Livro e Leitura

O FUTURO DAS BIBLIOTECAS


José Castilho Marques Neto

Os cupins atacaram novamente a estante de minha casa que armazena algo que considero essencial para a existência: meus cantores e cantoras, orquestras, instrumentistas, músicas por todos os lados e gêneros, que são uma espécie de alimento que amo e preservo desde que me entendo por gente. Lá estão várias mídias que acompanharam minha vida já cinquentenária: DVDs, CDs, LDs, fitas cassetes, LPs e até alguns discos 33 r.p.m. herdados de meus pais e que esperam pacientemente minha sonhada compra de um gramofone! Foi justamente ao repor todo esse material precioso na estante, principalmente quando recolocava os LPs (ou disco de vinil), que comecei a fazer conexões com o que pretendia escrever neste artigo para o jornal Cândido.

Tenho LPs da década de 1960 e, quando eu os recolocava na estante após conter o ataque de cupins, me vinham as lembranças de como cheguei a eles. Morei até 1971 em uma pequena cidade no interior de São Paulo que, como milhares de outras do Brasil, tinha pouca informação do que se passava na cena artística e cultural, a não ser aquela veiculada pelas ondas do rádio e pela imprensa, já então censurada pela ditadura militar. Um dos vinis que mais gosto é de Ella Fitzgerald, que, quando o comprei, me despertou a paixão pelo jazz em 1969. O primeiro grande LP de Elis Regina também foi limpo e devolvido para a estante, assim como um vinil que reúne poesia e prosa de Fernando Pessoa, outro que me trouxe luz e paixão naquela adolescência sem muitos horizontes visíveis.

Talvez pelo compromisso de fazer o artigo é que me dei conta de que todas essas joias musicais e literárias foram apresentadas a mim numa incrível e pequena biblioteca que reunia jovens como eu e outros, mais velhos, já universitários em São Paulo ou outros centros maiores, mas que se sentiam com o dever de frequentar e contribuir com o acervo de uma biblioteca na cidade onde nasceram.

Pertenci, sim, e disso me orgulho muito, a uma turma de sonhadores que tinha amor às bibliotecas naquela pequena comunidade, reunindo estudantes, professores locais, trabalhadores de várias profissões, donas de casa, aposentados, gente que gostava de ler e conversar. Lá nos juntávamos, levávamos livros arrecadados, doados, comprados, que pouco a pouco encheram algumas estantes e faziam as nossas primeiras leituras mais críticas. Era o que hoje chamamos de uma biblioteca comunitária, com aquela leveza e alegria que geralmente caracteriza esses espaços de compartilhamento espontâneo.

Foi nesse espaço que pela primeira vez ouvi falar de jazz e também de Ella Fitzgerald, assim como ouvi pela primeira vez Elis e Geraldo Vandré. Sim, também havia música na biblioteca, ela não era silenciosa e austera onde as pessoas não podem conversar e trocar ideias. Ao contrário, se falava, e muito, se sorria e se gargalhava tanto quanto se podia... e também se cantava, porque dessa biblioteca surgiu um coral! Viramos cantores, passamos a curtir Bach, Beethoven e outros compositores clássicos que nos eram apresentados tão distantes nas aulas de música na escola pública que frequentávamos. No coral a maestrina Maria José Marotti nos apresentou certa vez a cantata Carmina Burana, de Carl Orff, e rapidamente nos remetemos aos livros que contavam da literatura e da vida na Idade Média e dos tais monges goliardos. A música nos levava aos livros, que nos remetiam a outras artes, à literatura, ao cinema, ao teatro, ao patrimônio, etc. A pequena biblioteca comunitária nos unia, nos embalava, nos animava a descobrir. Não era magia, era a própria essência do que deveria ser uma biblioteca.

Toda essa história pessoal pode parecer distante e anacrônica nos tempos da informação imediata, do compartilhamento virtual, das redes sociais e de formação a distância. Mais distante ainda se pensarmos que quase tudo que eu e meus amigos daquele final dos anos 1960 fazíamos para nos informar pode ser realizado hoje em casa ou em lan houses, sem precisar de nada e de ninguém a não ser de uma conexão com a internet.

