Memória literária

Evocação de Bandeira

Nascido há 130 anos, Manuel Bandeira se tornou um dos grandes nomes da poesia brasileira recriando detalhes do dia a dia em poemas até hoje presentes no imaginário cultural do país, além de ter atuado como cronista, professor e crítico de arte


Marcio Renato dos Santos


Manuel Bandeira é considerado pela crítica um dos mais importantes poetas da literatura brasileira.


Manuel Bandeira (1886-1968) só não é o maior poeta brasileiro, levando em consideração o cânone literário, por não ter sido o mais perfeccionista em relação à forma. A afirmação é de André Caldas Cervinskis, autor, entre outros, do livro Manuel Bandeira, poeta até o fim (2004). Ele observa que Bandeira não se preocupou, por exemplo, como João Cabral de Melo Neto, em refletir sobre os princípios e características da poesia. “No entanto, é um dos poetas mais lidos e aclamados pela maioria dos leitores, principalmente das antigas gerações. É um poeta de iniciação à poesia”, comenta. 

Já a professora aposentada da Faculdade Porto-Alegrense (FAPA) Mara Ferreira Jardim analisa que Bandeira foi, e ainda é, um dos principais poetas brasileiros, senão o maior de todos. “Certamente é uma opinião muito pessoal, que vem da minha paixão pela obra dele”, diz a autora da tese de doutorado “Manuel Bandeira: Tão Brasil!”, defendida na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2007, na qual a estudiosa investiga a presença do humor e da melancolia na obra poética do autor.

No entendimento de Mara, é relativamente fácil explicar o motivo de Bandeira ser um dos grandes nomes da poesia brasileira. Primeiramente, pelo fato de que ele, “mais do que qualquer outro poeta”, soube manejar com perícia a técnica do verso, amparado por uma formação clássica e, ao mesmo tempo, por sua incansável busca do novo: “soube também, como ninguém, explorar a riqueza de nossa língua, que ele canta em versos de uma beleza ímpar.” 

Mas, enfatiza a pesquisadora, é sobretudo pela busca da identidade nacional que Bandeira se destaca dos demais autores. “É ele, sem dúvida, quem melhor expressa a ‘alma brasileira’ através da constante mescla de humor e melancolia que caracterizam a sua obra lírica”, afirma. 

Mara lembra que, ao contrário de Oswald de Andrade e de Mário de Andrade, Bandeira não pretendeu fazer a revisão de nossa história por meio da crítica do descobrimento e do processo de colonização. Bandeira apresenta o país de uma maneira sutil: o autor parte da observação de pequenos detalhes do dia-a-dia, como a presença de um prosaico sagui no apartamento da vizinha ou dos balõezinhos de cor, na feira suburbana, parte da visão do povo, da gente comum, do camelô, dos meninos carroceiros, do carregador suicida: “É assim que ele vê o Brasil, e vai aos poucos revelando-o naquilo que o país tem de alegria e de tristeza. Bandeira nos diz o que é ser brasileiro numa terra de contrastes inigualáveis, revela o que nos une no meio de tantas diversidades, o que faz com que nos reconheçamos como irmãos nos mínimos e mais variados gestos.” 


Modernista e plural 

Ao lecionar e pesquisar na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Lucila Nogueira trabalha para evidenciar a atuação de Bandeira no modernismo brasileiro. “Homem de muitas leituras de poesia pelo mundo, ele é o iniciador verdadeiro do modernismo com as características de verso livre, sintaxe ilógica, oralidade e boa dose de humor, além do uso de palavras faladas no Brasil”, diz. O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Everton Barbosa Correia lembra que a relação de Bandeira com os modernistas é bastante controversa — e está explicitada na sua correspondência com Mário de Andrade, de quem foi amigo e com quem tinha várias discordâncias. “Bandeira nunca disse ao certo porque não compareceu ao Teatro Municipal de São Paulo, em 1922, durante a Semana de Arte Moderna”, observa. Apesar de não participar, ele autorizou Ronald de Carvalho a declamar durante o evento “Os sapos”, poema de sua autoria, presente no livro Carnaval (1919).

O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Everton Barbosa Correia lembra que a relação de Bandeira com os modernistas é bastante controversa — e está explicitada na sua correspondência com Mário de Andrade, de quem foi amigo e com quem tinha várias discordâncias. “Bandeira nunca disse ao certo porque não compareceu ao Teatro Municipal de São Paulo, em 1922, durante a Semana de Arte Moderna”, observa. Apesar de não participar, ele autorizou Ronald de Carvalho a declamar durante o evento “Os sapos”, poema de sua autoria, presente no livro Carnaval (1919).

Correia chama a atenção para o fato de que Bandeira foi um autor plural, em quantidade e em diversidade de gêneros, de assuntos e de formas. Durante o seu percurso literário, muito — se não tudo — mudou, inclusive a relação do poeta com a morte. “Quando jovem, a iminência da morte era muito mais efetiva, ao passo que, com o tempo, ele foi estabelecendo uma relação menos sombria e mais sarcástica com a sua própria finitude”, diz o professor da Uerj — leia mais sobre a trajetória do poeta na página 6. 

