Especial Capa: Clássicos

O cânone nas telas


Entre adaptados e adaptáveis, clássicos da literatura aparecem como uma das principais fontes de inspiração de cineastas


Felipe Kryminice

Recentemente, do fundo do baú de Fernando Pessoa surgiu uma novidade que foge do roteiro pronto da trajetória literária da maioria dos autores clássicos: Pessoa, considerado um dos escritores mais importantes da língua portuguesa, escrevia roteiros para cinema, conforme revelou o trabalho de pesquisadores que vasculham o espólio do poeta. Além de pretenso roteirista, também tinha projetos comerciais envolvendo o cinema: pretendia criar uma produtora, chamada Ecce Film.

E flertar com a sétima arte parece não ser uma exclusividade do poeta português. O autor russo Vladimir Nabokov não só autorizou a adaptação cinematográfica de algumas de suas obras, como foi dele o script da primeira versão para o cinema de Lolita, seu mais conhecido romance, produzido em 1962.

Jorio Dauster, tradutor de várias obras do autor russo, conta que Nabokov era um entusiasta do cinema e fã das comédias de Buster Keaton, Chaplin, Harold Lloyd e Marx Brothers e Laurel e Hardy. Além dos trabalhos realizados, Dauster acredita que um outro romance do escritor russo poderia render um excelente produto: “Um de seus romances mais difíceis e complexos — Ada ou Ardor —, que cuida de um amor incestuoso que se estende por décadas, daria um filmaço se algum gênio tivesse a capacidade de extrair a trama central sem conspurcar toda a rica paisagem imaginativa em que ela se insere.”

O tradutor também cita o outro lado da moeda, revelando que escritor norte-americano J.D. Salinger, autor de O apanhador no campo de centeio, um dos romances mais vendidos de todos os tempos, tinha aversão à possibilidade de adaptação de sua obra, recusando sistematicamente os convites que foram feitos, até sua morte, em 2010, aos 91 anos idade. E os pedidos não foram poucos: Samuel Goldwyn, Billy Wilder, Marlon Brando, Jack Nicholson e Leonardo DiCaprio foram alguns astros de Hollywood que tentaram, sem sucesso, convencer o escritor.

“Na raiz dessa ojeriza, por conta da qual Salinger deixou de ganhar várias dezenas de milhões de dólares, estava a melodramática versão de seu conto Tio Wiggily em Connecticut, produzida por Samuel Goldwyn em 1949 com o título de My Foolish Heart e que, apesar de estrelada por Susan Hayward e Dana Andrews, deixou o autor furioso e foi um fracasso de bilheteria”, explica.

Dauster ainda conta que, entres os clássicos adaptados e adaptáveis, tem vontade de ver uma nova criação cinematográfica de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. “Soube que já teve uma versão cinematográfica há quase cinquenta anos. Está na hora de algum grande cineasta recriar Riobaldo e Diadorim naquele sertãozão de um Brasil profundo ameaçado de morte pelas novelas urbanas.”

O livro é sempre melhor?

Com a constante produção de filmes baseados em clássicos da literatura, surge uma espécie de sadia e involuntária rivalidade. Produções inspiradas em autores consagrados como José Saramago (Ensaio sobre a cegueira), Umberto Eco (O nome da rosa), George Orwell (A revolução dos bichos), Truman Capote (A sangue frio), Ernest Hemingway (O velho e o mar), William Faulkner (O som e fúria e a fúria e O intruso), além de filmes shakespearianos, invariavelmente despertam no leitor e espectador a dúvida de qual criação teve um resultado melhor.

Para o jornalista Sérgio Augusto, toda obra-prima literária é superior à sua versão cinematográfica, por melhor que esta possa ser. Superioridade essa atribuída a uma estética mais bem-sucedida. Mais do que isso, Augusto ainda defende que alguns livros deveriam permanecer intocados pela sétima arte. “Certas obras literárias, por sua extensão e complexidade, deveriam permanecer intocadas pelo cinema. Para que adaptar Proust, James Joyce ou mesmo Dostoiévski? É um desafio excitante, reconheço, mas em geral fadado ao fracasso, com raríssimas exceções. Clássicos da literatura dispensam o aval do cinema”, opina.

A exemplo de Dauster, Augusto também revela ter vontade de ver uma adaptação de outro grande clássico da literatura brasileira: Angústia, de Graciliano Ramos — que há um bom tempo figura na lista das obras mais tentadoras e sedutoras quando o assunto é a transposição da literatura para as telonas.

Nelson Rodrigues e Jorge Amado são os exemplos mais óbvios de que a rica produção literária brasileira também aparece como fonte de inspiração para diretores e cineastas. A obra literária dos dois autores acabou repercutindo em outros formatos, criando uma estreita relação com produções audiovisuais, conforme mostra a matéria “Amados pelo cinema”.

Para além do autor baiano e do dramaturgo pernambucano, o cinema brasileiro se valeu de outros nomes da literatura nacional, como José de Alencar (Senhora e Iracema), Mário de Andrade (Macunaíma), Aluísio Azevedo (O cortiço), Euclides da Cunha (Os sertões) e Lima Barreto (Triste fim de Policarpo Quaresma) .


Clássicos intransponíveis

Por mais recorrente que a literatura tenha sido enquanto fonte de inspiração para a produção cinematográfica, a questão levantada por Sérgio Augusto acerca da dificuldade de transpor certos livros para a linguagem cinematográfica, sempre ecoa entre cinéfilos e literatos: existe clássico intransponível para as telonas?

Para o crítico de cinema Marden Machado, não. Ele acredita que parte dessa possibilidade pode ser atribuída à qualidade de algumas produções pontuais. “Até assistir o trabalho dirigido pelo Luiz Fernando de Carvalho, eu achava que não seria possível produzir um filme inspirado no livro Lavoura arcaica, de Raduan Nassar. O mesmo vale para O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, que foi belissimamente adaptado por Peter Jackson”, avalia o crítico.

Por mais sofisticados que sejam os recursos utilizados nas produções audiovisuais, traquitanas cinematográficas a parte, o crítico destaca que o principal continua sendo a boa e velha literatura: “Para mim, as melhores adaptações são aquelas que respeitam a essência do material literário”, pondera Machado.