Em busca de Curitiba | Márcia Denser

CURTIR CURITIBA (DESMEMÓRIA)

Enxergamos a vida através da memória. Conheço pouco Curitiba para além dum saber intelectual, não tenho vivência dessa cidade, apenas remotas lembranças ressocadas no fundo da minha juventude. Dourada, diga-se. E sendo e vindo duma juventude assim, além de paulistana encalacrada, minha visão (e libido) seria insidiosamente voltada para dentro de mim mesma, o ego funcionando como uma espécie de sol único dum universo escuro, secundário, vassalo e servil, profusamente indistinto, sempre me chegando (quando chegava) através dum olhar periférico, distraído, de relance, como no caso de precisar arredar objetos do caminho, essas coisas.

Numa ficção recente escrevi que aos vinte, vinte e dois anos, eu tinha uma namorado rico, gordo, alcoólatra e bem careta, além de fundamentalista em Cristo e Camarões vermelhos (atributos que absolutamente não se excluem, muito ao contrário, se completam) chamado Alvim, um sujeito por quem eu alimentava um sentimento extremamente pragmático e confortável: afinal ele me pagava a faculdade (que já era uma fortuna), me dava de presente toda a moda de Paris, almoços e jantares cinco estrelas, sem contar as viagens e hotéis e é aí que eu quero chegar. Nas viagens e hotéis.

A geografia — e respectiva logística — do nosso romance compreendia incessantes viagens (que ficar em Sampa também é um saco) relâmpago ao Rio, Cabo Frio, Campos do Jordão, Teresópolis, Buenos Aires — sempre nos fins-de-semana, até porque eu trabalhava tipo o dia todo. E entre as cidades citadas se incorporou imprevistamente Curitiba. Por quê? Porque as cidades citadas, inclusive Curitiba, não eram visitadas.

Não se fazia porra de passeio algum fosse no Rio, Buenos Aires ou Curitiba, nada conhecíamos (nem estávamos interessados) para além da estadia em hotéis cinco estrelas — desses onde se pode pedir tranquilamente canapé de caviar e vodca às três da manhã — e dos restaurantes elegantérrimos com contas estratosféricas. A vida de Alvim resumia-se em três operações: beber, comer e gastar (as duas últimas como pretextos para a primeira), algo que ele poderia fazer só ou agradavelmente acompanhado e é aqui que eu entrava.

Triste, não?A vida como um horizonte monótono entre um porre e uma ressaca. A minha vida com Alvim, o meu amor por Alvim: nossas bebedeiras siderúrgicas. Evidentemente aos 22 anos — como a temperatura nos jatos da Varig (que aliás não existe mais) — eu não tinha nenhum espírito crítico. Apenas uma cega voracidade imensa de viver. Que hoje, aos sessenta, perdi completamente, restando apenas a lembrança duma vida não vivida, antes consumida cegamente. De modo que não se entristeça, Curitiba, se não te curti devidamente, posto que à mesma logística dispensada ao Rio, Cabo Frio, Campos do Jordão e Buenos Aires, você se incorporou passivamente como mais uma cidade sem rosto e sem alma para além da confortável curtição cinco estrelas à la carte da primeira classe presente em todos os jatos da Varig (que aliás não existe mais).


Márcia Denser é pesquisadora de literatura e jornalista. Nasceu e vive em São Paulo. É autora dos livros Tango fantasma, O animal dos motéis, Exercícios para o pecado, Diana caçadora/Tango Fantasma, A ponte das estrelas, Caim e Toda prosa II — obra escolhida. Foi traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi. Seu conto Hell’s Angel está também entre os Cem melhores contos eróticos universais.

Ilustração: Fúlvio Pacheco