Logradouros

Pelas calçadas da literatura


As ruas de Curitiba perpetuam nomes de alguns autores paranaenses, entre eles os simbolistas do início do século XX e vários poetas

Guilherme Magalhães

Para os mais saudosistas e românticos, a fila de carros que se forma nos horários de pico na Rua Emiliano Perneta, no centro de Curitiba, pode remeter, em certa medida, ao séquito de seguidores daquele que foi coroado o “príncipe dos poetas paranaenses” perante uma multidão no Passeio Público, em 1911, em uma solenidade kitsch que marcou a trajetória cultural da cidade. Figura marcante na vida literária curitibana no início do século XX, Perneta, assim como outros escritores paranaenses, hoje faz parte da paisagem urbana de Curitiba. E entre seus pares, o poeta é um privilegiado. A rua que leva seu nome é uma das principais vias da capital e guarda uma peculiaridade: o escritório da revista Joaquim, editada por Dalton Trevisan, nos 1940, tinha sede ali, no número 476, vizinha da fábrica de vidros do pai daquele que se tornaria, anos mais tarde, o Vampiro de Curitiba. Apenas uma coincidência, não fosse Dalton Trevisan um dos detratores da poesia simbolista de Perneta.

Emiliano Perneta nasceu Emiliano Antunes, e ganhou a alcunha que hoje estampa seu sobrenome em decorrência do jeito de andar de seu pai. O poeta, morto em 1921, editou importantes revistas do cenário cultural paranaense do começo do século passado. Os periódicos Revista Azul, Victrix e, principalmente, O Cenáculo, difundiram os ideais simbolistas no Estado.

Como Perneta, outros escritores paranaenses emprestam hoje seu nome a ruas de Curitiba. Tomando-se como guia o livro 1001 ruas de Curitiba, lançado em 2011 pela arquiteta Camila Muzzillo, é possível encontrar 27 logradouros que recebem o nome de algum escritor do Paraná. A maioria em ruas de bairros distantes do centro. E dos escritores que nomeiam algum pedaço de chão na capital, há outra curiosidade: vários são oriundos das cidades históricas do litoral do Estado, como José Gelbcke, José Francisco da Rocha Pombo e Adolfo Werneck, todos de Morretes, Leôncio Correia, de Paranaguá, e José Cadilhe, de Antonina.

Rocha Pombo, um dos maiores historiadores do Paraná, hoje dá nome de uma rua calma no Juvevê, bairro de classe média, próximo ao Museu Oscar Niemeyer. Ardoroso abolicionista e republicano, Pombo foi jornalista e fundador do jornal O povo, em 1879, em Morretes. Um de seus principais livros é No hospício, romance com toques de literatura fantástica que teve várias edições. Mas é pelo seu trabalho como historiador que Rocha Pombo ainda é lembrado, sendo sua trajetória intelectual frequentemente objeto de análise em universidades.
Outra figura do século XIX que povoa o centro da cidade é Cândido Lopes, que hoje dá nome à rua em que está localizada a Biblioteca Pública do Paraná. Lopes fundou o jornal Dezenove de Dezembro, em 1854, e foi figura importante no estímulo à leitura em nosso Estado.

Em segundo plano

Para a pesquisadora e professora aposentada da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Cassiana Lacerda, escritores e intelectuais costumam ficar em segundo plano na hora de receber homenagens. Em geral, quando lembrados, vão parar na periferia, em vias sem comércio e de pouca importância. “Não há ruas importantes, vias estruturais da cidade, com nome de escritor. Privilegia-se o político, o parente do político ou pessoa que exerceu cargo público. A cultura fica em segundo plano”, diz.

O movimento literário simbolista, para muitos o ponto de nascimento da literatura curitibana, é o mais lembrado. Além de Emiliano Perneta, os poetas Dario Vellozo (rua do bairro Vila Izabel), Nestor Victor (Água Verde), Silveira Neto (Água Verde) e Emílio de Menezes (Bom Retiro) também nomeiam ruas da capital.

Emílio de Menezes, porém, já foi nome da praça localizada no bairro São Francisco, que abriga o Belvedere, que na época de Perneta e seus amigos simbolistas era o ponto mais alto da cidade. E aqui a opinião da professora Cassiana Lacerda parece ser corroborada, com a política se sobrepondo à cultura, já que atualmente a praça se chama João Cândido, político paranaense que foi deputado no início do século XX. Uma das principais pesquisadoras do simbolismo brasileiro, Cassiana lembra com desgosto o pouco caso que se fez quando Emílio de Menezes morreu, em 1918. “Quando Emílio morreu, eram vários os preconceitos por ele ser boêmio. O Paraná não tomou nenhuma atitude para homenageá-lo quando ele morreu. São Paulo foi a primeira cidade a ter uma rua chamada Emílio de Menezes. Se Oswald de Andrade fez um movimento pró-Emílio de Menezes, é porque valia a pena”, declara. Segundo a professora, apenas em 1927 o Paraná se engajou em um movimento para trazer o corpo do poeta curitibano do Rio de Janeiro, onde faleceu, e enterrá-lo no Cemitério Municipal de Curitiba.

Ainda que certo descaso com os grandes escritores locais persista, os poetas estão mais presentes na paisagem urbana da cidade que os prosadores. Júlia da Costa, poeta nascida em Paranaguá, também incluída entre o rol de escritores catarinenses pelo fato de ter morado na ilha de São Francisco boa parte de sua vida, assim como Perneta, foi homenageada com uma via importante da cidade. A poeta, que faleceu em 1911 depois de um período de depressão e confusão mental, hoje empresta seu nome à extensa rua que começa nas barbas do bairro São Francisco, no centro histórico de Curitiba, e chega até o Campina do Siqueira, percorrendo antes todo o Bigorrilho, ambos vizinhos do Parque Barigui.

Júlia foi uma mulher à frente de seu tempo. Em uma época em que as mulheres só podiam ser leitoras ou personagens na literatura, a poetisa parnanguara lançou mão da caneta para expressar no papel os sentimentos de uma vida reprimida, de um casamento por conveniência e infeliz, com o chefe do Partido Conservador local, e as desilusões amorosas que experimentou com outro jovem poeta.

Os esquecidos

Figuras de proa da literatura paranaense dos últimos 50 anos também ainda não tiveram a honra de virar logradouro, o que pode denotar o distanciamento do tempo como um critério para as homenagens. Jamil Snege, Paulo Leminski (que virou nome de pedreira e de escola, mas não rua) e Manoel Carlos Karam (que dá nome a uma casa de leitura) ainda não foram lembrados pelos políticos curitibanos, responsáveis por propor nomes a logradouros.

De acordo com Cassiana, não existe uma preocupação literária com espaço urbano. Ou seja, só dar nome de um escritor a uma rua, sem que haja algum tipo de contextualização, pouco adianta. “Isso causa uma perda na relação afetiva do cidadão com com a cidade. Na correria do dia a dia, seria ótimo colocar um verso aqui, ou um hacia ali”, sugere a professora.

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As revistas Victrix e O Cenáculo fazem parte do acervo da Divisão de Documentação Paranaense da BPP e estão disponíveis para consulta local.