Em busca de Curitiba

Estereótipos e tipos estéreis

O romancista Cezar Tridapalli abre a nova seção do Cândido, dedicada à publicação de ficção inédita inspirada na Curitiba contemporânea

Ilustração: Bruna Ferencz

Maria, ô, Maria. Onde se meteu? Traz conhaque. Ninguém recusa meu conhaque. O que quer saber? Parece fácil falar. É difícil. Até os contrapontos são lugar-comum. Onde o diferente? No meio termo, virtude de Aristóteles? Curitiba não é assim, no singular. Ah, veludo! Eu te sirvo. Como desce. Vai, prova. Um brinde. Curitiba é feita de território. Em cima do qual perambulam milhões de pessoas. O humano não é detalhe. Conhece o Batel? Tinha certeza, a cara de susto, como diz “quem não conhece?”. E eu perguntar “conhece o Cachimba?”. Tão abstrato quanto a Faixa de Gaza. Abro a persiana para mostrar uma coisa. É fogo. Olha a lâmina torta. Já falei para a Maria, custou uma nota, ensinei a abrir, mas. É duro. Lá fora: vemos aqui de cima: a cidade é organismo. Pessoas cumprem funções: crianças para crescer, escola, emprego, consumo. Energia para servir o consumo dos outros. Na troca, salário para consumir. O serviço dos outros. Mecânica perfeita? Ih, olhe lá, bateram, um flagrante. Olhe, vê lá? A mulher bateu atrás da Kombi. O cara sendo esquentado, dá rolo. Seguradoras dizem mulher é mais cuidadosa. Eu digo mais barbeiras. Elas ficam brabas. Só uma, do trabalho, concorda. Porque tem intenções. Me agradar. Um dia cuido da carência. Continuo: desse vigésimo andar, a cidade-organismo, indivíduo dependendo do outro. Pense quem lá dentro do carro vermelho: não conhece quem no caminhãozinho atrás. Nunca olhará para ele. E pode que o do carro vermelho use algo que é o caminhão detrás quem distribui. Relação. Já olhou para dois milhões de pessoas? Jamais verá todos. Você não bebe enquanto entrevista? Mais um pouco? Eu, sim. Você disse que entrevistou alguém da favela, uma pessoa. Entre chegada e partida, vinte cruzaram você. Só. No meio do cortiço todo, milhares. Sem contar cães sarnentos. Por metro quadrado, assustador. Lembram leprosários, idade média. Em Paris só vira-latas de qualidade. Faltam sair à rua com cachecol e piteira.

Você me deixa falar, eu divagando. Volto. Se quiser fumar, à vontade. Aqui um Gauloise. Forte. Eu dizia é difícil Curitiba sem pensar suas partes. Analisar para sintetizar. Com exemplos: você entrevistou favelado. Ele: resposta x. Vai entrevistar rico: y. Eu dou olhar de fora, apreendo vozes distintas do tecido social. Entende? Ajudo você a compor mosaico e parir totalidades: é meu trabalho. Para elite, Curitiba é cidade muito boa: só pegar avião e voar a outro lugar. Brinco, claro. Elite consome o melhor de tudo, papel higiênico com vitamina D e cheiro de pêssego. Sabonete esfoliante e hidratante: arranha e assopra. Automóvel. Escola, saúde. Melhores cachaças. Frio do cão. Quem tem coragem de dizer que inferno é quente? Viva o conhaque, aquecimento global. Maria, garrafa terminando! Você edita a entrevista, bom. Assunto puxa assunto. Volto ao cidadão de elite.

Quer exercícios: academias, parques. Bens culturais: livros, filmes, museu maravilhoso, festival de teatro maior do Brasil. Diversão: cafés, vida noturna refinada. É que tem a mania autofágica, bocas malditas, devorações. Prefiro ser intelectual orgânico, o olhar isento de agrotóxico. Abaixo as mistificações.

Mas. Mas há sempre um mas. Mas que demora, Maria, vai se espertando. Tim-tim. Vê, não desce queimando. Maria, deixa a garrafa, aonde vai com ela? Onde eu estava? Sim, no mas. Antes, te sussurro: Maria bebe restos de copos e garrafas, desconfio. Esqueci o mas.

