Memória

A capitania de Vandré

Entre agosto de 1991 e janeiro de 1992, Geraldo Vandré, que em setembro completa 80 anos, escreveu crônicas para o jornal Correio Popular, de Campinas. O conteúdo do material revela um artista mais preocupado em fazer odes às Forças Armadas do que textos de protesto


Ariádiny Rinaldi

Quando retornou do exílio na Europa, no segundo semestre de 1973, Geraldo Vandré decidiu que não cantaria novamente no Brasil. Isolou-se em seu apartamento no Centro de São Paulo, evitou aparições públicas e raramente concedeu entrevistas. Foi visto pela última vez, em março do ano passado, no Teatro Bradesco, na capital paulista: até topou subir ao palco, a convite da cantora norte- -americana Joan Baez, mas permaneceu em silêncio absoluto enquanto ela mostrava sua versão de “Pra Não Dizer que Não Falei de Flores (Caminhando)”, o maior hino de resistência ao regime militar brasileiro (1964-1985), composto por Vandré. Mesmo mudo, nas últimas quatro décadas, Geraldo Vandré não permaneceu calado. Nas páginas de jornal, encontrou uma forma diferente de se expressar e assumiu, durante seis meses, o posto de colunista do Correio Popular, de Campinas (SP). 

Publicados entre agosto de 1991 e janeiro de 1992, sem qualquer repercussão, os textos caíram no esquecimento. Para ter acesso ao material, que não está disponível na internet, é preciso garimpar as antigas edições no Centro de Documentação do jornal. “A coluna dele passou despercebida. Os leitores não associavam o nome à pessoa, ou, simplesmente, não acreditavam que era mesmo o Geraldo Vandré”, explica Jary Mércio, editor, à época, do caderno de cultura do Correio Popular. 

Na década de 1990, o Correio investiu fortemente em jornalismo opinativo e teve outras grandes personalidades, como Rubem Alves e Hilda Hilst, incluídos no rol de colunistas. Antes de aceitar a proposta, Vandré fez algumas exigências. Uma das imposições era com relação à integridade de seu texto. Ninguém poderia mudar uma vírgula sequer de lugar. “Publicávamos exatamente o que ele nos encaminhava, não importa se tivesse erros de grafias ou gramaticais”, relembra Mércio.

O músico nunca visitava a redação. Estava em constantes viagens, e fazia questão de mencionar na coluna: numa semana escrevia de Salvador, na Bahia, onde prestigiava cerimônias oficiais do alto comando da Marinha; na outra, direto do gabinete da amiga Luiza Erundina, prefeita de São Paulo, na época, pelo PT. Por isso, Vandré enviava os textos por fax, de maneira esparsa e fragmentada. Intitulada “Capitania de Wanmar”, a coluna ocupava meia página e saía todos os sábados, acompanhada de ilustrações caprichadas. 

No comando de sua capitania, Vandré evita lembrar o passado. Aborda, rapidamente, a mudança de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, quando tinha 16 anos, e os tempos na academia da antiga Universidade do Distrito Federal, onde cursou Direito. Com nostalgia, recorda alguns parceiros de composições, como Carlos Lyra, Baden Powell e Alaíde Costa. Mas não comenta sobre a sua infância na Paraíba e em Pernambuco, o alvoroço da era dos festivais, a passagem pelo Uruguai, Chile, França, Alemanha e outros países durante o período de exílio, ou o seu último show em Ciudad del Este, em 1985, no Paraguai.

Fabiana contraditória 
Vandré inaugura sua colaboração no Correio Popular com a divulgação, na íntegra, dos versos de “Fabiana”, compostos em 1985, em homenagem à Força Aérea Brasileira, e que até então eram desconhecidos do público. Três anos depois da publicação, “Fabiana” finalmente ganhou melodia e foi executada no Concerto Sideral, evento promovido pelo Ministério da Aeronáutica, em comemoração da Semana da Asa, no Memorial da América Latina. 

A música deixou os fãs perplexos, porque dilacerava qualquer áurea revolucionária e esquerdista persistente sob a figura de Geraldo Vandré. O homem que fez o Maracanãzinho inteiro cantar em uníssono os versos “vem/vamos embora/ que esperar não é saber/quem sabe faz a hora/não espera acontecer”, durante o Festival Internacional da Canção de 1968, e fez Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque levarem a maior vaia de suas vidas; aquele que se viu obrigado, com a instalação do Ato Institucional nº5 a suspender a turnê que passaria por Goiânia, Anápolis e Brasília para se esconder na casa da viúva de Guimarães Rosa; aquele que, fugindo da repressão da ditadura, exilou-se no Chile e de lá foi expulso com a tomada de poder do ditador Augusto Pinochet; aquele mesmo homem era, agora, amigão dos militares.



