Entrevista: Antonio Cicero

“Ler um poema estimula nosso pensamento em todos os sentidos”

O carioca Antonio Cicero se afirma como uma das vozes mais singulares da contemporaneidade por transitar pela poesia e pela filosofia. Em 2012, publicou Porventura (poemas) e Poesia e filosofia (ensaio). Os poemas dele, além do prazer estético, provocam reflexões sobre o estar no mundo e a perplexidade de ser humano.


Marcio Renato dos Santos

Voz expressiva da poesia brasileira contemporânea, o nome de Antonio Cicero está em pauta nos primeiros dias de 2013. Ele disputa a vaga de Ledo Ivo na Academia Brasileira de Letras. Nesta entrevista exclusiva ao Cândido, ele fala de outros assuntos, sobretudo, aquilo que lhe diz mais respeito: o mundo das ideias. Comenta alguns de seus poemas, dos livros Guardar (1996), A cidade e os livros (2002) e do recém-publicado Porventura (2012). Mas evita definir o que é poesia e também prefere não destrinchar sua produção artística. “Acho que uma das características mais importantes de um poema é que se trata de uma obra de arte polissêmica, isto é, que tem muitos sentidos. Não compete ao próprio artista tentar interpretá-la, isto é, tentar determinar ou delimitar os seus sentidos. Os leitores que a interpretem.” Filósofo com especializações no exterior, autor do livro Poesia e filosofia (2012), Cicero falou sobre o assunto: “Um poema pode conter algo de filosofia, mas apenas como um dos seus ingredientes: não é a filosofia que ele contém que lhe dá o seu valor.” Ele, que tem poemas musicados por grandes nomes da MPB, também fez uma análise a respeito da relação entre poesia e letra de canção, além de ter comentado motes que estão na sua obras e na de outros autores, como a morte e o desejo: “O desejo é constitutivo da vida humana. Só a morte faz com que ele passe.”

Em 1996, na sua estreia como autor de livro de poemas, o texto inicial, que empresta título à obra, “Guardar”, apresenta uma ideia-força intensa: “Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la./ Em cofre não se guarda coisa alguma./ Em cofre perde-se a coisa à vista./ Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá por/ admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.” Escolher esse texto para abrir o livro provoca um forte impacto: você guardou os seus poemas publicando-os. Poderia comentar os sentidos do poema inicial?
Acho que uma das características mais importantes de um poema é que se trata de uma obra de arte polissêmica, isto é, que tem muitos sentidos. Não compete ao próprio artista tentar interpretá-la, isto é, tentar determinar ou delimitar os seus sentidos. Os leitores que a interpretem.

A sua poesia, inclusive nos momentos iniciais, é reflexiva, precisa, enxuta, musical e dialoga com a tradição, incluindo as referências do Ocidente. Quem eram os seus poetas prediletos no contexto em que foram escritos os poemas de Guardar?
Muitos. Faço alusões a vários, nos poemas. Por exemplo, no poema “Dita”, cito a poeta grega Safo, o romano Catulo, o português Fernando Pessoa e o brasileiro Caetano Veloso. Além disso, a expressão “somos fabulosos”, na linha 7, remete, é claro, ao “fomos fabulosos” da estrofe 82 do canto X dos Lusíadas, de Camões. Em “Virgem” cito o poema de Drummond “Inocentes do Leblon”. Os poemas “Tâmiris” e “Canto XVIII” (que, por uma gralha, saiu está erroneamente grafado “Canto XXIII”) são referências a trechos da Ilíada, de Homero. O poema “A luta” é referência a um episódio da “Gênese”, do Antigo Testamento. No poema “Oráculo” faço uma referência ao poeta inglês Gerald Manley Hopkins. No poema “O circo”, as referências são o poeta Yeats e o poeta/filósofo Nietzsche. “História” se refere a Horácio. “Sair” se refere a Pascal. Na verdade, seria preciso adicionar muitos outros, pois sempre fui um leitor voraz de poesia.

