Livro e Leitura

É preciso “ler” as pessoas

O poeta Sérgio Vaz fala sobre o sucesso do Sarau da Cooperifa, evento literário que ele organiza há 12 anos e hoje funciona num bar da Zona Sul de São Paulo


Omar Godoy


“Em 12 anos, o encontro nunca falhou. Nem em dia de jogo da Libertadores”, garante o poeta e agitador Sérgio Vaz, criador do Sarau da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), um dos projetos de incentivo à leitura mais conhecidos do país. Prestes a completar 13 anos, no próximo mês de outubro, o evento atrai, semanalmente, quase uma centena de interessados por literatura, que se reúnem para declamar, ouvir e discutir poesia em um bar na região do Jardim Guarujá, na Zona Sul da capital paulista.

Todas as quartas-feiras (exceto no período de Natal e Ano Novo), a partir das 20h30, qualquer pessoa pode se inscrever e apresentar suas produções ou textos de outros escritores — de acordo com Vaz, 80% do material declamado é autoral. “Em média, são 50 poetas por noite. Mas já tivemos picos de 80 inscritos”, conta o poeta, cujo currículo inclui oito livros lançados e a organização de outras iniciativas da cooperativa independente (entre elas o Cinema na Laje, realizado quinzenalmente, às segundas-feiras).

Zé Batidão, dono do bar e um dos principais apoiadores da Cooperifa, também abriu espaço em seu comércio para uma biblioteca comunitária. Para emprestar um livro, basta chegar e pegar. Não é necessário nem se registrar. O único compromisso, segundo Vaz, é ler. “Às vezes, eu até torço para que não devolvam os livros, porque pode ser um sinal de que outras pessoas estão lendo. Sou que nem um traficante: a primeira dose eu entrego de graça”, brinca.

Com a ajuda de instituições, a cooperativa também promove eventos voltados para a distribuição gratuita de livros novos e em bom estado (“Não aceitamos lixo”, avisa o poeta). Em agosto do ano passado, 800 volumes foram oferecidos à comunidade durante a “Chuva de Livros”. A iniciativa teveuma repercussão tão positiva que, meses depois, um novo encontro, o “Natal com Livros”, presenteou mais 10 mil leitores. “Se você der livros, as pessoas não vão poder dar a desculpa de que não leem porque nunca tiveram oportunidade ou condições financeiras”, explica Sérgio Vaz.

Avesso a editais (“Não sei escrever isso, não conseguiria descrever nossas atividades num formulário de 100 páginas”), o agitador cultural dá algumas dicas para quem pretende criar ou já mantém um projeto de formação de leitores. A primeira, e mais importante, é ouvir o público. “Muitos se preocupam com números e estatísticas e simplesmente se esquecem de perguntar quem são as pessoas que procuram o evento, de onde vieram, do que gostam. Se eu vejo um moleque 'vida loka' interessado por leitura, não vou dar um Machado para ele. Vou dar algo na linha do Às cegas [do ex-presidiário Luiz Alberto Mendes], por exemplo”, afirma.

Dessacralizar a literatura também é fundamental. “Costumo dizer que a Clarice Lispector tem de tirar o sapato para entrar no sarau. Que o Neruda tem de comer com a mão para participar do evento. É preciso que todos desçam do pedestal”, diz. Por fim, Vaz ensina que “Não basta só fincar a bandeira. Tem de fincar e deixar tremulando”.

Mas como é possível mensurar o êxito ou a eficiência de uma iniciativa como o Sarau da Cooperifa? Para o poeta, a resposta está na autoestima da comunidade. “Todo dia chega alguém que participa do projeto me contando que voltou a estudar, entrou numa faculdade, concluiu um TCC, escreveu um livro, etc. Isso é muita coisa para um lugar que já foi considerado o mais violento do mundo. Esse é o segredo do nosso sucesso: lemos livros e pessoas”, afirma.

Foto: Sylvia Masini