Especial Capa: Na intimidade da poeta

Pianista de música clássica e bordadeira, Helena Kolody é lembrada por amigos e familiares como
uma pessoa generosa e excelente conselheira


Lucas Rufino

Considerada a grande dama da poesia paranaense, Helena Kolody não foi poeta por vocação: a poesia a procurava. Olga Kolody, 97 anos, lembra como eram esses momentos em que a poesia visitava a irmã. “A inspiração assaltava ela. Não tinha hora nem local, ela sempre carregava ou deixava espalhados bloquinhos e canetas pela casa, fosse na sala, no quarto ou na biblioteca. Várias vezes eu estava deitada na cama e percebia a Helena acordar, acender a luz e escrever alguma coisa na sua escrivaninha”, conta Olga.

Sua vocação era ensinar. Helena foi professora de Biologia e dizia que amava todos os seres vivos. Mas, uma curiosidade: a poeta, que “sonhava palavras”, nunca enveredou pelo ensino da literatura. Lecionou durante 25 anos nas cidades paranaenses de Ponta Grossa, Jacarezinho e Curitiba. Em 1947 prestou concurso público para o cargo de Inspetora Federal de Ensino Secundário, ficou na quarta colocação e assumiu a função em 1950.

Diva Torres, colega de trabalho daquela época, a considerava uma excelente profissional. Generosa, tinha a sabedoria necessária para aconselhar e orientar tanto os alunos, como os colegas de trabalho. “Uma vez, disse a ela que havia um aluno que ninguém conseguia dar jeito, e Helena me aconselhou a trazer o aluno para próximo de mim. No dia seguinte, tornei ele o meu secretário, para o espanto de toda a turma. A partir daquele dia, o rapaz se tornou um dos melhores alunos”, conta a amiga.

Helena Kolody nasceu em Cruz Machado. Filha de imigrantes ucranianos, aprendeu o português nas escolas por onde estudou. Já o idioma materno, ucraniano, foi aprendido em casa, com os pais. Filha mais velha de seis irmãos, três mulheres e três homens — dois falecidos ainda bebês —, Helena, conta a irmã Olga, parecia ter um dom especial que a diferenciava dos outros irmãos. “Helena era a mais inteligente, não que fôssemos burros ou tivéssemos algum problema, mas ela tinha uma facilidade maior para aprender as coisas”, diz.

Ainda na infância, Helena aprendeu a pintar, bordar e tocar piano. Adorava música, tinha discos de todas as orquestras famosas, mas gostava mesmo era de ouvir música clássica. “A Helena tocava piano muito bem. Adorava tocar Chopin e Beethoven”, relata a irmã.

Regina Kolody, sobrinha da poeta, ainda guarda com carinho alguns presentes da tia. “Helena era muito caprichosa em tudo que fazia, até hoje tenho guardado panos bordados que ela fez pra mim e um livro de receitas, todo escrito a mão por ela.”

Outra grande paixão da infância, levada por toda a vida, foi a leitura. Organizada e caprichosa com os seus livros, nas estantes as obras eram separadas por tema, nunca estavam misturadas. Lia sobre tudo, gostava de dicionários e tinha enciclopédias que, antes do advento da
internet, eram a tábua de salvação para qualquer pesquisa.

Diferentemente de Adélia Prado, que vive entre bolinhos de chuva e versos, Helena não foi excelente cozinheira: fazia apenas o básico para o seu cotidiano, mas adorava doces. É comum ouvir relatos de amigos sobre o famoso cálice de licor que a poeta servia aos visitantes de seu apartamento, que, entre tantos jovens em busca de conselhos, recebeu Wilson Bueno e Paulo Leminski, escritores que despontariam no cenário literário nacional. “Lembro que quando íamos para Curitiba, era comum chegarmos e ter algum doce na casa da tia Helena, caso contrário ela nos levava à Confeitaria das Famílias ou à Schaffer”, relembra Lígia, outra sobrinha da poeta, referindo-se a duas confeitarias tradicionais da Curitiba de Helena.

Apaixonada pela natureza, a poeta adorava viajar para a praia. Teve uma casa no balneário de Capri, em São Francisco do Sul (SC). Com o passar dos anos, o custo de manutenção da casa e a instalação de um Terminal Marítimo da Petrobras, que destruiu parte da natureza do local, fez com que Helena, juntamente com as irmãs, vendesse a casa. Sem casa na praia, a poeta passa a frequentar a sede da Associação dos Servidores Públicos do Paraná, em Caiobá. “Ficávamos sempre
nos mesmo quartos, eu no quarto 6 e a Helena no quarto 9. Eu gostava de fazer as minhas coisas, sair, passear. Já a Helena era mais reservada, tímida, preferia ficar no seu canto observando a natureza e lendo”, diz a irmã Olga.

Um anjo exilado na terra

“Ela era uma pessoa de personalidade forte, muito crítica com ela mesmo, mas doce e atenciosa com os outros”, relata Adélia Maria Woellner, poeta e amiga de Helena.

Como a maioria das famílias de descendentes de ucranianos e poloneses, a religião sempre esteve presente na casa dos Kolody, fato que refletiu diretamente na vida e na obra da poeta. Educada em escolas de influência religiosa, Helena frequentava a missa da igreja Bom Jesus, na praça Rui Barbosa, no centro de Curitiba. Seu poema “Prece” recebeu o “Imprimatur” da igreja, podendo ser lido como uma oração e está emoldurado em um quadro no corredor do apartamento
em que viveu. A honraria da igreja, para Olga, demonstra que a irmã era “ uma pessoa mística, iluminada”.

Diva Torres revela que certa vez, ao ter um problema com determinada pessoa, uma amiga recomendou a Helena que se vingasse, ao que a poeta respondeu: “É preferível a gente chorar a fazer os outros chorarem”. Depois de décadas lecionando, Helena viveu de duas aposentadorias
e pouco se importava com questões práticas envolvendo dinheiro, como era o caso dos direitos autoriais de suas obras. “Só peço alguns exemplares para poder guardar comigo e distribuir para os parentes”, dizia a poeta.

Helena aceitava tudo que a vida lhe oferecia, mas ficou sem realizar um dos seus maiores sonhos: casar e ter filhos. Foi noiva durante dois meses, mas acabou não casando. No entanto, não guardou qualquer tipo de mágoa ou ressentimento. Costumava dizer que seus alunos eram os seus filhos. Fato comprovado pela legião de ex-alunos que frequentou o apartamento da poeta ao longo dos anos até o seu falecimento, em fevereiro de 2004.