Literatura Paranaense | Anos 2000

Panorama ecológico

Curitiba nunca teve tantos escritores, editoras, publicações e eventos literários quanto nos últimos 15 anos — mas esse ambiente favorável ainda não atraiu o leitor comum ou se reverteu em visibilidade nacional


Omar Godoy 

A literatura curitibana se multiplicou neste início de milênio. A cidade já possuía uma tradição no assunto, mas a popularização da internet e o barateamento das técnicas de impressão motivaram o surgimento de novas editoras, publicações, eventos e, principalmente, autores. Nunca tanta gente escreveu e mostrou seu trabalho por aqui, a ponto da cena se dividir em várias microcenas. Um panorama marcado pela fragmentação, tanto da comunidade literária (que não atua em bloco) quanto da linguagem (não há um movimento artístico bem definido, como foram, por exemplo, o simbolismo ou o grupo reunido em torno de Paulo Leminski). 

Para o escritor, crítico e professor Miguel Sanches Neto, a grande novidade dos últimos 15 anos é a criação do que o próprio Leminski chamou de “ecologia” — grupos de troca de leitura cuja repercussão pode ir além do cenário local. Esse ambiente favorável, no entanto, está longe de ser uma garantia de que a produção tenha aceitação nacional ou alcance o chamado “leitor comum”. “A projeção só vem quando se ocupa minimamente os grandes espaços midiáticos do país, ou quando há consagrações por prêmios de peso”, diz. 


Segundo ele os escritores que se concentrarem apenas na internet correm o risco de se frustrar. “Apesar de dar uma sensação de reconhecimento pelos pares, esta mídia não tem força suficiente para chegar ao grande público. Em geral, é mais uma cultura de pequenos nichos”, afirma o autor de livros como Chove sobre minha infância e Chá das cinco com o vampiro, entre outros. 

O poeta Ademir Demachi, editor da revista Babel e organizador da antologia 101 poetas paranaenses (publicada pela Biblioteca Pública do Paraná), também chama a atenção para essa sensação — ou “ilusão”, como ele prefere dizer. “Há muitos grupos na cidade, e a maioria se comporta como seitas, como alquimistas que dominam a fórmula de fazer ouro. Mas a crítica e a autocrítica são baixas em contraposição aos egos cegos que acreditam produzir a melhor poesia do mundo.”

Outra característica marcante do momento atual é a proliferação de feiras, oficinas e eventos literários em geral. Para Demarchi, os cursos são um sucesso e comprovam que há cada vez mais gente interessada em escrever e publicar livros. Por outro lado, os eventos ainda não conseguiram atrair os não iniciados. “A poesia está no extremo da linguagem em todos os sentidos, vende pouco. As pessoas preferem ler romances”, explica. 

Mas os encontros de divulgação e discussão da prosa também não são um exemplo de popularidade. E a razão, de acordo com Miguel Sanches Neto, é a falta de continuidade. “Apenas os eventos do Sesc conseguem isso. A maioria está sempre recomeçando, e isso não forma público”, diz. Ele acredita que o fortalecimento da produção local vem, e sempre veio, dos jornais e revistas de literatura. “Foi assim que os escritores locais conseguiram maior visibilidade. Desde a época do simbolismo, passando pela Joaquim, depois pelo Nicolau, entre outros menos conhecidos, para chegar ao Rascunho e, agora, ao Cândido.” 

Entre as editoras mais atuantes, Sanches Neto destaca a Arte & Letra (“Me parece o projeto mais consistente das últimas décadas”) e a Positivo (“Publica autores locais e grandes nomes nacionais, fazendo da cidade um ponto de confluência da literatura brasileira”). Demarchi também cita a Arte & Letra (“Pelas edições diferenciadas”), além da Medusa (“Por apostar na experimenta- ção”), L-Dopa (“Lança raríssimos livros de ficção”) e Kafka (“Com toda a obra do indispensável Manoel Carlos Karam”).

Ambos ainda mencionam a importância de trabalhos desenvolvidos no meio acadêmico. Miguel Sanches Neto lembra da criação recente do curso de Letras da Universidade Federal Tecnológica do Paraná (UTFPR), que mantém um grupo de estudo e pesquisa sobre a literatura produzida no Estado. Já Ademir Demarchi festeja o investimento em tradução de poesia feito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) — uma instituição onde, segundo ele, “há um fervor que não existe em outros lugares do país”. 

Questionados sobre um possível denominador comum estético na literatura local, os dois são enfáticos: se a intersecção realmente existe, ela está na experimentação de linguagem. Ainda assim, não há um grupo ou movimento facilmente identificável. Portanto, não é muito adequado colocar no mesmo balaio poetas como Marcelo Sandmann, Ricardo Corona, Priscila Merizzio, Guilherme Gontijo, Ivan Justen Santana, Fernando Kroposki, Alvaro Posselt e Rodrigo Madeira, entre tantos outros. Ou prosadores como Luiz Felipe Leprevost, Paulo Venturelli, Marcio Renato dos Santos, Assionara Souza, Luis Henrique Pellanda, Paulo Sandrini, Carlos Machado, Cezar Tridapalli, etc. 

De certeza, há apenas o fato de que a ecologia desejada (ou prevista) por Leminksi é uma realidade. “Agora resta saber se essa nova interconectividade da cena tem causado impacto qualitativo. O que é difícil de avaliar, já que esses autores, em sua maioria, estão no início daquilo que pode vir a ser considerado uma obra”, afirma Demarchi.