Especial Capa: Nelson Rodrigues e Jorge Amado

Amados pelo Cinema


Jorge Amado e Nelson Rodrigues,dois
dos escritores brasileiros que mais
tiveram obras adaptadas à linguagem
cinematográfica, completariam 100
anos se estivessem vivos



Marcio Renato dos Santos

Dois mil e doze é o ano do centenário de nascimento de dois escritores brasileiros muito diferentes um do outro, mas com pontos de contato entre si. Ambos nasceram no nordeste brasileiro. Cada um transformou em ficção a sua aldeia, seja onde nasceu, passou a infância ou cresceu. Eles nunca foram unanimidade e receberam críticas contundentes por motivos equivocados. Mas há outro ponto de conexão entre esses dois cânones de nossa literatura: Jorge Amado e Nelson Rodrigues são alguns dos autores que mais tiveram obras adaptadas para o cinema brasileiro.

Os textos de Nelson Rodrigues (1912-1980) transformaram-se em filmes a partir do olhar, e da direção, de Neville de Almeida (Os sete gatinhos), Bruno Barreto (O beijo no asfalto), Braz Chediak (Perdoa-me por me traíres), Walter Avancini (Boca de ouro) e Andrucha Waddington (Gêmeas), entre outros. O curador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, Gilberto Santeiro, define Nelson Rodrigues como “o rei dos diálogos” e, justamente por essa característica, ele afirma que os diretores que preservam o texto original do dramaturgo saem na frente — positivamente — em suas adaptações cinematográficas, como é o caso de J. B. Tanko, com Engraçadinha depois dos 30, e Arnaldo Jabor, em O casamento.

Santeiro conheceu, e conviveu, com Nelson que — de acordo com o curador do MAM-RJ — não gostava de “diretor inteligente”. “Para ele, o diretor de cinema tinha de respeitar, e manter, o texto original, e não fazer intervenções supostamente 'inteligentes'”, diz Santeiro, acrescentando que o dramaturgo era obcecado pelo longa-metragem norte-americano E o vento levou, e reprovava a adaptação que Leon Hirszman fez de sua peça A falecida.

Editor de mais de 40 longa-metragens, Santeiro acredita que a obra de Nelson funciona no cinema, também, devido aos personagens fortes criados pelo jornalista-dramaturgo, o que pode ser comprovado com a performance de Sônia Braga interpretando Solange em A dama do lotação, de Neville de Almeida, e Vera Viana em Asfalto selvagem, de J.B. Tanko. “As heroínas e os personagens masculinos construídos por Nelson são ótimos. E bons personagens sempre ajudam na elaboração de um filme”, afirma Santeiro, que assina a montagem de Engraçadinha, adaptação de uma obra do autor agora centenário dirigida por Haroldo Marinho Barbosa, com a atriz Lucélia Santos como protagonista.

No palco, no jornal, na rede

Pesquisador da produção rodrigueana, Ricardo Oiticica dispara: a obra do dramaturgo não funciona no cinema. Para justificar a tese, o professor da Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio recorre a uma frase do próprio autor, que dizia querer transmitir a malária e o tifo. “O teatro dele é a vida verdadeira. No cinema, sem a cálida presença física, sobretudo do público, a obra do Nelson não acontece”, argumenta.

Oiticica lembra que a encenação de Perdoa-me por me traíres, em 1957, dividiu a plateia: metade vaiava, enquanto os outros aplaudiam. “Ali estava a arte e o efeito da produção de Nelson. Agora, imagine a performance filmada, editada e exibida em uma sala de projeção. Perde-se muito. Haverá reação do público? Evidente que não vai funcionar como na proposta original do autor”, comenta o professor carioca.

Somente agora, no centenário do nascimento, observa Oiticica, o dramaturgo volta a flertar com a unanimidade, ao receber homenagens em todo o Brasil. Nelson foi unânime apenas com a peça Vestido de noiva, em 1943. Em seguida, ao problematizar o contraditório e praticar a polêmica, enfrentaria décadas de confrontos e mal-entendidos. A partir da montagem de Toda nudez será castigada, em 1965, encenar torna-se inviável, sobretudo pelo fato de o autor ter seu nome vinculado ao governo militar.

Incompreendido em saraus de grã-finos, botecos ideológicos e também em peladas e clássicos acadêmicos, Nelson Rodrigues, que faleceu dia 21 de dezembro de 1980, deixou um legado ainda não totalmente compreendido e decifrado. A obra dele segue a repercutir nas telas, nos palcos, em edições impressas, mesmo fragmentada em frases compartilhadas nas redes sociais, como as conhecidas máximas “Só o inimigo não trai nunca”, “Deus está nas coincidências”, “Nem todas mulheres gostam de apanhar, só as normais” e “Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém.”

Armas de Jorge

Além das 10 adaptações de romances de Jorge Amado (1912-2001) para o cinema, incluindo as duas versões de Capitães de areia, mais um longa elaborado a partir da ficção do autor baiano vai estrear no circuito comercial no primeiro semestre de 2013. Trata-se de As fantásticas aventuras de um capitão, filme produzido em parceria pela Warner Bros. e pela Total Filmes — e quem assina a direção é o curitibano Marcos Jorge, de 47 anos, que se notabilizou por ter realizado Estômago, premiado no Brasil, Holanda, Inglaterra, Portugal, Uruguai e até na República Dominicana.