Que seja: um indivíduo classe A diz Curitiba é maravilha. Podemos dizer é maravilha para todos de tal classe? É padrão? Evidente: não. Entram questões íntimas. Um pouco mais, beberiquemos, primeiros copos só para matar sede. Fique à vontade, sirva-se. Fresta na janela, fumaça a sair. Assim. Temos o sujeito padrão, mas abstrato, não existe na carne e no osso. Um rico, exemplo, vê idade sem freio, no horizonte presença da morte: adeus, qualquer padrão. Você não bebe nada. Entende o que digo? A rigor, estereótipo só no imaginário, as individualidades demais marcadas. Você pode entrevistar todas as pessoas. Ainda assim, só um retrato, fiel a instante. Ínfimo. Um que dormiu mal, torcicolo ou broxou: vai responder atravessado. Vê portarretrato embaixo do Guignard? Filha mais velha. Tinha cinco ou seis anos. Hoje, vinte e três. Ela é a mesma? Não. Aparência, pensar, gir. Sabe o rio do Heráclito? Vou pegar mais um pouco. Se fosse você, garantiria um gole, não vou abrir outra. Boa a ideia desse teu livrinho. Louvável entrevistar ícones, memória eternizada. Curitiba violenta, o trânsito, as pessoas. Rico se sente seguro? Não. Blinda carros. E trânsito? Marquei um jantar. Às oito. Saí sete e meia. Fosse domingo, quinze minutos. Segunda-feira, nunca. Tudo parado. Outro caminho, virar à direita na Coronel Dulcídio. Viro: mar de carros. Ligar para minhas filhas. Para minha mulher. Explicar: me atraso. Adivinha? Minha mais velha: parada na Mariano Torres. A mais nova: encurralada na Martim Afonso.

Minha mulher: Emiliano Perneta. Nossos quatro automóveis imóveis. No telefone, minha mulher grita. Assalto, pensei. Só tinha tocado um ciclista. Nada, mas o babaca com papo besta. Jantamos irritados, o buquê do vinho já murcho. Te sirvo mais um pouco e termino a garrafa. Aí: outro lado da questão. Falar em assalto, penso nos favelados. Nem sei o que o favelado te respondeu, mas, entreviste o vizinho dele: diferente. Peguei você olhando para o meu copo, hein?

Mais uma garrafa? Quer sim, eu sei. Ler gestos. Maria! Outra garrafa. Bebe, bebe um pouco. Frio do inferno. Conserto do aquecedor, só depois de amanhã. Esses caras. Devagar, quase parando. O rapaz, voz muito da safada. Papo de “no frio o serviço aumenta”. Que contrate. Um tipo como aquele, nada com nada. Claro, são ignorantes. Eis exemplo — saúde! — de como organismo vivo, a cidade, fica doente. Anomalias assim. Vermes: Cândido 33 doença para o corpo. Vermes sociais: doença para a cidade. O copo — desculpe — o corpo, metáfora de relação. Não sei se você ou o conhaque, mas eu inspirado.

Você é jovem, verdade crua desestabiliza, sei. O da favela acha Curitiba um horror porque polícia funciona para os de bem — só mais uma dose, bênção. Aluno feliz, que não tem aula. Para nós, nação letrada, só depõe contra. Cidade ser boa ou não, relativo. Eu digo: abaixo as verdades únicas, um brinde ao — opa, caiu.

Curitiba, imitaçãozinha de São Paulo. O mundo discute globalização, conflito ocidente e oriente. Aqui fica falando da polenta de Santa Felicidade. Saideira?

Então eu bebo o teu. Desperdício zero, hehehic. Você me escute: o conhaque me deixa visionário: — cuspi em você? não foi nada — você me escute: essa pobraiada toda vai vir para cá, grave o que digo, aí nessa porrinha de gravador: consegui a síntese. Esses merdas vêm pra cá, não querem ser igual São Paulo? Corpo tem doença, ó, contagia. Transmite vermes sociais. Pega o mapa, a gente logo abaixo de São Paulo, pra baixo todo o santo ajuda. Imagina o diabo. Vai empurrar tudo mas ele não vem, o desgraçado, manda todo o mundo mas ele não vem passar frio aqui. Esse copo escorrega. Minha mulher me mata. Esse tapete, uma nota, a bruxa velha me enche o saco. Maria, vem limpar essa bosta. Meu jovem, o corpo é comparação boa, a cidade, os vermes...

Stop.

Cezar Tridapalli é escritor. Autor do romance Pequena biografia de desejos (2011). Vive em Curitiba (PR).