Estante humor

Poemas escolhidos, de Gregório de Matos 

Gregório de Matos e Guerra nasceu em Salvador, em 1633 (ou 1636, não há certeza) e morreu no Recife, em 1696. É considerado o mais importante poeta barroco da América portuguesa. Advogado formado em Coimbra (Portugal), foi um poeta ativo e polêmico — ficou conhecido como o “Boca do Inferno”. Ele atacou verbalmente e satirizou sem piedade a sociedade no qual estava inserido. É apontado por estudiosos como o marco-zero do humor da literatura brasileira. Em um de seus sonetos, escolhido ao acaso na antologia Poemas escolhidos (2010), é possível perceber o poder de fogo do poeta: “Se honesto sois, não sois homem,/ Impotente, se sois casto,/ Se não namorais, fanchono,/ Se o fazeis, sois estragado.”

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

Uma das mais bem acabadas peças de humor da literatura brasileira, Memórias póstumas de Brás Cubas foi apresentado ao público pela primeira vez no formato de folhetim, de março a dezembro de 1880, na Revista Brasileira; em 1881, o romance foi publicado no formato de livro pela Tipografia Nacional. O humor conduz toda a narrativa, em primeira pessoa, enunciada por um autor-defunto, o Brás Cubas: ou seja, quem narra já faleceu e, apesar disso, pretende realizar uma autobiografia. Ao iniciar a narração, Brás Cubas dedica o que vai escrever aos vermes: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas”. Obra-prima, para ler, reler e rir, continuamente.


Serafim ponte grande, de Oswald de Andrade

Publicado em 1933, Serafim ponte grande é, ao lado de Memórias sentimentais de João Miramar, 1924, um romance de alta inventividade. A narrativa não tem capítulos, mas 203 fragmentos. Neles, é possível encontrar de tudo um pouco: personagens que aparecem e desaparecem sem explicação alguma, narração em primeira e em terceira pessoa, cartas, diário de viagem, anotações íntimas, textos teatrais, poemas curtos, abaixo-assinados e um dicionário de bolso que vai até a letra L. Os personagens são hilários, como o traficante de cocaína Birimba e Pinto Calçudo, secretário tão bajulador que, por incomodar Serafim — e ocupar muito espaço na narrativa —, é expulso do romance, retornando mais tarde.


Alguma poesia, de Carlos Drummond de Andrade

Alguma poesia (1930), o primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), traz poemas que ficariam marcados na história da cultura brasileira, como “Poema de sete faces” (Quando eu nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida), “Infância” (E eu não sabia que minha história/ era mais bonita que a de Robinson Crusoé.) e “No meio do caminho” (tinha uma pedra no meio do caminho). Os textos líricos revelam a lucidez do autor, a visão de mundo irônica — com senso de humor — e um domínio de linguagem que o credenciaria como um dos mais importantes poetas da língua portuguesa. Ele conseguiu até em textos breves, como “Cota zero”, revelar esse viés que faz rir e pensar: “Stop./ A vida parou/ ou foi o automóvel?”.


O óbvio ululante: primeiras confissões, de Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues (1912-1980) é sinônimo de excelência em dramaturgia e de genialidade no que diz respeito à crônica. Além dos enredos e personagens, esse pernambucano radicado no Rio de Janeiro foi autor de frases desconcertantes, e eternas. Vale citar algumas, por exemplo: “Na vida, o importante é fracassar”, “A Europa é uma burrice aparelhada de museus”, “Subdesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos”, “Todas as vaias são boas, inclusive as más” e “O dinheiro compra até amor sincero”. As crônicas de O óbvio ululante: primeiras confissões (1968) podem ser, aos que ainda não conhecem, porta de entrada para a obra dele. Já os leitores de Nelson, costumam repetir que nunca se cansam de reler esses textos sublimes, absolutamente engraçados.


Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida

Publicado originalmente no formato de folhetim, de 1852 a 1853, no Correio Mercantil do Rio de Janeiro, o romance apareceu em 1854; ao invés do nome do autor, estava escrito “Um brasileiro”. Memórias de um sargento de milícias apresenta o percurso de Leonardo, malandro desde pequeno. Graças à intervenção de um padrinho, consegue driblar adversidades. Há um ziguezague de travessuras, molecagens e, por que não?, beatnikagens, apesar de a obra ter sido concebida muito tempo antes da criação do termo que definiria uma geração norte-americana do século XX. Almeida conseguiu costurar um enredo a partir de uma visão cômica da vida, na qual o acaso é determinante para quase tudo. Um marco do humor e da literatura brasileira.


Pornopopéia, de Reinaldo Moraes

Longa narrativa publicada em 2009, Pornopopéia é um romance que, de acordo com a crítica literária, dialoga com Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Além do mais, observa Jacyntho Lins Brandão, da UFMG, “a obra faz incursões intertextuais e, no fundo, não deixa de propor o que poderia ser uma epopeia brasileira para o século XXI (o herói tendo nascido em 1964).” Engraçado da primeira à última frase, o livro coloca em cena o anti-herói Zeca, ex-cineasta marginal que paga as contas a partir de roteiros para comerciais de marcas obscuras. De repente, é abduzido para dentro de uma rotina de sexo e drogas. Reinaldão, como o autor é conhecido, estreou na literatura com Tanto Faz (1981), obra endossada pela crítica, mas se consagrou com Pornopopéia.


Terra papagalli, de José Roberto Torero & Marcus Aurelius Pimenta

A história oficial é considerada verdade, apesar de que fatos que aconteceram há 100, 200, 300 anos não podem ser realmente confirmados. Levando em conta esse pressuposto (de que nem tudo o que está escrito é verdade), José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta escreveram, a quatro mãos, um romance que apresenta, com deboche e humor, a história do descobrimento do Brasil. Publicado originalmente em 1997, Terra papagalli é uma narração que provoca, inclusive, crentes e devotos: “Senhor, penso que há certos dias em que Deus, aborrecido por ver as coisas sempre semelhantes e sem atribulações, escolhe um dos pecadores e embaraça-lhe os fios do destino só para divertir-se e ter o que comentar com São Pedro”.


Diálogos impossíveis, de Luis Fernando Verissimo

Ele consegue olhar, e enxerga, graça em praticamente tudo: na ameaça de morte, no quase apocalipse, nas limitações que a idade avançada impõe, em toda e qualquer adversidade. É um mestre do humor. Escreve em jornal há tempos e as suas crônicas estão presentes no imaginário do brasileiro contemporâneo. Vale ler qualquer livro de Luis Fernando Verissimo, por exemplo, Diálogos impossíveis (2012) — vencedor do Prêmio Jabuti 2013 de Melhor Livro do Ano de Ficção. O professor da UFMG Jacyntho Lins Bran-dão salienta que “Luis Fernando Veríssimo é hoje o autor mais importante no campo da literatura brasileira de humor”. Colegas de ofício, como José Roberto Torero, também destacam Verissimo como um dos grandes nomes do humor da literatura brasileira.