Essa empreitada recente de Jorge é uma livre adaptação de um livro de Amado, Os velhos marinheiros ou O capitão de longo curso, e há cenas gravadas nas cidades do Rio de Janeiro, Tiradentes e S. João Del Rei, com participação de mais de mil figurantes e 50 atores, entre os quais José Wilker, Patrícia Pillar, Cláudia Raia, Tainá Müller, Márcio Garcia, Milton Gonçalves, Sandro Rocha e os paranaenses Rodrigo Ferrarini e Zeca Cenovicz — o ator português Joaquim de Almeida, de Velozes & furiosos 5, é o protagonista.

O cineasta conta que, em 2009, recebeu um convite da Total Filmes para fazer a adaptação. Pediu uns dias para ler a obra que ele já havia lido na adolescência. A empatia foi imediata. “Simplesmente deliciei-me com as aventuras do Comandante Vasco e com seu conflito com Chico Pacheco. Mas ao chegar perto do final do romance foi quando tive certeza de que queria fazer o filme, pois ao ler a cena da chegada do navio do Comandante ao cais de Belém, aconteceu comigo aquilo que os cientistas chamam de 'paramnésia' e os franceses, de déjà vu: revivi, com detalhes, o momento em que, adolescente, me emocionara ao ler a cena magistralmente escrita por Amado. Pensei que se conseguisse fazer com que os espectadores sentissem a mesma comoção que eu, naquele momento, estava sentindo pela segunda vez, poderia fazer um filme muito especial”, confessa o curitibano que curso jornalismo e estudou direção e roteiro em Roma.

Durante as pesquisas para o escrever o roteiro do filme, que ele assina sozinho, Jorge releu a obra do escritor baiano e confirmou aquilo que — adolescente, quando leu pela primeira vez — já havia intuído: Jorge Amado é um clássico. “E o é na acepção mais ampla de clássico, a de uma obra que está sempre se renovando. Seus temas centrais são variados como é variada a humanidade e a vida, mas se destacam: a luta política entre os grupos humanos, a independência feminina, o sincretismo religioso e cultural brasileiro. Ler Jorge Amado, como bem o define Ana Maria Machado, é fazer 'um mergulho no humor e na imaginação'”, afirma o realizador.

Pronto para filmar

A diretora da Fundação Casa de Jorge Amado, Myriam Fraga, chama a atenção para o fato de que, muito mais do que apenas uma personalidade do universo das letras, Jorge Amado foi um embaixador da Bahia e do Brasil. “Foi um 'contador de histórias' que soube transmitir com genialidade o cotidiano do seu povo. Amado costumava dizer que uma historia se conta, não se explica”, comenta Myriam, que também é escritora.

Em meio às celebrações do centenário de nascimento do autor, a Fundação Casa de Jorge Amado viabilizou a publicação do livro Jorge Amado e a sétima arte, no qual Myriam assina um texto analisando os pontos de contato entre a obra do escritor e o cinema. “Já que falamos das relações de Amado, autor, com o cinema, não poderíamos deixar de falar de sua obra romanesca, ela mesma e toda ela, parecendo ter nascido para projetar-se, além do papel, nas grandes telas cinematográficas do mundo inteiro para total deleite e visibilidade de um público maior, mais diversificado, que não tendo ainda se iniciado nos caminhos da palavra consegue, através das imagens recriadas nos filmes, conviver com personagens e episódios que, apesar da transcrição em outra linguagem, guardam ainda o vigor e a transparência, características da ficção de Jorge Amado”, argumenta Myriam.

Marcos Jorge sabe que, a exemplo do discurso de Myriam, a ficção do mais conhecido escritor baiano dialoga com a sétima arte — e ele conferiu cinco adaptações da obra de Amado para a tela grande: Dona Flor e seus dois maridos e Gabriela, ambos de Bruno Barreto; Tieta do Agreste, de Cacá Diegues; Quincas Berro d’Água, de Sérgio Machado, e Capitães de areia, de Cecília Amado. “Gosto de cada um deles, por razões diversas, mas devo dizer que me agradam sobretudo os mais recentes, o do Sérgio Machado e o da Cecília Amado, por fazerem uma leitura atualizada das histórias que adaptam”, avalia o cineasta.

O fato de conciliar histórias requintadas e problemas complexos com uma certa simplicidade narrativa pode explicar porque a obra do escritor baiano é, praticamente, perfeita para o cinema. A tese é de Jorge. “Acho que é nisso, nessa capacidade de ser sofisticado e ao mesmo tempo acessível que reside a primeira grande qualidade de sua literatura. Qualidade que o cinema apreciou e aproveitou: Dona Flor e seus dois maridos foi, durante décadas e até dois anos atrás, o maior sucesso de bilheteria do cinema brasileiro [superado apenas por Tropa de Elite 2]. Jorge Amado funciona no cinema, e como!”, afirma o diretor nascido em Curitiba que, durante o período em que esteve envolvido com a adaptação de Amado para a linguagem cinematográfica, teve como livro de cabeceira A vida como ela é, de Nelson Rodrigues, para ele, “um dos maiores autores brasileiros de todos os tempos, e talvez o maior dramaturgo já surgido em nosso país”.