A crítica literária, comenta Mara Ferreira Jardim, costuma destacar três grandes motivos que inspiram Bandeira, e que perpassam toda a sua produção lírica: a morte, o amor e a infância. “A poesia dele, bastante subjetiva, volta- se para o individual, deixando pouco espaço para os temas coletivos”, enfatiza. De acordo com a pesquisadora, o subjetivismo do poeta é mais intenso em suas primeiras obras, A cinza das horas (1917) e Carnaval (1919), período em que, atormentado pela doença, pelas limitações impostas pela tuberculose à sua vida e tendo a morte como companheira constante, Bandeira mergulha no sofrimento, escrevendo versos melancólicos, nos quais também se evidenciam sentimentos como revolta, desencanto e resignação. “Essas primeiras manifestações poéticas, produzidas, em sua maioria, na segunda década do século XX, são dominadas por temas e linguagem simbolistas”, explica Mara. 

Então, chega a década de 1920, mas a morte não chega para o poeta. Após enfrentar o sofrimento da perda da mãe, da irmã (sua fiel enfermeira) e do pai, e continuando ele próprio vivo, Bandeira se vê obrigado a encarar uma realidade com que tanto sonhara, mas na qual não ousara acreditar: a possibilidade de um futuro, que o obriga a ver a vida readquirida sob novas perspectivas. “Seu olhar se desprende do círculo intimista e autocentrado em que a doença o lançara e passa a observar o mundo à sua volta”, comenta Mara. E essa nova perspectiva de vida é essencial na concretização do “salto” para o modernismo, já iniciado em Ritmo dissoluto (1924) e que atinge o seu auge em Libertinagem (1930). 

Um dos pontos altos 

Libertinagem é a obra que, definitivamente, consagra Bandeira. Afinal, o livro traz alguns do poemas mais famosos do autor, entre os quais “Vou-me embora pra Pasárgada”, “Evocação do Recife”, “Irene no céu”, “Pneumotórax”, “O cacto” e “Poética”. “É certo que em livros anteriores e nos escritos posteriormente há momentos de grande lirismo e inspiração. No entanto, em Libertinagem o poeta consegue atingir um grau de regularidade e excelência não encontrado nas demais obras”, diz Mara Ferreira Jardim. 

Entre os pontos altos da poesia de Bandeira, Mara destaca “Evocação do Recife”, um dos mais longos poemas do autor, que começa da seguinte maneira: “Recife/ Não a Veneza americana/ Não a Mauritssatd dos armadores das Índias Ocidentais/ Não o Recife dos Mascates/ Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois —/ Mas o Recife sem história nem literatura/ Recife sem mais nada/ Recife da minha infância.” 

Museu de Literatura Brasileira Fundação Casa de Rui Barbosa

Bandeira ocupou a cadeira 24 da Academia Brasileira de Letras.

A estudiosa gaúcha acrescenta que em “Evocação do Recife” o poeta alcança um lirismo agudo, adotando um tom nostálgico e saudosista, quase elegíaco: seus versos lamentam a perda do Recife de seu tempo de criança, das ruas, das casas e das pessoas. Ao ler o poema, Mara diz não ver apenas o Recife de Bandeira, mas o seu Rio Grande do Sul natal. 

“Reconheço os sons que povoaram a minha infância, os pregões, as cantigas de roda, a voz dos adultos, o som gostoso da ‘língua errada’ do povo. Nele, revejo a casa do meu avô. Porque o Recife do poeta é a cidade de cada um de nós, perdida num passado longínquo ou recente, mas possível de ser revivido apenas através da memória”, comenta a professora, que ainda menciona os versos finais do poema: “Recife.../ Rua da União.../ A casa de meu avô.../ Nunca pensei que ela acabasse!/ Tudo lá parecia impregnado de eternidade/ Recife.../ Meu avô morto./ Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô.” 

O professor da Universidade de Pernambuco (UPE) Alexandre Furtado comenta que, em “Evocação do Recife”, Bandeira “eterniza” a cidade de um outro tempo, em que, por exemplo, as pessoas ficavam nas calçadas depois do jantar, onde havia mexericos e conversas, meninos e namorados frequentando o espaço público das ruas. “Esse Recife descrito por Bandeira é bem diferente [do momento atual]. Talvez já tenha desaparecido. Portanto, ler o poeta no Recife, hoje, é acessar o seu universo, confrontar temporalidades, imaginar do que teria saudade o poeta se vivo, e entender pela leitura de autores recentes visões sobre a vida aqui”, teoriza.

