Memória | reportagem

Mais de um século de revistas de cultura

O Paraná é um Estado marcado pela indústria gráfica e teve uma vasta produção cultural na virada do século XIX para o XX, legando diversos periódicos para a história

Thiago Lavado

A Biblioteca Pública do Paraná, por meio do Núcleo de Edições da Secretária de Cultura, reeditou em 2014 o fac-similar de um importante jornal de cultura do Paraná, o Nicolau, que circulou entre 1987 e 1996, dirigido durante a maior parte de sua existência por Wilson Bueno. O trabalho para escanear as 1828 páginas das 60 edições levou mais de dois anos e resultou, além da versão impressa, em uma opção digital disponível para acesso gratuito no site da BPP.

Além do Nicolau, outro marco no que diz respeito a suplementos culturais paranaenses é a revista Joaquim, editada entre 1946 e 1948 por Dalton Trevisan. No entanto, a história da imprensa cultural no Estado é anterior a esses dois títulos. Desde o pioneirismo da Galeria Ilustrada, em 1888, o Estadomantém produção constante em termos de revistas de cultura. Destaque para nomes como A Arte (1895), revista da Escola de Desenho e Pintura, e O Sapo (1898), revista que comemorava o quarto centenário do descobrimento do Brasil, um semanário literário e humorístico.
A chefe da Divisão de Documentação Paranaense da BPP, Josefina Palazzo Ayres, cita alguns dos principais periódicos do período pré-Joaquim, como a Ilustração Paranaense, revista simbolista que circulou entre 1927 e 1928 e que tratava de assuntos gerais, direcionados à cultura e a exaltação do Paranismo, movimento que enaltecia as questões ligadas a terra e valorizava a cultura paranaense — a ilustração da capa, marcante, foi feita por João Turin, considerado o precursor da escultura no Estado.

Outro nome destacado pela chefe da Divisão de Documentação Paranaense da BPP é da revista Itiberê, de Paranaguá, propriedade do Clube Literário e que tratava de notícias e literatura. “Ilustração Paranaense, Olho da Rua, Itiberê, Cenáculo são as revistas mais conhecidas. Mas várias outras foram produzidas neste período [início do século XX], principalmente de cunho literário”, afirma Josefina.

Pé-na-cova

De acordo com José Carlos Fernandes, jornalista da Gazeta do Povo e professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), algumas dessas revistas [do final do século XIX e início do século XX] tinham uma tradição simbolista muito grande — movimento que, no Estado, fez escola. “A literatura no Paraná é muito marcada pelo simbolismo. Foi um movimento que teve indústria gráfica forte e relevância financeira.”

Nomes como Palium e Cenáculo, editadas pelos irmãos Júlio e Emiliano Perneta, este conhecido como o “príncipe da poesia paranaense”, marcaram o início deste estilo. Mais tarde, a onda simbolista seria rompida pela revista Joaquim, editada pelo escritor Dalton Trevisan. “Joaquim promoveu uma ruptura com esse grupo. Foi o ‘pé-na-cova’ da literatura paranaense da época”, opina Fernandes.
O Instituto Neo-Pitagórico, referência em termos de simbolismo, detinha uma vasta biblioteca de periódicos antigos. Um incêndio na sede do instituto prejudicou parte do acervo, que, apesar disso, ainda hoje conta com muitos exemplares. Algumas revistas de cultura do início do século XX também foram editadas no Instituto, como Myrto e Acacia.

Hoje, alguns exemplares de todas as revistas mencionadas neste texto ainda podem ser encontrados, para consulta local, na BPP e também no site da Fundação Biblioteca Nacional, que está digitalizando jornais e revistas de todo o Brasil. Segundo a Divisão de Documentação Paranaense, muitas dessas revistas estão no acervo, em seus respectivos originais, outras podem ser consultadas via microfilmagem.