Especial Capa: Tradição Feminina

A participação da mulher nas letras do Paraná é antiga e marcante, especialmente na poesia, território em que se destacam figuras como Alice Ruiz e Helena Kolody

Camila Feiler


Desde a poeta Julia da Costa (1844-1911), que publicou dois livros entre 1867 e 1868 e colaborou com diversos periódicos, a participação da mulher nas letras do Paraná é marcante. Mais do que isso: o traço experimental impresso na literatura do Estado por escritores como Manoel Carlos Karam e Wilson Bueno também se faz presente na produção feminina local.



Luci Collin, autora do romance Com que se pode jogar, também é contista e poeta.

Para além de questões políticas e de gênero, escritoras como Luci Colin e Assionara Souza, de gerações distintas, já no século XXI, trouxeram um tipo de inquietação que dialoga com a tradição inovadora da prosa e da poesia paranaenses.

“A prosa da Luci, nos seus contos, revela novidade astuta e maturidade linguística. Já os poemas, sobretudo no recém-lançado Trato de silêncios, acabam lembrando a importância do lirismo sem medo, mesmo em tempos pós-modernos que questionam o discurso lírico”, afirma Gisele Giandoni Wolkoff, escritora e doutora em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela UTFPR Pato Branco. A professora também ressalta o pioneirismo do Paraná, que, em 1933, reuniu intelectuais e artistas no Centro Paranaense de Cultura Feminina, que acabou se tornando um propulsor da literatura feita por mulheres no Estado.

Para Collin, que também é professora de Literaturas de Língua Inglesa na Universidade Federal do Paraná (UFPR), o Paraná conta hoje com uma produção bastante expressiva de ficção. “Se nem tanto em termos de números e publicações, seguramente em termos de qualidade”, diz.

Publicando desde 1984, quando lançou o livro de poesia Estarrecer (poesia), Collin também tem livros de contos e um romance, Com que se pode jogar, lançado em 2011. Ela concorda que há certa predominância da poesia na produção literária feita por mulheres no Paraná, mas acredita que isso não chega a caracterizar um fenômeno da literatura local. “Há poetas paranaenses — nascidas ou radicadas aqui — como Helena Kolody, Alice Ruiz, Jussara Salazar, Karen Debértolis ou Josely Vianna Baptista, entre outras, cuja produção recebe projeção nacional, ao passo que as ficcionistas tendem a ser menos conhecidas. Mas isto não é exclusividade do nosso Estado a ponto de se caracterizar um fenômeno particular da cultura literária paranaense. Não tenho nenhuma ideia, nem tese para explicar isto. Quem tiver alguma, me conte, por favor.”

Se há alguma predominância da poesia entre as escritoras paranaenses, no que se refere aos temas, há pouca conexão entre as prosadoras e poetas do Estado, segundo Catia Toledo Mendonça, professora da UNESPAR (Universidade Estadual do Paraná). “É difícil estabelecer esse elo. As escritoras escrevem sobre o que sentem, sobre a forma como veem mundo. Na literatura paranaense, de modo geral, a cidade de Curitiba é muito tematizada não só por Dalton Trevisan, mas também por Cristovão Tezza, Roberto Gomes e outros nomes. E este cenário também aparece nos textos de escritoras como Assionara Souza, embora sem tanta ênfase.”

Alice Ruiz construiu importante
trajetória como poeta e letrista
de música popular.

Collin diz que, mesmo que não possa identificar traços de “cor local que pudessem unir a expressão literária feminina do nosso Estado”, vislumbra grande liberdade de criação entre as escritoras paranaenses. “Me parece que, com grande liberdade e criatividade, as autoras paranaenses — seja em poesia ou em ficção — vêm escrevendo sobre quase tudo, com estilos e interesses que variam entre si. Prevalece a percepção da vida e do sentido pós-modernos. Um escritor, homem ou mulher, paranaense ou não, poderá ser, em alguma medida, local ou regional, mas também deverá apresentar mais do que isto, no sentido de escrever sobre temas de apelo universal ou atemporal.”

Marcelo Franz, professor de Literatura do Curso de Letras da PUCPR, sugere que a predominância de mulheres nas letras do Estado pode estar relacionado a certo “preconceito histórico”. “Calhou de, historicamente, os nomes femininos que mais se destacam quando pensamos nas letras do Estado, serem de poetas. Isso pode se dever a uma certa imagem — talvez preconceituosa — que se definiu do que é a poesia e dos laços que o feminino pudesse ter com ela no que tange à 'sensibilidade', 'espiritualidade', 'doçura', 'subjetividade'. Não sei o quanto isso não teria de machismo e da expressão de um renitente provincianismo que, em linhas gerais, caracteriza a cultura (inclusive a literária) do Estado.”

Além de Collin, o Paraná se firma, há algumas décadas, com autoras como Escolástica Velozo, Mariana Coelho, Regina Benitez e Lygia Lopes dos Santos. E, repercutindo, além das fronteiras, Helena Kolody e Alice Ruiz.

Jussara Salazar, autora
de Carpideiras, tem
uma das produções
mais prolíficas entre as
escritoras do Paraná.

Maior poeta paranaense, Helena Kolody, para além de sua figura maternal, ganhou o respeito de leitores e críticos brasileiros com uma poesia aparentemente simples, mas que, justamente por isso, “chegava ao gol com menos toques na bola”, segundo definição de Paulo Leminski (um dos poetas “adotados” por Kolody e que sofreu grande influência de sua poesia, principalmente de seus haikais). Mulher de Leminski durante 20 anos, Alice Ruiz construiu carreira consistente na poesia brasileira, laureada com prêmios como o Jabuti, que venceu em 2009 com a coletânea de poemas Dois em um. Ruiz, a exemplo do marido, também tem uma trajetória na MPB, a partir de parcerias com nomes como Zeca Baleiro e Arnaldo Antunes.

A safra mais recente da literatura paranaense traz nomes como o de Bebeti do Amaral Gurgel, com mais de dez livros publicados, a já citada Assionara Souza, Cláudia Ortiz, Gisele Pacola, Greta Benitez, a cronista Marilda Confortin, Lindsey Rocha Lagni, Bárbara Lia, Susan Blum, Maria Célia Martirani, Josely Vianna Baptista, Estrela Leminski e Jussara Salazar, entre muitas outras.