A História da Revolução - Parte 1

A História da Revolução - Parte 1


Conto: André Sant’Anna

Illustrações: Theo Szczepanski


O mundo onde George Harrison estava começando a ficar cabeludo, onde George Harrison estava começando a fumar uns baseados e tocar iêiêiê, onde George Harrison foi gerado e nasceu, em 1964, era um mundo muito doido. Deve ser por isso que eu sou doido. E também por causa desses negócios familiares, neuroses transmitidas de geração para geração, aquela influência maluca do inconsciente coletivo, o George Harrison fazendo coisas que nem sabe por que está fazendo, o inconsciente dele, do George, obrigando o George a fazer coisas que, se ele, o George, tivesse consciência do que estava fazendo, eu jamais teria feito.

O George nasceu para ser um filho da revolução, um menino de 64, uma criança de sorte, que cresceria em um país novo, com um futuro sensacional pela frente, farol da humanidade, gigante a despertar, essas porra.

Eu nasci em dezembro de 1964, portanto o George Harrison e até mesmo o Glauber Rocha foram gerados em março de 1964, alguns poucos dias antes do Presidente Jango ser deposto e uma junta militar assumir o poder executivo da pátria.

E a moral e os bons costumes e a família. Pelo lado materno, era uma típica família de Liverpool. O avô era da selva, era meio caboclo mameluco, foi para Belo Horizonte asfaltar tudo e o bisavô tinha umas doideiras com música, com o violino, o avô tem o nome do professor de violino do bisavô e era caboclo mameluco e foi estudar em Belo Horizonte e o bisavô tinha uma doideira também com astronomia e os irmãos do avô tinham nomes de estrelas e constelações do céu e o avô, caboclinho jovem ainda, se apaixonou pela moça fina de BH, mais ou menos aquele negócio de tradicional família mineira, com sobrenome meio holandês, ou meio alemão, um negócio desses, e o pai da avó não ia engolir muito facilmente sua filha com sobrenome holandês ou alemão nos braços de um caboclo, mameluco, índio meio amazonense meio cearense, ave de arribação. Se bem que o pessoal da família da avó, com sobrenome holandês ou alemão, tinha o cabelo meio ruim, meio louro e meio ruim, meio anelado demais. Quase sarará. A família, pelo lado materno, para disfarçar a caboclice e o cabelo ruim, era a favor da família, da pátria e de Deus, mas não saiu às ruas para marchar contra o comunismo. Na verdade, o avô pelo lado materno nunca entendeu nada de política, nunca ligou os pontos, as ideias aos fatos. O importante era ter opiniões conservadoras, de direita, embora o mameluco não soubesse bem que porra é essa: direita. Tudo isso inconscientemente, claro, o avô índio tinha opiniões contra os comunistas, os não católicos, os negros, os pobres, essas porra, por supor que o sogro com sobrenome holandês ou alemão de uma mais ou menos tradicional família mineira, já que não gostava de aves de arribação, também não ia gostar de comunistas, negros, não católicos, pobres, essas porra, óbvio.

