Editorial

Pequeno, mas persistente

Os audiolivros voltam a ser uma aposta das editoras nacionais. Disputando mercado com a música, pretendem ganhar espaço nos fones de ouvido dos brasileiros

Osny Tavares

O fone de ouvido é uma das marcas distintivas da nossa época. Desde a invenção do walkman pela Sony, no final dos anos 1970, mas especialmente com a chegada dos tocadores de MP3, na virada para este novo século, é cada vez mais comum ver pessoas com plugs na orelha. Na rua ou no ônibus, no trabalho ou na academia, a música ganhou as ruas e se tornou portátil, quase etérea, a partir dos formatos digitais.

O mercado editorial pretende também ganhar o seu espaço nos ouvidos do público. Para isso, os audiolivros estão renascendo como uma alternativa ao papel e à tela. O produto está longe de ser uma novidade. Faz décadas que obras literárias narradas encontram um público pequeno, porém constante. Durante muito tempo, cursos por correspondência optaram pelo formato. As mensagens bíblicas ganhavam tons solenes na leitura, sendo, no Brasil, a versão de Cid Moreira a mais conhecida.

Embora difícil de precisar, é certo que o tamanho atual do setor de audiolivros no Brasil, em relação ao formato convencional, não ultrapasse 5% das vendas — considerando apenas os títulos que têm as duas versões. O alcance potencial é uma incógnita, mas há perspectivas animadoras. O comportamento dos consumidores em mercados mais desenvolvidos é uma boa pista. Nos Estados Unidos, quase 90 milhões de unidades foram vendidas em 2016, mais que o dobro de 2011.

“O crescimento do mercado internacional de audiolivros vem sendo discutido em várias mídias e feiras de livros nos últimos anos”, aponta a coordenadora de livros digitais da editora Rocco, Mariana Mello e Souza. “Além disso, o surgimento de novos parceiros e tecnologias que resolvem questões que dificultaram a difusão do áudio no passado também contribuem para o movimento de investir novamente no formato.”

   Luís Izalberti


Os executivos do mercado entendem os audiolivros como um mercado de idas e vindas, tendo em cada nova “onda” uma particularidade. Na mais recente investida do setor, algumas dificuldades técnicas do passado foram extintas. Por exemplo: as obras não precisam mais ser editadas em volumosos boxes de mídias físicas (LP, K7 ou mesmo CD). Mas precisam driblar a pirataria e encontrar viabilidade financeira diante de uma geração que desaprendeu a pagar por produtos culturais.

O formato híbrido possibilita ao leitor um consumo extensivo das obras. Devido à multiplicidade de dispositivos e formatos, todos facilmente sincronizáveis entre si, ele não precisa escolher entre um ou outro, mas alternar conforme o interesse e a disponibilidade. “A produção de livros em formato áudio é uma tendência mundial. As grandes editoras nos Estados Unidos e na Europa já publicam o conteúdo em formatos diversos e o leitor é quem decide como quer consumir: se livro impresso, ou digital eBook, ou digital audiobook. O consumidor pode, inclusive, começar em um formato e terminar a leitura em outro, numa viagem, por exemplo”, exemplifica Silvia Leitão, editora de negócios digitais do Grupo Editorial Record.

É o que tem feito a estudante Patricia Fontoura, de 18 anos. Desde que entrou na Universidade Federal do Paraná, no início deste ano, tem se desdobrado para acompanhar as leituras do curso de Filosofia. No entanto, também queria ler As crônicas de gelo e fogo, de George R. R. Martin, série de livros de fantasia que inspiram o sucesso Game of thrones, do canal HBO. 

Encontrou o único tempo disponível nas viagens de ônibus entre a casa e a faculdade. Porém os percalços do transporte público não eram favoráveis à leitura da obra, que se divide em livros de mais de 500 páginas. A solução estava no próprio bolso. “Sempre que tenho algum tempo livre começo a escutar o livro. Para mim é uma forma de aproveitar melhor o tempo. E como é um romance de fantasia, também me distrai e relaxa. O narrador é muito bom, usa entonações diferentes para cada personagem e lê a história de modo envolvente”, conta Patricia. “Comecei a ouvir como um quebra-galho para a falta de tempo, mas acho que vou continuar com o hábito e encarar outras obras.”

    Arquivo Pessoal

Patricia Fontoura aderiu aos audiolivros para otimizar seu tempo.

Catálogo e produção
Com uma produção incipiente, o catálogo em áudio das editoras brasileiras não ultrapassa algumas dezenas de títulos. A prioridade é para os best-sellers, aproveitando a divulgação massiva realizada durante o lançamento da obra. “Uma experiência bem inovadora que fizemos no mês de setembro é o lançamento simultâneo do livro A Polícia Federal em quatro formatos, todos juntos: o livro físico, o filme que estreou nos cinemas em 7 de setembro, o livro digital eBook e o livro digital audiobook. Está sendo um case para nós. Acho que a tendência é ter essa estratégia mais vezes”, avalia Silvia Leitão, da Record.

