Especial Poesia - Poetas Paranaenses

Lírica que ultrapassa os limites da Rua XV

Apesar de uma tradição de um pouco mais de um século, a nova geração de poetas locais obtém repercussão e reconhecimento em outros Estados e até no exterior


Por Felipe Kryminice

Em um bate-papo na Biblioteca Pública do Paraná, Helena Kolody contou ao também poeta Paulo Leminski que percebia a existência de alguns grupos e movimentos de poetas locais relevantes. Disse que eles “se organizavam, se desfaziam e se recompunham ao sabor das marés”. A autora destacou um grupo que, na época, se organizava no Largo da Ordem, no Setor Histórico da capital paranaense.

A conversa entre Helena e Leminski, dois dos principais nomes da literatura paranaense, aconteceu durante a década de 1980 — e a obervação da autora, que este ano faria cem anos, tem algo de profético (e atual). Hoje, a alguns metros do mesmo Largo, é o Wonka Bar que abre espaço para poetas e simpatizantes de poesia nas noites das terças-feiras.

O projeto Vox Urbe é uma continuação do Porão Loquax, idealizado em 2006 pela empresária Ieda Godoy e pelo poeta Mário Domingues. Desde 2011, a proposta, agora rebatizada, atrai autores e público que, além de poemas em voz, podem sorver sopa e vinho.

“Anteriormente, aconteciam movimentos isolados e não havia diálogo e aproximação real entre os poetas daqui. Agora não. Esses projetos permitiram contato entre o pessoal que curte e faz poesia”, afirma Ricardo Pozzo, poeta e curador do projeto atual. Pelo porão do Wonka já passaram, entre outros, Edson Falcão, Ivan Justen Santana, Zeca Corrêa Leite, Estrela Leminski, Flávio Jacobsen, Fernando Koproski, Jorge Barbosa Filho, Paulo Bearzoti, Assionara Souza, Rober- to Prado, Márcio Américo, Bárbara Lia e Alexandre França.

Atividades promovidas pelo Sesc Paço da Liberdade, no centro de Curitiba, também são mencionadas pelo curador das noitadas líricas do Wonka como responsáveis pelo amadurecimento do cenário cultural de Curitiba. “Essas trocas entre os escritores, e a aproximação com o público, acabaram repercutindo positivamente na produção como um todo”, afirma.

O resultado dessa movimentação mencionada por Pozzo pode ser percebida pela quantidade de poetas que surgiram em tempos recentes, entre eles Rodrigo Madeira, Adriano Smaniotto, Rodolfo Jaruga, Iriene Borges e Luciana Cañete. “Alguns destes autores chamam a atenção de leitores, poetas e críticos de outros Estados”, observa o curador.

Influências entre gerações

Se atualmente a poesia paranaense tem mais visibilidade, isso é resultado de trilhas desbravadas por precursores locais. A tese é do poeta Antônio Thadeu Wojciechowski. “Hoje em dia, muita gente nova faz um trabalho bom. Eles souberam aproveitar o espaço criado por Fernando Amaro, Júlia da Costa, Dario Vellozo, Emiliano Perneta, Helena Kolody, Paulo Leminski, Alice Ruiz, Marcos Prado e tantos outros”, diz o autor, conhecido como “Polaco da Barreirinha”.

Mais do que os caminhos abertos, Wojciechowski observa ainda uma influência de poetas como Marcos Prado, Paulo Leminski e Helena Kolody na produção atual. Ele também ressalta que a poesia feita no Paraná conseguiu, com o passar dos anos, criar uma identidade. “A formação étnica do paranaense faz com que a poesia daqui tenha uma universalidade latente em quase todos os seus autores.”

Tipo exportação

Há outros sinais da vitalidade na poesia contemporânea produzida no Estado. No último mês de junho, Josely Vianna Baptista e Jussara Salazar — poeta pernambucana radicada em Curitiba desde 1985 — foram incluídas entre os finalistas o Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2012, na categoria poesia (ao lado de poetas consagrados como Affonso Romano de Sant’Anna e Manoel de Barros).

Outro destaque foi a participação de Jussara na 13a edição do PoesieFestival Berlin, evento realizado recentemente na Alemanha e considerado um dos mais importantes do gênero no mundo. Para essa edição, a organização do festival convidou seis brasileiros para participarem da Oficina de Tradução — evento no qual os convidados atuaram em parceria com autores alemães. Na ocasião, o parceiro de Jussara foi Christian Lehnert.

Questionada a respeito de um possível reflexo da dicção poética paranaense em sua produção, Jussara diz o seguinte: “Considero interessante observar a grande liberdade que foi propiciada pela falta de uma tradição, no sentido estrito. Um poeta do Paraná hoje não deve nada a ninguém, não se
preocupa com nenhuma tradição ou herança. Isso é estimulante”.

Berço Poético

Entre os pioneiros da poesia do Paraná, destaca-se Bento Cego. Poeta, cantador e rei dos desafios, tornou-se uma lenda durante o século XIX. Ágil e criativo nas suas composições, o poeta deixava os desafiadores sem resposta — o percurso dele pode ser conferido no curta-metragem Bento Cego, dirigido por Geraldo Pioli.

Outra personalidade da poesia paranaense do século XIX é Júlia da Costa (1844-1911), autora de uma extensa quantidade de poemas, conteúdo reunido no livro Poesia (2001), organizado por Zahidé Lupinacci Muzart e publicado pela Imprensa Oficial do Paraná. Emiliano Perneta (1866-1921) foi coroado, em 1911, em uma cerimônia realizada no Passeio Público, o príncipe dos poetas paranaenses. Personalidade curitibana, teve a produção ligada tanto ao simbolismo como ao parnasianismo e obteve alguma ressonância em âmbito nacional. No entanto, o poeta paranaense mais conhecido no Brasil é, sem dúvida nenhuma, Paulo Leminski (1944-1989). Fez, sem exagero, quase de tudo. Estreou com um romance experimental, Catatau (1975), traduziu obras de John Lennon, Alfred Jarry e Samuel Beckett, além de compor canções, gravadas por Caetano Veloso e Morais Moreira, entre outros. Os seus poemas, sobretudo do livro Distraídos Venceremos (1987), são conhecidos do Rio Grande do Sul ao Pará. Quem também se destacou foi Marcos Prado (1961-1996).

Mais conhecido por assinar letras de canções gravadas pela banda Beijo AA Força e outros grupos musicais curitibanos, Prado escreveu inúmeros poemas, muitos dos quais estão reunidos no livro Ultralyrics (2006). Neste ano, o poeta foi o homenageado no 29.o Salão Internacional de Humor do Piauí, realizado entre 26 a 30 de junho. “A poesia dele, apesar de problematizar a dor, tem uma noção de humor peculiar”, diz Luiz Antonio Solda, cartunista e poeta que desde 2003 participa do evento realizado em Teresina.