Poemas inéditos 
Além de “Fabiana”, Geraldo Vandré também publicou outros 15 poemas inéditos no Correio Popular. As metáforas da flor e do mar, além da temática da cultura popular e da (sobre) vivência compõem boa parte de seus versos.

“Vida comprida
É caminho de aprender andar
Vida vivida
É viver além
Não é só lembrar”
(Cantares I, 21 de setembro de 1991)
“Da riqueza, sem parar, da natureza,
Altaneira, firmeza e realeza
Alterosa no chã destas planuras,
Projetada, para sempre, nas alturas
Da Razão nordestina e brasileira
Que mais forte não há, nem
Verdadeira”
(Estrela do Oriente ou galope à beira-
-mar, 9 de novembro de 1991)

A maioria dos versos publicados na Capitania não possibilita a interpretação de um engajamento político por parte do autor. O único que deixa resquícios de uma voz de protesto é “São Paulo (Mais que meu Amor)”, publicado no dia do aniversário da cidade. Vandré revela que o escreveu há mais de uma década — portanto, em pleno regime militar. No texto, o substantivo “viola” assume, também, a função do verbo “violar”.

A rosa do povo mora
dentro do meu coração;
escuta, bem, que a viola
viola tua intenção;
e a rosa do povo mora
dentro do teu coração
Se a rosa do povo mora
dentro do teu coração
Se a viola que viola,
viola, da história, o vão,
ilumina-se a memória,
fortalece-se a razão
fortalece a tua história
dentro do meu coração

De “Marinha, Marina e Marinheira”, escrita em 1975, em tributo à Marinha do Brasil, Vandré publicou apenas a introdução, os 16 primeiros versos. Os demais 33 versos que compõem a canção estão, atualmente, entre os documentos da Divisão de Censura e Diversões Públicas (DCPC), e falam sobre de um soldado, fugitivo, que traiu e matou a si mesmo.

Guarda aquela palma alvissareira
Que eu me guardo a vida inteira;
Cuida que na sombra da palmeira,
Não se descuide a madeira;
Aquela janela de calçada
Aquele porte, aquela esteira,
Aquele pendão do mês de junho,
A flor, o fruto e uma fogueira

É provável que da mesma gaveta de onde Vandré tirou esses 15 poemas, existam inúmeros outros. Do seu primeiro LP (Geraldo Vandré, 1964) até o quinto e último lançado (Das Terras de Benvirá, 1970) foram gravadas aproximadamente 55 canções. Se continuasse com o mesmo fôlego, Vandré teria acumulado, hoje, mais de quinhentas novas composições.

Rei da ironia 
Gravado na França, no final de 1970, e lançado por aqui apenas três anos mais tarde, Das Terras de Benvirá é tido como um dos álbuns mais tristes da música brasileira. Quem ouve os 41 minutos e 57 segundos não acredita que possa pulsar qualquer veia cômica daquele homem de canto choroso. Surpreendentemente bem-humorado em sua coluna, Vandré critica uma reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em 14 de setembro de 1991.

Segundo o compositor, a reportagem “induz os leitores a uma visão falsa e enganosa da realidade” ao juntá- lo ao grupo do Centro Popular de Cultura (CPC), do qual nega ter participado. Após justificar a recusa, dizendo que não concordava com o caráter propagandístico e panfletário que transcendia as atividades artísticas promovidas pela organização, ele emenda: “Esclarecida, no principal a diferença entre Geraldo Vandré e uma vaca sagrada de qualquer seita partidária da contemporaneidade, vamos adiante”.

É de Vandré, também, frases sarcásticas como “se eu fosse o Roberto Carlos começaria o ano novo cantando: ‘Eu sou o mesmo gato’. Como não sou, começo publicando a íntegra do texto literário de Fabiana, a canção que, este ano, cantaremos todos juntos”. Em outro momento, ele aproveita para sinalizar um erro frequente — que até escapou em alguns de seus álbuns. “Pra não dizer que não falei de flores (não é das é de)”, corrige.



Canção jurídica 
Embora tenha preenchido de poesias a Capitania, Vandré, em seu discurso, mostra-se mais interessado nas questões relacionadas ao Direito do que às Artes. “Minha prioridade, nestes últimos anos, tem sido uma canção jurídica”, ironiza.

