Making Of

Erotismo Fundamental


Proibido na Inglaterra por mais de 30 anos, O amante de lady Chatterley é um manifesto do escritor D.H. Lawrence contra a automatização do homem e a favor do sexo (com amor) como elemento decisivo para uma vida mais autêntica

Omar Godoy


Alguém já disse que o best-seller 50 Tons de Cinza (2011) é o equivalente contemporâneo de O amante de lady Chatterley (1928). Nada mais equivocado. Ambos são carregados de erotismo e privilegiam personagens femininas — mas as semelhanças não vão muito além disso. Mais do que um livro que tem o sexo como assunto central, o último romance do escritor inglês D.H. Lawrence (1885-1930) é um verdadeiro grito contra a guerra e a automatização do ser humano, além de representar um importante passo na luta pela liberdade de expressão.

Publicado originalmente na Itália, o livro permaneceu proibido na Inglaterra por 32 anos. O motivo? Em suas páginas, sobram descrições minuciosas das relações sexuais entre a esposa de um aristocrata e o guarda-caças de sua propriedade (temperadas com um arsenal de palavras então consideradas chulas pelo puritanismo vigente). A liberação só aconteceu em 1960, após um julgamento histórico e altamente emblemático em que a editora Penguin foi absolvida da acusação de obscenidade.

O amante de lady Chatterley, no entanto, não foi a primeira incursão de David Herbert Richards Lawrence pela temática da sexualidade. Revelado no meio literário com seu terceiro romance — o quase autobiográfico Filhos e amantes (1913), em que narra o cotidiano de uma comunidade de mineiros (profissão de seu pai) —, ele chocou a sociedade britânica pela primeira vez ao lançar seu trabalho seguinte, O arco-íris (1915).

O livro, que acompanha três gerações de uma família de fazendeiros do interior da Inglaterra, foi considerado “nauseabundo” por um tribunal e retirado do mercado. Não há sequer um palavrão em toda a obra, mas o mergulho do autor nos desejos sexuais femininos incomodou os censores atentos. Situação que se repetiu com Mulheres apaixonadas (1920), sobre duas irmãs, digamos, moderninhas demais para a época.

Neste último caso, a retaliação veio de imediato. Os originais foram recusados pelos editores londrinos e publicados apenas cinco anos depois nos Estados Unidos. Já “carimbado” com a pecha de um escritor subversivo e provocador, Lawrence deixou a Inglaterra e viajou mundo afora com sua mulher, a aristocrata alemã Frieda von Richthofen. Passaram por praticamente todos os continentes e chegaram a morar na Austrália, Sri Lanka e até no México.

Outros três romances foram produzidos durante esse percurso. Mas nenhum deles fez sombra a O amante de lady Chatterley, concluído quando o casal já havia voltado à Europa e se fixado na cidade italiana de Florença. Escrito entre as duas Guerras Mundiais, a obra é o manifesto definitivo do autor contra a violência que o homem é capaz de praticar contra seu semelhante e a favor do sexo (com amor) como elemento fundamental para uma vida mais espontânea e autêntica.

Aqui, o foco é Constance Chatterley, uma filha da aristocracia casada com o também nobre Clifford, um veterano da Primeira Guerra Mundial. Ferido durante o combate, ele fica paralisado da cintura para baixo e retorna para casa numa cadeira de rodas. Mais do que isso: abalado pela experiência, o ex-militar se torna distante e indiferente às carências (sexuais e afetivas) da mulher.

Isolada na propriedade da família, Constance acaba se envolvendo com Oliver Mellors, funcionário dos Chatterley que também lutou na guerra e vive sozinho numa cabana. Dono de uma masculinidade quase rude, porém sensível no trato com a amante, Oliver é o oposto do frágil e arrogante Clifford. A partir desse triângulo, Lawrence constrói seu romance derradeiro, pontuado por cenas de alto teor erótico e críticas às convenções sociais.

Bancado pelo próprio autor, que também desenhou a fênix que aparece na capa da primeira edição, o livro teve sua carreira comercial prejudicada logo na largada. E não só por causa da proibição imposta pelos setores conservadores da sociedade. Edições piratas rapidamente começaram a pipocar em vários países (inclusive nos EUA), fazendo com que ele recebesse muito pouco, ou quase nada, por sua obra. Lawrence, que sofria de tuberculose há muito tempo, morreu em Vence, na França, aos 44 anos.

Em 2011, a Penguin-Companhia das Letras colocou no mercado uma nova edição de O amante de lady Chatterley, a mais completa já publicada no Brasil. O livro conta com tradução de Sergio Flaksman, introdução de Doris Lessing (vencedora do Nobel de Literatura), notas explicativas e um apêndice sobre a região inglesa onde a história é ambientada. Há, ainda, um artigo em que o próprio autor trata da polêmica em torno da obra e explica os motivos que o levaram a abordar temas tão controversos.

“Quero que homens e mulheres sejam capazes de pensar o sexo de maneira total, integrada, honesta e limpa. Mesmo que não consigamos agir sexualmente de maneira totalmente satisfatória, devemos pelo menos pensar sexualmente de maneira integrada e limpa. (…) Anos pensando honestamente sobre o sexo e anos aplicados à atuação sexual nos trazem finalmente aonde queremos chegar, à nossa verdadeira e realizada castidade, à nossa completude, ao ponto em que nossa ação sexual e nosso pensamento sexual entram em harmonia e um deixa interferir no outro”, diz Lawrence, no texto intitulado “A propósito de Lady Chatterley”.

Qualidades literárias à parte, é pouco provável que E.L. James, autora de 50 Tons de Cinza, seja tão lúcida com relação ao seu trabalho.