Na segunda parte de Guardar, lemos poemas que foram musicados, cantados e são conhecidos de nosso imaginário, entre os quais “Solo da paixão”, “Inverno” e “Maresia”. “Virgem”, por exemplo, traz imagens, sugestões de um enredo a dois que pode ter naufragado, para uma das partes, em meio ao cenário cartão postal da beira-mar Ipanema-Leblon: “O Hotel Marina quando acende”, “não é por nós dois/ Nem lembra o nosso amor”, “Os inocentes do Leblon.” “Inocentes do Leblon” é um poema do Carlos Druumond de Andrade, publicado no livro Sentimento do mundo (1940), em um contexto no qual havia uma guerra e seus temores, e os inocentes do Leblon passavam bronzeador no corpo sem se dar conta dos navios que poderiam surgir no horizonte e provocar um apocalipse local. A sua poesia, entre outras características, é carregada de significados. Poderia comentar sobre esses diálogos literários?
Os poetas dialogam todo o tempo com a tradição poética. É que a gente aprende o que é poesia, e o que é boa poesia, lendo poesia e, principalmente, lendo os poemas canônicos. A canção “Virgem” tem uma das minhas letras de que mais gosto. Na pré-adolescência, morei em frente à praia de Ipanema, de modo que essa paisagem me é muito familiar. De modo geral, é um grande prazer ouvir uma letra minha cantada por um cantor ou cantora que admiro.

Letra de canção é poesia? Tem poesia em letra de canção? Quais os pontos de contato entre letra de canção e poesia?
Sabemos hoje que a primeira poesia conhecida do Ocidente, os poemas de Homero, eram recitativos. Nesse sentido, eles eram parentes do rap, que é uma espécie de recitativo. Já os poemas líricos eram, como seu próprio nome indica, musicados. Eram o que chamamos de letras de canções. Como os gregos não desenvolveram uma notação musical adequada, perdemos a música, mas conservamos as letras dessas canções. Essas letras são os poemas gregos antigos que conhecemos e admiramos, de Safo, Píndaro, Anacreonte, Teócrito, Calímaco, etc. Logo, uma letra pode perfeitamente dar um bom poema escrito. E nada impede que um bom poema escrito dê uma boa letra de música. No entanto, um poema não precisa dar uma boa letra, para ser bom. E, vice-versa, uma letra não precisa dar um bom poema escrito, para ser boa. Com efeito, a letra é originalmente feita para ser parte de uma canção. Se ela servir para produzir uma bela canção, então ela é boa, independentemente de dar um bom poema escrito. E, naturalmente, o poema é feito para ser lido, de modo que não precisa dar uma boa letra.

Já em A cidade e os livros (2002), destacam-se poemas narrativos. “Museu de Arte Contemporânea” é e pode ser um retrato. No poema que dá nome ao livro, “A cidade e os livros”, encontramos um Rio que é, foi e será um Rio que passou por você: “Hoje é diferente, pois todas as cidades encolheram,/ são previsíveis, dão claustrofobia/ e até dariam tédio, se não fossem/ os livros infinitos que contêm.” Qual a relação do Rio de Janeiro com os livros?
É um poema em que falo da descoberta da cidade grande como a descoberta do mundo aberto e moderno como análoga à descoberta de que os livros, a grande literatura universal, pertence àquele que a ela se entrega. O Rio tem não apenas os livros de suas bibliotecas, de suas livrarias, de suas coleções particulares, mas os livros que falam do Rio, como os de Machado de Assis, e os livros que podem ser escritos sobre ele, ou tendo o Rio como cenário. Mas falo do Rio porque é a cidade onde vivo, porém creio que o que se passa nesse poema poderia passar-se, mutatis mutandis, em qualquer cidade grande.

“Ônibus”, poema dedicado a Eucanaã Ferraz, é outro exemplo do que comentei na pergunta anterior. Parece um clique, uma foto, por trazer, além da linguagem, das palavras escolhidas, musicais, uma cena: “São oito horas da noite, véspera/ da véspera de outro Natal./ Já não há lâmpadas feéricas/ vindas da China a iluminar/ as ruas.” Considera a sua poesia, também, narrativa?
Nesses exemplos que você está dando, sim. E, de fato, no caso do poema “Ônibus”, foi algo que presenciei que o desencadeou. E, quando começo a escrever o poema, ele, em determinado ponto, assume certa autonomia. E então, estranhamente, é como se eu tivesse que fazer o que ele pede para ser feito.

O quanto há de filosofia em sua poesia?
No ano passado, escrevi um livro sobre esse assunto: Poesia e filosofia. Acho que poesia e filosofia são coisas muito diferentes. Um texto de filosofia pretende nos ensinar alguma coisa ou provar uma tese. Normalmente nós o relemos quando precisamos tirar dúvidas ou entender melhor determinadas questões. Já um poema é uma obra de arte. Não é o que ele nos ensina ou prova que interessa. É que ler um poema estimula nosso pensamento em todos os sentidos. Não é só o que ele diz que interessa, mas como o diz. Um poema pode conter algo de filosofia, mas apenas como um dos seus ingredientes: não é a filosofia que ele contém que lhe dá o seu valor. O que vale e dá prazer, na leitura de um poema, é a própria leitura. O poema é bom quando mobiliza não apenas nosso intelecto, como a filosofia, mas várias das nossas faculdades ao mesmo tempo: nossa imaginação, nossa razão, nossa emoção, nossa sensibilidade, nossa sensualidade etc. Não relemos um poema como um texto de filosofia, apenas para tirar dúvidas ou entender melhor determinadas questões, mas porque sua leitura nos proporciona esse prazer, que é um prazer estético.

