Especial | Literatura de fantasia

Os fiéis da balança

Também definida como literatura de entretenimento, a fantasia faz sucesso, entre outros motivos, por causa do entusiasmo de leitores e leitoras — tese defendida por livreiros, editores e Eduardo Spohr, autor que vendeu mais de 700 mil exemplares


Marcio Renato dos Santos
Fotos Kraw Penas
Eduardo Spohr afirma que a fantasia está dentro de um escopo maior, que é a literatura popular, de entretenimento.

A popularização da internet, a partir da segunda metade da década de 1990, representa um marco para a literatura de fantasia no Brasil. Quem afirma é Eduardo Spohr, 39 anos, um dos destaques do segmento no país. “Mas eu acho que a fantasia está dentro de um escopo maior, que é a literatura popular, a literatura de entretenimento”, completa.

“Antes [da internet], a divulgação de um livro dependia de jornais e revistas impressos. Com a internet, qualquer leitor pode emitir a sua opinião. As redes sociais, então, tendem a proporcionar ainda mais visibilidade para uma obra”, diz Spohr, defensor da tese de que, no Brasil, a literatura de fantasia é impulsionada pelos leitores, “e não pelos escritores”.
A Verus Editora informa que A batalha do apocalipse, Filhos do Éden — Herdeiros de Atlântica e Filhos do Éden — Anjos da morte ultrapassam, juntos, a marca dos 700 mil exemplares vendidos. Já Filhos do Éden—– Paraíso perdido, a obra mais recente de Spohr, está na lista dos títulos mais vendidos no Brasil desde o lançamento, dia 31 de outubro do ano passado — foram comercializados 20 mil exemplares até o final de dezembro de 2015.

A curiosidade dos leitores

De acordo com Spohr, a literatura de fantasia é atraente, entre outros motivos, pelo fato de apresentar ao leitor, além do enredo, elementos da mitologia, da filosofia, da história e de outros campos do conhecimento humano. “A literatura de fantasia tem essa liberdade: não está diretamente falando da realidade, mas usa elementos reais. A ficção científica e a fantasia são metáforas do mundo real. E as pessoas buscam isso, esse espelho da realidade. Na fantasia, posso fazer crítica social sem ‘apontar o dedo’”, afirma Spohr.

O diretor comercial do grupo Livrarias Curitiba, Marcos Pedri, diz que é possível entender o motivo do interesse do público pela literatura de fantasia. “Acredito que o interesse deve-se ao fato de que as obras são muito bem escritas, com ótimas narrativas, enredos bem entrelaçados, personagens bem construídos e com aspectos bem definidos. O mix desses fatos gera uma boa trama, que prende a atenção do leitor do início ao fim da obra”, afirma.

Entre os títulos de fantasia mais vendidos nas, atualmente, 24 lojas da empresa, presentes no Paraná, em Santa Catarina e em São Paulo, Pedri destaca a coleção Harry Potter, de J.K. Rowling, O senhor dos anéis e O hobbit, de J.R.R. Tolkien e A guerra dos tronos, de George R.R. Martin. O diretor comercial da Livrarias Curitiba ainda observa que, no que diz respeito a vendagens, não há detalhamento específico a respeito do gênero fantasia. Na empresa, fantasia está inserida na categoria literatura de ficção, responsável por 6% do total das vendas — considerando os dados de 2015, ano em que as vendas atingiram 5,8 milhões de livros, a literatura de ficção movimentou 348 mil livros.

Ondas, fenômenos

A analista comercial da Livraria Cultura Marilia Prado comenta que, desde o impacto de Harry Potter, no começo do século XXI, surgiram outras “ondas” da literatura de fantasia ou — como prefere Eduardo Spohr — literatura de entretenimento. “Harry Potter vendeu bem e os livros da série ainda têm muita procura. Mas a fantasia é ampla, com uma variedade de títulos e autores”, completa, citando Crepúsculo, de Stephenie Meyer, como outro exemplo: “Depois do lançamento de Crepúsculo, publicado no Brasil em 2008, tinha mais de 10 livros sobre vampiros, todos com ótima saída. Digo isso para lembrar que, em média, a cada 2,3 anos surge uma nova ‘onda’”.

Entre os 500 títulos que a Intrínseca já publicou desde o início de suas atividades, em dezembro de 2003, 15%, ou seja, 75 livros podem, de algum modo, ser classificados como fantasia. De acordo com a editora Danielle Machado, o caso mais bem-sucedido é o de Stephenie Meyer, com Crepúsculo. Dialogando com Marilia, da Livraria Cultura, Danielle acrescenta que, de fato, o mercado é cíclico e, em cada época, “essa ou aquela temática pode vender mais”.

“Um desses ciclos foi o da fantasia, há alguns anos, e será novamente daqui a algum tempo. Acho que esses ciclos ajudam a formar leitores e auxiliam os leitores a encontrar suas preferências. Quando a onda baixa, as preferências ficam — quem aprendeu a ler fantasia, vai continuar lendo — e isso mantém o segmento girando independentemente das modas”, afirma Danielle, acrescentando que, para ela, a percepção geral é de que os leitores de fantasia costumam ser fiéis ao tema e seus autores, o que ajuda as obras a terem êxito, mesmo que nem sempre se tornem best-sellers.