Antenado ao noticiário diário, Vandré posiciona-se contra a privatização da Embraer, que, na época, enfrentava uma crise financeira, e reprova os programas de construção de casas populares, tema que começava a ganhar força na pauta das políticas municipais, por temer um processo de concentração demográfica — o que, na opinião dele, “é um verdadeiro genocídio”: “Não seria mais humano, assim, desenvolvimento propriamente dito que se realizassem programas de construção de residências rurais que devolvessem o Brasil para os brasileiros. Não seria hora, já mais que chegada, de dar um basta neste fluxo progressista que transformou nossas cidades em verdadeiros campos de concentração?”.

Ao abordar a greve dos funcionários da Petrobrás, na coluna publicada em 14 de agosto de 1991, Vandré problematiza e aponta as falhas na legislação em assegurar o direito de greve aos servidores públicos. A greve dos petroleiros, que lutavam por reajuste salarial de 370%, já durava quatro dias. A empresa estimava que, por causa da recessão, a produção de combustíveis nas dez refinarias do país havia reduzido em 50%. Ernestro Weber, então à frente da estatal, chegou a anunciar a demissão de 38 grevistas.

Ex-fiscal da antiga Superintentênia Nacional de Abastecimento (Sunab), Vandré toma para si as dores dos funcionários. Para ele, a estatal estava agindo de acordo com as diretrizes de uma empresa privada. “A Petrobrás não é uma empresa particular dentro da qual a moral que move o esforço de produção seja o lucro. Para ser mais rigoroso, lucro não tem moral, mesmo.” Ainda no texto, Vandré revela sua infelicidade com relação não só ao governo de então, mas, também, com o passado político do Brasil, rotulando-se como “o mais subversivos dos seres”. “Diante das presunções de governo que se fundamentam em crimes como o Ato Institucional nº5 e nos procedimentos de seus aplicadores, sou subversivo, mesmo. E tem mais: onde estou, estes criminosos não se apresentam, pessoalmente como investidos em funções de governo brasileiro.” 

Vandré também se manifesta sobre a violação dos direitos o autor. Para ele, o principal inimigo da vida artística é o mercado que, utilizando-se de “meios ilícitos”, lucra com produtos culturais rotulados como “proibidos”. Depois, como num “ciclo vicioso”, anuncia a liberação dos produtos e lucra novamente com as vendas. Na coluna publicada no dia 7 de dezembro de 1991, ele lamenta o fato de sua obra ter sido “explorada comercialmente”. Simone, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Luiz Gonzaga, Tonico & Tinoco e até mesmo a banda Charlie Brown Jr. já interpretaram as canções de Vandré. “Disparada”, “Fica mal com Deus” e “Caminhando” foram as mais regravadas. Nem todos os registros tiveram autorização do compositor.



Em e$pécie 
Vandré não escrevia apenas por prazer. A colaboração era remunerada. Por razões administrativas, o Correio Popular efetuava o pagamento em cheque, mas o compositor exigia receber em espécie, recusando, também, o pagamento por meio de depósito em conta bancária. “Certo dia, recebi um telefonema do setor financeiro reclamando de que os cheques se acumulavam no departamento. Vandré havia mandado um recado dizendo que não entraria ‘no sistema’”, relembra o jornalista Wilson Marini. 

Mas não foi devido a confrontos com o setor financeiro que a colaboração de Vandré chegou ao fim. Segundo Marini, o cantor já vinha dando sinais de um certo enfado ou dificuldade para manter o compromisso. O derradeiro texto de Vandré foi enviado próximo ao horário do fechamento da edição. O aparelho de fax cuspiu uma folha em branco. Achando tudo muito estranho, Jary Mércio telefonou para ele. “O texto está, aí, sim”, assegurou o compositor. “Olhe direito, não tem um ponto no meio da folha?”, perguntou. Mércio aproximou a página dos olhos e, forçando bem a vista, encontrou o tal ponto. “Esse é o meu texto”, explicou Vandré. Os jornalistas compraram a brincadeira do compositor e o ponto foi publicado em meio ao vazio no espaço reservado a Capitania de Wanmar, no dia seguinte. “Ele expressou toda a sua genialidade. Era um poema concreto. Concreto como seu próprio ser”, defende Mércio. 

Menos inclinado a poética estética do ponto de Vandré, Marini entende a atitude do músico como uma provocação aos leitores: “Acho que ele gostaria de saber como as pessoas reagiriam àquilo. Outros colegas deduziram que ele não conseguira escrever o texto à tempo e encontrou um jeito de resolver seu incômodo diante da tarefa assumida. Depois disso, ele abandonou a coluna. Nunca mais vimos Vandré”. 

Ariádiny Rinaldi é jornalista. Colabora com os jornais O Diário do Norte do Paraná, Estado de Minas e Correio Braziliense. Vive em Maringá (PR).