Especial Poesia - Mercado Editorial

Poesia vende (mas pouco)

Publicar material poético é um ato de resistência cultural que atende um público pequeno, porém cativo

 
Por: Omar Godoy
Ilustração: Estelli Flores


Sabe-se muito pouco sobre o desempenho comercial dos livros de poesia no Brasil. Não há sequer um controle bibliográfico com relação ao gênero. Mas basta visitar uma livraria para constatar que o espaço físico destinado aos títulos poéticos é ínfimo — e praticamente escondido. Trata-se de um segmento de mercado tão restrito, que mesmo os editores não se acanham em defini- lo como “marginal”.

“Quase não existe mercado para a poesia no Brasil, sobretudo para autores novos”, afirma Jorge Viveiros de Castro, dono da editora 7Letras. Com a experiência de quem já publicou mais de 700 títulos desde o final dos anos 1990, ele explica que poetas ainda desconhecidos do grande público raramente ultrapassam a marca dos 600 exemplares vendidos. “Se a 7Letras vendesse apenas poesia, é bem provável que eu não estivesse mais trabalhando com isso hoje”, diz.

Segundo Castro, a trajetória de um bom poeta rumo ao reconhecimento sempre é longa — ao contrário do que acontece com os melhores prosadores. Não à toa, os livros mais vendidos do gênero são de autores mortos ou de idade mais avançada (Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, Manoel de Barros, etc.). “Os poetas falam das coisas do mundo de um jeito diferente, por isso muitos deles acabam sendo aclamados só pelas gerações seguintes a sua. É praticamente impossível um poeta novo dar retorno comercial”, garante.

Marta Garcia, editora da Companhia das Letras, vai além e garante que não existe best-seller de poesia. “Mesmo os autores razoavelmente conhecidos que a gente publica, como Eucanaã Ferraz e Paulo Henriques Britto, não conseguem grandes vendagens”, conta. A exceção, segundo ela, são os livros adotados em escolas ou comprados pelo governo (quase sempre de autores consagrados).

Por outro lado, o índice de leitura de poesia entre os brasileiros é surpreendentemente positivo. Pelo menos é o que indica a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, promovida pelo Instituto Pró-Livro com cerca de 5 mil pessoas em 315 municípios de todos os Estados do país. De acordo com o último levantamento, realizado entre junho e julho do ano passado, o gênero poético está em sétimo lugar na preferência dos entrevistados, à frente de gêneros como autoajuda e biografia. Obviamente, o dado não se reflete no mercado editorial. Mas, se o brasileiro costuma mesmo ler poesia, por que esse interesse não é traduzido em vendas? “Acho que os entrevistados estavam se referindo a uma poesia mais açucarada, popular”, opina Marta.

“Talvez até exista mais gente interessada, mas os números comerciais continuam praticamente os mesmos de quando eu comecei a editar. E não devem mudar”, diz Castro, que em 2011 lançou os primeiros livros digitais da 7Letras. De acordo com ele, a poesia ganhou fôlego e novos fãs com a internet, apesar de concorrer com outros atrativos virtuais. “O texto poético se presta muito bem à veiculação online, pois cabe perfeitamente na tela do computador. O problema é que o internauta tem cada vez menos tempo para ler, já que divide sua atenção com os jogos, portais de notícias, redes sociais, etc.”

Para Pascoal Soto, diretor editorial da Leya, é importante entender o perfil do leitor de poesia — que, muitas vezes, prefere comprar reedições de seus livros preferidos em vez de apostar em nomes iniciantes. “Eu mesmo releio Fernando Pessoa há 20 anos e, nesse meio tempo, me interessei pouco por outros poetas”, revela o editor, conhecido por seu trabalho com a obra de Manoel de Barros.

Soto, no entanto, se diz espantado com a expressiva quantidade de saraus e outros eventos de leitura poética organizados Brasil afora nos últimos anos. “Existe uma produção marginal que não está interessada em chegar ao grande público. O que não significa que eu não receba muito material de autores anônimos”, conta o editor, que atualmente trabalha num livro de poesias do músico e ativista social carioca Marcelo Yuka.

Especulações à parte, o fato é que publicar poesia sempre foi um ato de resistência cultural, que atende um público pequeno, porém cativo. “Estamos falando daquele que talvez seja o gênero literário mais antigo. Enquanto a humanidade estiver por aqui, a poesia existirá”, diz Soto. “A poesia é fundamental para a literatura. Não se pode desistir de publicá-la, ainda que em tiragens menores”, afirma Marta.

Autopublicação

Em um artigo publicado recentemente na Folha de S. Paulo, Ferreira Gullar não deixa pedra sobre pedra em sua avaliação do mercado editorial de poesia. “Livro de poesia vende pouco e de poeta desconhecido não vende nada. Nenhum editor, em seu juízo perfeito, entra numa fria dessas”, escreve o autor maranhense, para em seguida citar vários poetas consagrados que só conseguiram estrear na literatura custeando a publicação de seus primeiros trabalhos.

Gullar fala de uma época em que o processo de produção gráfica de um livro beirava o artesanal. Hoje em dia, com as novas tecnologias, a autopublicação é um caminho ainda mais natural para os autores iniciantes. “De um ano para cá, estamos imprimindo exemplares por demanda. Ou seja: o que a gente fazia por meio de malabarismos quando começamos, no início dos anos 1990, finalmen te se tornou realidade”, conta Jorge Viveiros de Castro, que costuma dividir os custos de impressão com os autores editados pela 7Letras.

“Acho que não conheço nenhum poeta da minha geração que já começou publicando por uma grande editora”, diz Fabrício Corsaletti. O autor de Esquimó (2010) estreou na literatura com a ajuda financeira do pai e hoje é editado pela Companhia das Letras, porém não se encanta com a estrutura mais profissional de que dispõe atualmente. “Claro que é ótimo ter uma distribuição melhor e mais visibilidade na imprensa. Meu último livro ganhou matéria em quase todos os veículos que tratam de literatura, mas a verdade é que poesia vende pouco mesmo, as tiragens nunca se esgotam.”

Segundo ele, embora todo mundo diga que gosta de poesia (daí o bom desempenho do gênero na pesquisa do Instituto Pró-Livro), há raríssimos leitores — inclusive entre seus amigos mais fanáticos por literatura. E se existe um culpado por isso, talvez seja a escola, e não os editores — o contrário do que afirmam os poetas mais queixosos.

Para Corsaletti, é equivocado pensar que as editoras não sabem vender poesia. “As pessoas vendem qualquer coisa. Já venderam até aquelas facas Ginsu! Se existisse uma fórmula comercial para a poesia, já estaríamos todos ricos”, afirma.