Num contexto como esse, de tamanha independência quanto à informação, como ficará o lugar da biblioteca, aquela que Mário de Andrade por volta dos anos 1935 já identificava como “centros de informação e cultura”? Haverá um futuro para as bibliotecas? É esse também o pedido de artigo que a Biblioteca Pública do Paraná me faz!

O que vi em mais de trinta anos dedicados ao livro e à leitura, como profissional e como voluntário, e principalmente ao rever meus últimos cinco anos cooperando na construção do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) como seu secretário executivo — função que deixei em 6 de abril de 2011 — foi um Brasil que possui centenas de iniciativas que reproduzem minha experiência juvenil. Não idêntica, afinal, já se passaram mais de quarenta anos, mas com o mesmo espírito, a mesma missão voluntária, que é o resultado da vontade cidadã e comunitária de se auxiliar, ao auxiliar o outro a superar-se.

Iniciativas que passam pelo setor público e vão à sociedade em todos os seus estamentos, da casa grande às favelas, das igrejas às zonas mais dessacralizadas das cidades, das escolas às comunidades de ajuda mútua para alcançarem as primeiras letras ou cultivar as adquiridas precariamente, milhares de ações se afirmam com enorme sacrifício e garra nesse nosso imenso país. Bibliotecas públicas modernizadas, interativas com as novas mídias virtuais, convivem com bibliotecas comunitárias, núcleos de leitura tradicional, saraus de poesia e conto, expressões das ruas e das artes principalmente daquelas artes literárias e musicais inovadoras que brotam fortemente e com excelentes frutos nas periferias das cidades.

Há, portanto, nesses espaços, algo que vai além do isolamento virtual e da autossatisfação das comunicações feitas pela internet, nas quais o individual se sobrepõe ao coletivo, e se o compartilhamento existe, ele não é o suficiente a ponto de acompanhar ou, sobretudo, realizar a sensibilidade do contato verdadeiramente humano.

O futuro das bibliotecas é para mim algo tão incerto quanto à capacidade que elas tem hoje de incorporar esse mundo que, por um lado, favorece o acesso à informação de maneira individual e, por outro, se transforma com a reação de parte da sociedade que coletiviza aquilo que lhe é dado para ser manipulado isoladamente. Persiste, e de maneira exponencial pela textualidade virtual contemporânea, o desejo rigorosamente humano de compartilhamento. Saberá a biblioteca utilizar com eficácia esse desafio que se lhe oferece?

Estudiosos e profissionais experientes da biblioteconomia apresentam propostas que podem estruturar novos rumos para os serviços bibliotecários. Em artigo na Folha de S. Paulo de 2 de julho de 2012, o bibliotecário Luís Augusto Milanesi, um dos principais mentores e realizadores daquela biblioteca de minha juventude e professor titular da USP, afirma que “o papel da biblioteca não deve ser só emprestar livros, ainda mais com a internet. Ela pode servir ao cidadão promovendo a Lei de Acesso à Informação”. É uma proposta concreta que pode, junto a outros serviços que uma biblioteca viva oferece, socializar e, eu diria humanizar, o compartilhamento de informações, de formação cultural e artística, que somente um local de convívio democrático pode proporcionar.

O futuro da biblioteca estará ligado necessariamente à missão que ela designar para si própria no mundo contemporâneo, embora eu pense que, qualquer que seja essa missão, para que ela tenha futuro, não se pode esquecer que, antes de tudo, o espaço bibliotecário é o de compartilhar saberes, sabores e prazeres.


 
José Castilho é professor universitário e diretor presidente da Fundação Editora da UNESP. Dirigiu entidades e instituições do livro e da leitura e foi Secretário Executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura, vinculado aos Ministérios da Cultura e da Educação. Vive em São Paulo (SP).
 
Ilustração: Rita Solieri