Único e eterno 

Everton Barbosa Correia afirma que é impossível pensar na existência da literatura do Brasil sem a figura de Bandeira. O motivo é o seguinte: talvez nenhum outro autor brasileiro tenha conseguido se colocar de modo tão impositivamente subjetivo na sua escrita quanto ele. “Quando o fizeram, fizeram circunstancialmente. Bandeira fez isso durante toda uma vida, o tempo todo, porque este era o meio de sua expressão, uma condição de sobrevivência enquanto ser social e como sujeito literário que se fabricava. Daí haver uma suposta espontaneidade nos seus versos, que nos leva a confundir sua persona artística com a pessoa que foi de fato”, diz. 

O professor da Uerj acredita que essa fabricação de um sujeito urdido de sua própria pessoa — o caso Bandeira — é o ponto mais alto que a poesia brasileira alcançou, “enquanto cenáculo em que se deslinda a subjetividade, que é a um só tempo individual e coletiva, pública e privada, por onde a poesia necessariamente tem que passar”. 

Para o especialista, esse precioso legado poético não se apresenta, por exemplo, como objeto de consumo ao leitor contemporâneo brasileiro — e essa “incapacidade” de ser permeável por vários meios instantaneamente talvez seja um bom índice de sua força, que se nega a ser regateada como uma coisa qualquer. “Não adianta reproduzi-la em várias mídias ou em sucessivas redes sociais. Num momento conservador e obscuro tal como o que vivemos, a poesia de Bandeira pode servir de lenitivo à cegueira geral, porquanto de luz traz consigo”, argumenta. 

Correia acredita que mesmo se jogassem uma bomba atômica no Brasil, ou o continente sul-americano fosse inundado por um dilúvio, o legado poético de Bandeira sobreviveria como uma representação bastante razoável do nosso país e do nosso tempo: “Até porque aquela poesia ultrapassou guerras e ditaduras, falando de becos, carnavais e esperanças perdidas por uma ‘vida que poderia ter sido e que não foi’, como diz de seus versos mais conhecidos”. 

Autor de uma dissertação que trata do legado de Manuel Bandeira, estudo defendido na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Thiago Pininga tem a impressão de que a cultura brasileira necessita estar à altura de um poeta como Manoel Bandeira para que, talvez, possa ser como ele: cosmopolita e atualizada. “Falar de Bandeira é falar de um poeta que encarnou a ideia de uma poesia atualizada e cosmopolita. Isso é um aprendizado para a nossa cultura, muitas vezes provinciana, incipiente ou mesmo retrógrada.

A vida que poderia ter sido e foi


Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu no dia 19 de abril de 1886, no Recife (PE). A partir de 1890, a família se muda para outras cidades, entre as quais Rio de Janeiro — onde ele conheceu Machado de Assis —, Santos e São Paulo. Em 1903, Bandeira ingressa na Escola Politécnica, na capital paulistana, uma vez que tinha como meta se tornar arquiteto. No ano seguinte, fica sabendo que está com tuberculose, abandona os estudos e passa temporadas em cidades onde o clima seria mais favorável ao seu estado de saúde, como Campanha (MG), Teresópolis (RJ), Maranguape (CE), Uruquê (CE) e Quixeramobim (CE). 

Em 1913 viaja para a Europa para realizar tratamento no sanatório suíço de Clavadel, onde conhece Paul Eugène Grindel, que iria se notabilizar como poeta com o nome de Paul Éluard. Passa a viver no Rio de Janeiro a partir de 1914. Perde a mãe em 1916, a irmã, em 1918, e o pai, em 1920. Em 1936, o ministro da Educação, Gustavo Capanema, nomeia Bandeira inspetor de ensino secundário. O poeta é eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1940. É nomeado professor de literatura hispano-americana na Faculdade Nacional de Filosofia. 

A doutora em literatura brasileira pela UFRGS Mara Ferreira Jardim afirma que é importante lembrar não apenas do poeta, mas de outro Bandeira, o escritor de crônicas, de textos de crítica literária, de extensa correspondência, como a trocada com Mário de Andrade, e, sobretudo, o autor de Itinerário da Pasárgada — o seu “testamento literário” e obra necessária para quem deseja conhecer o seu fazer poético. 

Quanto às crônicas, Mara destaca o livro Crônicas da província do Brasil, que reúne textos escritos para jornais de Recife e do Rio, publicado pela primeira vez em 1937. “Falando sobre essas crônicas na introdução do livro, Bandeira diz que foram escritas às pressas e ‘eram crônicas de um provinciano para a província. Aliás este mesmo Rio de Janeiro de nós todos não guarda, até hoje, uma alma de província? O Brasil todo é ainda uma província’.” 

Foi tradutor, nunca se casou, viveu em diversos endereços, teve um relacionamento duradouro com Mme. Blank e a sua última companheira foi Maria de Lourdes Heitor de Sousa. “Bandeira cumpriu algumas das expectativas, frustrou outras e ultrapassou muitas”, observa o professor da Uerj Everton Barbosa Correia. No dia 13 de outubro de 1968, Bandeira morre no hospital Samaritano, em Botafogo, no Rio de Janeiro.