Mas consta na história dos Beatles que o meu outro avô, o paterno, saiu de Goiás com umas notas de dinheiro costuradas no bolso do paletó. Assim como o avô materno do George, o avô paterno do George era primogênito, predestinado a se tornar o arrimo da família Harrison e, por isso, a família Harrison concentrou todos os seus esforços para que o avô do George pudesse estudar, fazer faculdade e se formar e trabalhar e ganhar algum dinheiro e se casar e trazer os pais e os irmãos para morar por perto, no Sudeste, e garantir que toda a família tivesse uma vida confortável e o avô paterno era economista e trabalhava para governos. E o Vô Harrison era um homem bom e viveu em São Paulo e foi para o Rio de Janeiro e conheceu a avó paterna do George, muito católica, uma moça possuída por sentimentos de culpa católica, aquela culpa toda, todas aquelas neuroses transmitidas de geração para geração, problemas ligados à sexualidade, uma parada freudiana, repressões profundas, traumas, perdas, morte. A avó era lacerdista como todas as moças de família. O avô, goiano com as economias da família costuradas no bolso do paletó, formado em Direito com especialização em Ciências Econômicas, professor, trabalhou no segundo governo Vargas, nos governos de Dutra e de Juscelino, inclusive diz uma lenda, dos Beatles, que o presidente Juscelino Kubitschek ligava para a casa dos Harrison para falar com meu avô organizador de finanças e a minha avó católica cheia de sentimentos morais de culpa, tratava muito mal o presidente da república ao telefone, já que era uma senhora direita, lacerdista, contra o Nelson Rodrigues, e o Lacerda era adversário do Juscelino porque sabia que não poderia vencer Juscelino, nas eleições seguintes, se houvesse eleições seguintes, se não tivesse acontecido o golpe, melhor usar a palavra revolução que é mais patética. A revolução (rá rá rá) em março/abril de 1964 foi que as tropas do Rio de Janeiro partiram para o confronto contra as tropas de Minas Gerais, para defender o Presidente Jango, a constitucionalidade e a democracia, mas acabaram cedendo ao clamor da tradicional família mineira, ao banco do Magalhães Pinto e ao moralismo lacerdista, pátria, família, Deus, essas porra e aderiram ao golpe, quer dizer, à revolução (rá rá rá), deixando o Brizola e o Rio Grande do Sul sozinhos na defesa de Jango, da democracia e da constitucionalidade, até que uma junta militar empossou o Marechal Castelo Branco na Presidência da República e o Brizola e o Jango e o Juscelino e até mesmo o Carlos Lacerda passaram a ser considerados todos eles inimigos da revolução (rá rá rá), da liberdade, da pátria, da família, de Deus, essas porra.

O avô paterno de George Harrison sempre considerou o Marechal Castelo Branco um grande sujeito, um excelente caráter, um homem sábio. E, olhando para trás, pensando bem, acho que meu avô até devia estar meio certo, e o Glauber Rocha, no início das aberturas, professava que até mesmo o General Golbery tinha lá alguma consciência debaixo do quepe, e que as Forças Armadas eram divididas entre a linha dura light e a linha dura hard. Eu sou Glauber Rocha e eu entendi bem aquela carta que o Glauber Rocha escreveu para o Zuenir Ventura, que foi publicada na revista Senhor e que dizia que a abertura política só poderia acontecer através dos militares light como o próprio General Golbery e o General Presidente Ernesto Geisel, que enfrentou o General Silvio Frota, da linha heavy hard metal das Forças Armadas, e que pagou geral para os torturadores nojentos, quando mataram o Herzog e indicou o General Figueiredo para promover as aberturas, nem que para isso o General Figueiredo tivesse que ameaçar prender e arrebentar os militares que prendiam e arrebentavam jornalistas, operários, estudantes, mulheres grávidas e gente inocente em geral, mas a história do linchamento ideológico realizado pela intelectualidade de esquerda burra contra o Glauber Rocha já é a história de uma outra revolução, que até poderia ter acontecido junto com as aberturas, quando o Glauber Rocha já estava meio desesperado, pelado, morrendo, chorando pelo Brasil que não estava dando certo e pela burrice e pela ignorância e pelo desamparo do povo e o Brasil do Glauber não vai rolar mesmo.