“Ser poeta é uma África.” Eis o desfecho de “O poeta marginal”, do livro Porventura (2012). O texto abre e cita diversos autores, ou sugere, a dialogar com rastros de grandes poetas. O que é ser poeta?
Seria preciso saber o que é a própria poesia para saber o que é um poeta. Mas jamais se conseguiu definir adequadamente a poesia. Ela é, como se dizia antigamente, um “je ne sais quoi”, isto é, um “não sei quê”.

Em “O poeta lírico”, de Porventura, a voz poética garante: “Não sei contar histórias.” Apesar de eu já ter perguntado anteriormente, há poemas neste livro que são narrativas, sobre “Meio-fio”, no qual o leitor se depara com uma narrativa poética que mostra a jornada de um sujeito que pretende conferir um filme, mas o acaso, ou um esbarro em um carro muda os rumos e, num meio-fio, “a maresia/ cio marinho, alicia/ para outras eras da vida.” É um curta-metragem, ou um longa, dependendo do imaginário. Pode comentar esse poema e esse viés? Essa cena, filme urbano, apresentado por meio da poesia?
Sou daqueles poetas que acham que um poeta jamais deve tentar explicar o seu poema. O poema deve bastar por si e, caso seja enigmático, é exatamente o enigma, e não sua solução, que é importante.

Consegue definir a sua poesia?
Não. Não consigo defini-la. Sou capaz de falar de qualquer tema e de usar inúmeras dicções diferentes. Se há alguma coisa comum a todos os meus poemas, como dizem alguns críticos, eu não consigo definir essa coisa.

Em Porventura, “La Capricciosa” faz menção a uma perda, do seu irmão. “A morte também tem arte”. A perda é um dos temas de sua obra?
Sim, pois é um dos temas mais importantes da vida humana.

“Blackout”, poema presente em Porventura, mostra uma cena do temor urbano, da paranoia, o medo do outro, do olhar do outro, do que o outro possa vir a fazer. A janela, antes espaço para vir o outro, o mundo, a lua, hoje precisa de blindagem. A sua poesia menciona o Rio, desde sempre. Qual a sua impressão do Rio hoje?

Acho que a paranoia, a sensação de estranhamento, deslocamento, “outsideness” que o sujeito do poema sente pode ser sentida em qualquer lugar do mundo. O Rio, hoje, não é tido, nem por mim, nem pela população em geral, como uma cidade excepcionalmente insegura, como era alguns anos atrás.

“Só o desejo não passa”. Lemos em um dos poemas de Porventura. O desejo, de fato, não passa, apesar da passagem do tempo?
Não. O desejo é constitutivo da vida humana. Só a morte faz com que ele passe.

 

“Meio-fio”

Domingo à noite, ao cinema,
à comédia americana
do Roxy, em Copacabana:
que melhor estratagema
para vencer a acedia
domingueira, num programa —
sonorama, cinerama —
com um toque de nostalgia,
drops e ar condicionado,
e um trailer, de aperitivo
(que filme é mais incisivo
que o somente insinuado?)
Mas, na Barão de Ipanema
com a Domingos Ferreira,
eis que fazemos besteira,
a um quarteirão do cinema:
é que, à procura de vaga,
não vemos que vem um carro
na transversal, e o esbarro
não é grande mais estraga
os planos. Resta esperar
ao meio-fio a perícia.
Mas a noite, com a malícia
e a fluidez de um jaguar,
nada espera. Da avenida
Atlântica, a maresia,
cio marinho, alicia
para outras eras da vida.

Do livro Porventura (2012).

 

“Virgem”

As coisas não precisam de você:
Quem disse que eu tinha que
precisar?
As luzes brilham no Vidigal
E não precisam de você;
Os dois irmãos
Também não.
O Hotel Marina quando acende
Não é por nós dois
Nem lembra o nosso amor.
Os inocentes do Leblon,
Esses nem sabem de você
Nem vão querer saber
E o farol da ilha só gira agora
Por outros olhos e armadilhas:
O farol da ilha procura agora
Outros olhos e armadilhas.

Do livro Guardar (1996)


“Perplexidade”

Não sei bem onde foi que me perdi;
talvez nem tenha me perdido mesmo;
mas como é estranho pensar que isto aqui
fosse o meu destino desde o começo.

Do livro A cidade e os livros (2002)