Também são convertidos livros tidos como “long-sellers”, obras que mantém o interesse constante dos leitores ao longo do tempo. O diário de Anne Frank e O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry — inclusive pela característica da narrativa —, são produtos preferenciais. A escolha é criteriosa, pois a produção do audiolivro é 50% mais cara que a edição de papel.

O trabalho é terceirizado para estúdios de gravação e dublagem. A produção menos complexa é a que utiliza apenas um narrador. O tempo de gravação é três vezes maior que o de uma leitura normal, e alguns livros chegam a ter 10 horas de duração. Em trabalhos mais sofisticados, o livro ganha a voz de atores famosos e cada personagem é interpretado por um profissional diferente. O jornalista Laurentino Gomes lançou seu segundo livro, 1822, em audiolivro pela Plugme, um selo do Grupo Ediouro. A narração ficou a cargo de Pedro Bial, enquanto os diálogos e a leitura das cartas aparecem na voz do próprio autor.

A comercialização do produto passou por diversas fases, conforme o desenvolvimento tecnológico. Dos CDs dispostos nas prateleiras das livrarias, migrou para portais como Ubook e Universidade Falada. O primeiro é uma espécie de Netflix dos audiolivros, que cobra uma assinatura mensal para acesso livre ao catálogo, repassando um valor às editoras conforme a audiência. O segundo trabalha com um modelo mais convencional, de pagamento por obra baixada.

As editoras veem na parceria uma estratégia para minorar a pirataria, num fenômeno semelhante ao que ocorreu com o próprio setor de filmes e séries após o surgimento dos serviços de streaming. “A pirataria sempre poderá existir, em qualquer formato que seja. Nós só podemos tentar tornar a forma legal de obter o conteúdo tão simples que não vale a pena perder tempo com a pirataria, além de trabalhar na conscientização do público. As lojas que comercializam o audiolivro hoje trabalham com o modelo streaming e, mesmo quando o arquivo está disponível para ser ouvido off-line, este permanece dentro do aplicativo da loja onde foi adquirido. Dessa forma a leitura também pode ser sincronizada entre vários aparelhos, permitindo que o ouvinte passe de um aparelho para outro sem perder o ponto onde estava no texto e permitindo evoluções tecnológicas dentro desse ambiente”, destaca Mariana Mello e Souza, da Rocco.


Há 40 anos, BPP mantém setor de adaptação em braille e áudio

O ano era 1975. O debate sobre inclusão de pessoas com deficiência praticamente inexistia no Brasil e os cegos estavam restritos a uma vida limitada e dependente da ajuda alheia. A Biblioteca Pública do Paraná mantinha alguns livros em braille em caixas de papelão. Um acervo muito restrito, mas ainda assim era o que se podia encontrar à época.

Para possibilitar a leitura e o conhecimento às pessoas com deficiência visual, criou-se então a Seção Braille na instituição. Após 42 anos, o setor mantém um dos maiores acervos com acessibilidade do Brasil. São mais de 3 mil títulos em braille e perto de 30 mil livros em áudio — somando gravações em CD e formato digital.

Um dos responsáveis por este trabalho é, ele próprio, um beneficiado pelo serviço. Anastácio Braga (foto), de 64 anos, trabalha há 19 no setor. Formado em Tecnologia da Informação pelo primeiro curso para deficientes visuais do Paraná, ofertado pela Celepar (empresa de tecnologia da informação do Estado), e com duas graduações completadas (Ciências Contábeis e Pedagogia), divide o dia de trabalho entre a BPP e a rede municipal de educação, onde é professor. 

Divulgação BPP


“A gente se prepara para atender as pessoas que têm menos conhecimento no assunto. E também podemos aprender com as diversas experiências que conhecemos aqui. Muitos deficientes visuais da cidade e de seu entorno não sabem que o setor existe, então temos que divulgar”, ressalta.

Qualquer livro do acervo da BPP está apto para conversão. Basta que o usuário solicite ao setor. A média de produção é de 30 livros por mês, e o sistema atende a todo o Paraná. O usuário que mora fora de Curitiba pode solicitar o livro, que será despachado até o correspondente da BPP mais próximo. O tempo de empréstimo é o dobro do convencional (30 dias, com possibilidade de renovação para mais 30).


Podcasts voltam à moda

Populares nos primórdios de banda estreita da internet, os podcasts voltaram a ser populares nos Estados Unidos. Uma espécie de atualização dos tradicionais programas de rádio, o formato se destaca por priorizar a fala em um ambiente predominantemente escrito e visual.

Há uma infinidade de gêneros, formatos e tamanhos. Desde programetes de cinco minutos até longas discussões de três horas. De monólogos até reportagens jornalísticas com alto grau de produção. O formato explodiu nos EUA em 2014, e desde então os podcasts mais populares registram downloads na casa das dezenas de milhões. 

Um deles, “The Memory Palace”, chegou ao Brasil pelo caminho inverso. O programa, realizado pelo radialista e escritor Nate Dimeo, com duração de cinco minutos, se dedica a narrar episódios altamente literários e curtos sobre a história americana, sempre narrados a partir de um ponto de vista inusitado. Uma coletânea com os melhores episódios foi publicada em livro (de papel) pela editora Todavia, com tradução de Caetano W. Galindo.