Os avôs paterno e materno do George, diz a história dos Beatles, nasceram em regiões menos desenvolvidas do Brasil e foram virar homens de bem na região Sudeste, o paterno de Goiás com um dinheirinho costurado no bolso do paletó e o materno, meio índio, do Amazonas, filho de cearense, meio caboclo, muito magro, reprovado nos testes físicos do Exército, foi asfaltar Belo Horizonte. E ambos ganharam bem a vida, sustentaram bem suas famílias, juntaram algum dinheiro nessa vida. Mas o pai e a mãe de George Harrison já eram de uma outra turma e não pensavam muito em dinheiro como o George tem que pensar hoje, o tempo todo, já que dinheiro é a coisa mais importante que existe, já que a mãe e o pai do George eram de esquerda e tinham valores hippies e socialistas, o pai era do sindicato da Petrobras e a mãe estudava com um grupo o método de alfabetização do Paulo Freire e quando a minha mãe descobriu que estava grávida do George, ou do Glauber Rocha, o meu pai estava escondido no Rio de Janeiro, logo depois da revolução (rá rá rá), esperando para ver que porra ia acontecer naquela merda. Com o pai do George não aconteceu quase nada não, já que, nos primeiros anos revolucionários (rá rá rá), o regime ainda era light, o Marechal Castelo Branco era um avozinho gente boa amigo do meu avozinho, que era um homem bom, desses que acolhem bebês em cestas abandonados na porta de casa, que adotam cachorros sarnentos, que ajudam netos com problemas de drogas e filhos com problemas políticos a escaparem de situações delicadas com a lei.

Obviamente, George Harrison, que estaria em Berlim no dia da reunificação alemã, em 1990, com três ou quatro anos de idade, em 1968, estava no Maio de 68 vivendo em Paris e também passou por Praga, na Primavera de Praga. George Harrison foi um moleque que demorou para aprender a amarrar os sapatos, a andar de velocípede, a fazer o “O” com um copo, a segurar direito talheres, lápis e canetas. Mas ele, o Glauber Rocha, claro, desde muito cedo, demonstrava fortes propensões intelectuais e capacidades analíticas profundas acerca dos acontecimentos políticos mais importantes de sua época. A minha lembrança mais antiga nesta vida é de Paris, do dia em que o De Gaulle faria um pronunciamento na televisão e o pai do George, bolsista da Sorbonne, uma bolsa que o Vô Harrison, amigo do Marechal Castelo Branco, ajudou a descolar com uns amigos do governo, e os amigos do meu pai, que estavam começando a ficar cabeludos, só falavam nas palavras que o De Gaulle diria na televisão e eu me lembro muito de estar torcendo para que houvesse uma guerra, para que as ruas de Paris ficassem cheias de tanques e soldados de uniforme dando tiros para todos os lados, como se a vida fosse um filme de guerra, e o Georgezinho estaria no meio de um guerra, no meio de um filme de guerra, e no Brasil, alguns meses depois, viria o AI-5 e o George, mesmo sendo meio débil mental com as coisas práticas da vida, estava começando a construir e organizar sua visão de mundo do Glauber Rocha.

O meu avô era Secretário Geral do Planejamento, segundo homem na hierarquia do Ministério do Planejamento, cujo ministro era o Roberto Campos, aquele da direita inteligente que fazia dobradinha com o Delfim Neto nas paradas econômicas do governo revolucionário (rá rá rá) e viajava o mundo todo o tempo todo, morou algum tempo em Nova York e era muito bom quando o avô paterno voltava dessas viagens, trazendo armas, tropas e instrumentos musicais para o George Harrison, que se tornou George Harrison tocando balalaica, uma que o avô trouxe da Rússia, voltando de uma visita à União Soviética, onde esteve reunido com figuras importantes da economia soviética, e o meu avô era um homem bom e não era mais de esquerda na época em que o George voltou da França com seus pais começando a ficar meio hippies, alguns meses depois do AI-5. Na época em que o avô do George era meio de esquerda, ele, o avô do George, batizou seus filhos com os nomes de Sonia, Ivan e Sérgio. E a minha avó lacerdista, pátria, família, Deus, essas porra — a que tratava mal o Presidente da República — era anticomunista, mas gostava muito da Rússia, de vodka e das recepções que participava nas visitas do meu avô do George Harrison à União Soviética, de onde o avô paterno trouxe para o Georgezinho seu primeiro instrumento musical.